Sobre João Amaral (1943-2003)

Até Caim, primeiro agricultor


      À margem da língua, mas não à margem da Infopédia: revi uma entrevista que o antigo deputado do PCP João Amaral, um homem admirável, deu em 2002, menos de um ano antes de morrer, a Ana Sousa Dias (Por Outro Lado) e em que disse mais de uma vez que o pai era «funcionário superior do regime, um funcionário com responsabilidades elevadas dentro do regime de Salazar». A Infopédia, porém, prefere enfatizar — tal como fez então o PCP — que era «descendente de uma família de camponeses da Beira Alta». Isto quando forçosamente nem sequer conviveu com essa parte da família, já que, sendo o pai «um desses funcionários que o Salazar mandava andar de terra em terra», passou pelos Açores (de onde saiu com 18 meses), Portalegre, Tomar, Faro, Aveiro e Santarém, tendo ido para a Universidade de Coimbra. Era, ele mesmo o reconheceu, um dos privilegiados do regime, graças à posição do pai. Portanto, para quê falar dos antepassados camponeses? Não somos quase todos, neste país rural, descendentes de camponeses? Este enfoque pode servir os interesses do PCP (embora tivesse saneado João Amaral das listas de deputados), mas decerto que não os da Porto Editora nem os dos leitores.

[Texto 22 973]

Definição: «rotor | catraca»

Rotativa, não oscilante


      Estamos agora mais bem preparados para compreender a definição de ➜ rotor peça rotativa, geralmente semicircular, dos relógios automáticos, que gira com os movimentos do pulso e, por meio de um sistema de engrenagens, transmite energia à mola principal, dando corda ao relógio. 

      Para isto funcionar como funciona, tem sempre também (quer nos relógios de corda manual quer nos automáticos) de existir uma ➜ catraca 5. mecanismo formado por uma roda dentada de dentes assimétricos e uma lingueta, que permite o movimento num só sentido, impedindo o recuo.

[Texto 22 972]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Este mecanismo, o da catraca, está na base do sistema de dar corda aos relógios mecânicos, explicando que a rotação da coroa só produza efeito num dos sentidos, como vimos no post scriptum do texto anterior. Também é usado em diversos dispositivos mecânicos, como bicicletas, chaves de caixa e torniquetes.



Definição: «corda»

Ou como se fôssemos coxos


      A última aquisição, um Traser com trítio, agora o preferido (será assim também, imagino, na poliginia e, em geral, na poligamia), até é de quartzo, mas falemos de corda, que não é bem isto que a Porto Editora diz: «fio ou lâmina, enrolado em espiral, que produz movimento em certos maquinismos». É mais assim ➜ corda elemento elástico, geralmente metálico, constituído por uma lâmina ou fio enrolado em espiral, que acumula energia mecânica ao ser enrolado ou tensionado e a restitui sob a forma de movimento, usado em mecanismos como os relógios.

[Texto 22 971]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Nos relógios mecânicos, a corda é dada pela coroa, actuando o sistema apenas num dos sentidos de rotação; no sentido inverso, a coroa roda em vazio. Por isso, a rotação alternada nos dois sentidos, como durante muito tempo se ensinou, não é prejudicial, mas é em parte ineficaz, por não produzir efeito em metade dos movimentos, como se, ao caminhar, se dessem dois passos em frente e um atrás. Nos relógios automáticos, a corda pode também ser dada pelo movimento do pulso, por meio de um rotor, que pode carregar a mola apenas num sentido ou em ambos. Nos relógios de corda manual, essa unidireccionalidade é normalmente assegurada por uma catraca; nos automáticos, porém, podem encontrar-se sistemas mais complexos, como rodas reversoras.


Definição: «actígrafo | actigrafia»

Vários parâmetros


      «Um dispositivo desenvolvido por professores e ex-alunos da USP contribuiu no monitoramento da saúde de astronautas na Artemis 2, a primeira missão tripulada à Lua deste século. Na universidade, o dispositivo foi construído para viabilizar estudos sobre sono e cronobiologia. Chamado de actígrafo, o aparelho mede exposição à luz, temperatura do punho e atividade do braço. Na Nasa, ele faz parte do Programa de Estudo Humano e ajudou a medir padrões do sono e da vigília dos astronautas da Artemis 2. Esse é o único actígrafo desenvolvido em solo brasileiro» («Astronautas usaram ‘relógio’ brasileiro para monitorar saúde em jornada lunar», Ramana Rech, Folha de S. Paulo, 11.05.3036, p. B12). 

