Extras! Extras! Extras!

Está a entrar


      «Uma das incompatibilidades é a prestação de serviços de médicos que não estão dispostos a fazer horas extras para além do previsto» («Governo quer menos peso dos tarefeiros na urgência», Edgar Nascimento, Correio da Manhã, 8.05.2026, p. 19). «Governo aprovou diploma que regula prestações de serviços, bem como regime de incentivos às horas extras na urgência» («Medidas “draconianas” podem levar a fuga do SNS», Inês Schreck e Ana Maia, Público, 8.05.2026, p. 12). «É o que está previsto no decreto-lei, aprovado pelo Governo na quinta-feira, que estabelece a atribuição de incentivos remuneratórios aos médicos que fazem mais horas extraordinárias na urgência do que as previstas na lei (150 horas extras/ano ou 250 horas, se for em dedicação plena)» («Médicos disponíveis para urgências terão bónus mesmo que não sejam chamados», Inês Schreck, Público, 9.05.2026, p. 19).

[Texto 22 966]

O AO90 no dia-a-dia

É a grande compreensão que têm


      «À luz do que se sabe, diz [a infecciologista e ex-secretária de Estado para a Promoção da Saúde Margarida Tavares], “podemos questionar se é preciso uma quarentena tão prolongada e a ser cumprida numa unidade de saúde. Penso que poderia haver uma recomendação para que as pessoas permanecessem em casa e se abstivessem de contatos próximos. Era muito mais humano, as pessoas serem aí vigiadas diariamente por um profissional de saúde”» («“Alarme social prova que países ainda não estão preparados para casos de saúde pública”», Ana Mafalda Inácio, Diário de Notícias, 11.05.2026, p. 5). 

      Isto é que é uma compreensão profunda da língua e do Acordo Ortográfico de 1990, Ana Mafalda Inácio. Convém que reveja urgentemente a matéria.

[Texto 22 965]

Léxico: «churra-mondegueira | manta lobeira | manta barrenta | râmbola»

Afinal, são várias


      Uma reportagem no Conta Lá sobre o cobertor de papa, produto artesanal feito em Maçaínhas, Guarda, veio contribuir para se perceber melhor as suas características. Maria do Céu Reis, fundadora da Associação O Genuíno Cobertor de Papa e artesã, explicou que a lã é apenas de ovelhas churras-mondegueiras e churras-do-campo (estas provenientes de Penamacor, e não tão genericamente da Beira Baixa, como se lê nos dicionários). O cobertor que se vende mais ainda é a manta lobeira (com listas nas cores verde, vermelha, amarela e castanha), apesar de cada vez mais os compradores quererem cobertores brancos ou castanhos, porque não têm os químicos dos que são tingidos. Às que bicolores, brancas e castanhas, dão o nome de mantas barrentas ou do pastor. Também fiquei a saber que às estruturas, quadros enormes, onde põem as mantas e cobertores bem esticados a secar se dá o nome de ramblas ou râmbolas.

[Texto 22 964]

Léxico: «republicanizar-se»

Também pronominal


      «Daí em diante fervem os pedidos: o hábito de S. Tiago para o editor Eduardo da Costa Santos, em perigo de republicanizar-se; o juiz de direito de S.ᵗᵒ Tirso que não quer ir para os Açores» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 203). Límpido é no Houaiss: «tornar(-se) republicano; converter(-se) em república».

[Texto 22 963]

Léxico: «darija»

Terminamos assim


      «Asimismo, se le suele describir como un joven inteligente y bien preparado. Por ejemplo, es capaz de hablar fluidamente cuatro idiomas: el árabe, el francés, el inglés e incluso el castellano» («Mulay, el príncipe marroquí que acelera su preparación para relevar a Mohamed VI», Richard G. Samaranch, La Voz de Galicia, 10.05.2026, p. 27). Só? Outro jornalista foi tirar a coisa a limpo: «Habla árabe clásico у dialectal marroquí (dariya), amazig o bereber, inglés, francés y español, y también está aprendiendo chino mandarín» («Mulay Hasán, el príncipe de Marruecos, se prepara para reinar», Juan Carlos Sanz, El País, 9.05.2026, p. 50). 