      A empresa que os fabrica, a brasileira Condor Instruments, diz que vende os dispositivos principalmente para clínicas da Europa e dos EUA. O Hospital da Luz, por exemplo, dispõe destes dispositivos, que fazem mais do que se lê na definição da Porto Editora: «dispositivo de monitorização, geralmente usado no pulso, que regista os momentos de sono e actividade de um indivíduo». Não falta informação, a começar pela disponibilizada na página da internet do Hospital da Luz. Assim, proponho ➜ actígrafo MEDICINA dispositivo electrónico portátil, geralmente usado no pulso da mão não dominante, que regista continuamente a actividade motora e outros parâmetros fisiológicos de um indivíduo, permitindo monitorizar ciclos de sono-vigília e ritmos circadianos.

[Texto 22 970]

Definição: «miosótis»

Pode acontecer


      «“Vergissmeinnicht”, “ne-m’ou-bliez-pas”, “forget-me-not” ou “nontiscordardimé”, le myosotis a droit au même surnom dans de multiples langues, surnom provenant d’une légende germanique: alors qu’un chevalier et sa dame se promenaient au bord d’une rivière, l’homme voulut cueillir une fleur sur la rive, mais le poids de son armure l’entraîna dans l’eau; avant de disparaître, il lança la fleur à son aimée en lui criant: “Vergiss mein nicht”» («Avec le myosotis, le printemps nous fait un clin d’œil bleu azur», Isabelle Erne, 24 heures, 2.05.2026, p. 22). 

      Muito interessante. Em relação ao Myosotis welwitschii, quando a Porto Editora diz que é «existente em Portugal», pode alguém entender que só existe em Portugal. Antes assim ➜ miosótis BOTÂNICA (Myosotis welwitschii) espécie de miosótis, planta herbácea anual ou bienal de habitats húmidos, presente em Portugal, com caules hirsutos, folhas alternas e flores azul-pálidas com centro amarelo, podendo atingir cerca de um metro de altura.

[Texto 22 969]

Léxico: «descarcerizar | descarcerização»

Ainda (mais ou menos) policial


      «“A modificação de execução de pena e a adaptação à liberdade condicional são residuais”, salienta aquela socióloga [Rafaela Granja, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho]. “Se temos uma possibilidade de fazer um processo de descarcerização, de retirar pessoas da prisão para que elas possam voltar às suas casas e estar em processo de adaptação, porque não a usamos?”» («Sobrelotação subiu para os 106%: é “urgente” discutir como reduzir número de reclusos», Ana Cristina Pereira, Público, 11.05.2026, 7h00).

[Texto 22 968]

Como se fala por aí

Então agora é assim?


        O porta-voz da PSP, Sérgio Soares, que participou hoje no programa Consulta Pública, na Antena 1, lamentou o caso dos alegados maus-tratos nas esquadras do Rato e do Bairro Alto, em Lisboa. Sérgio Soares frisou que a PSP denunciou o que aconteceu e tem colaborado com a investigação. Era o que faltava que não colaborasse, digo eu. «É lamentável», afirmou, «que existam estas alegações e estes indícios. De referir que a Polícia de Segurança Pública, logo que teve conhecimento das alegadas suspeitas de polícias no cometimento de situações graves, que consideramos, aliás, muito graves, deu início à respectiva denúncia ao Ministério Público, à autoridade judiciária competente...» 

      Então agora são alegadas suspeitas? Já não são apenas os factos, as próprias suspeitas são meramente alegadas? A formulação acaba por insinuar — involuntariamente, decerto — que nem sequer está assente a existência de suspeitas reais. Como se alguém tivesse apenas alegado que havia suspeitas, mas essas suspeitas ainda carecessem elas próprias de confirmação. Reveja bem isto, senhor subintendente Sérgio Soares.

[Texto 22 967]

Extras! Extras! Extras!

Está a entrar


      «Uma das incompatibilidades é a prestação de serviços de médicos que não estão dispostos a fazer horas extras para além do previsto» («Governo quer menos peso dos tarefeiros na urgência», Edgar Nascimento, Correio da Manhã, 8.05.2026, p. 19). «Governo aprovou diploma que regula prestações de serviços, bem como regime de incentivos às horas extras na urgência» («Medidas “draconianas” podem levar a fuga do SNS», Inês Schreck e Ana Maia, Público, 8.05.2026, p. 12). «É o que está previsto no decreto-lei, aprovado pelo Governo na quinta-feira, que estabelece a atribuição de incentivos remuneratórios aos médicos que fazem mais horas extraordinárias na urgência do que as previstas na lei (150 horas extras/ano ou 250 horas, se for em dedicação plena)» («Médicos disponíveis para urgências terão bónus mesmo que não sejam chamados», Inês Schreck, Público, 9.05.2026, p. 19).

[Texto 22 966]

Arquivo do blogue