      Também se dizia que Leão XIV falava português. Bem, diz-se sempre muita coisa. Espantoso, pela proximidade geográfica e histórica, é «darija» não estar nos nossos dicionários, quando abundam textos, sobretudo académicos, em que se usa a palavra assim transliterada. Dada a lacuna, proponho ➜ darija LINGUÍSTICA variedade dialectal do árabe magrebino falada sobretudo em Marrocos, caracterizada pela forte influência lexical e fonética do amazigue, do francês e do espanhol, usada principalmente na comunicação quotidiana e distinta do árabe padrão moderno.

[Texto 22 962]

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P. S.: Não posso concordar que seja um sentido figurado, e isto pela mais prosaica das razões: alguém conhece o sentido real de «escama-peixe»? Não, só pode haver aí confusão.


Definição: «norovírus»

Porque é o sintoma mais característico


      «O norovírus — conhecido como o “vírus dos vómitos” — é a infeção mais frequentemente associada aos cruzeiros. Numa revisão de estudos anteriormente publicados, os investigadores identificaram 127 relatos de surtos de norovírus em navios de cruzeiro, muitos deles associados a alimentos contaminados, superfícies contaminadas e transmissão entre pessoas. Um relatório mais recente dos Estados Unidos demonstrou igualmente que o norovírus pode propagar-se muito rapidamente de pessoa para pessoa num navio de cruzeiro» («Hantavírus, norovírus e Covid-19. Porque é que os surtos se espalham tão depressa nos cruzeiros?», The Conversation/Reuters/Rádio Renascença, 10.05.2026, 8h00). 

      Tanto assim é que eu proponho definir desta maneira ➜ norovírus BIOLOGIA, MEDICINA designação comum aos vírus do género Norovirus (que inclui o agente responsável pela maioria dos surtos de gastroenterite), frequentemente conhecidos como «vírus dos vómitos», que apresentam alta resistência e capacidade infecciosa, causando sintomas como vómitos, diarreia, febre e cólicas abdominais.

[Texto 22 961]

Léxico: «floresta primária»

Reunidas as condições


      Vi ontem o filme Ouro Verde (La Promesse Verte, de Édouard Bergeon, 2024) e, ao falarem, e foi várias vezes, em florestas primárias, também ditas primevas, vi que tinha tudo para ir para o dicionário. Afinal, não está lá já «floresta urbana», Porto Editora? Que, diga-se, é designação mais auto-explicativa. Assim, proponho ➜ floresta primária ECOLOGIA floresta de regeneração natural composta por espécies autóctones, sem indícios significativos de actividade humana e cujos processos ecológicos se mantêm pouco perturbados.

[Texto 22 960]

Definição: «fitonutriente»

Não é para especialistas


      «Des études ont démontré un effet protecteur du café, en particulier contre les cancers du sein, du foie et de la prostate. Cet effet positif s’explique principalement par la présence dans le café de phytonutriments. Ces composants naturels des plantes, qui font partie des principales substances végétales secondaires, neutralisent les radicaux libres grâce à leur action antioxydante. Or, en résumant à l’extrême, ce sont ces radicaux libres qui, provoquant un stress oxydatif, favorisent la croissance des cellules cancéreuses» («Le café, c’est bon pour la santé. Mais sans lait!», Stefan Aerni, Le Matin Dimanche, 10.05.2026, p. 44). 

      A sensação que se tem ao ler a definição de «fitonutriente» no dicionário da Porto Editora é de que falta o principal: «substância biologicamente activa, presente em diferentes alimentos vegetais, que se crê ser benéfica para a saúde, nomeadamente pela sua capacidade para prevenir diversas doenças». Só isto, «biologicamente activa»? Assim, proponho ➜ fitonutriente BIOQUÍMICA composto orgânico biologicamente activo, produzido por plantas e presente em alimentos de origem vegetal, geralmente associado a efeitos benéficos para a saúde, nomeadamente por acção antioxidante ou anti-inflamatória.

[Texto 22 959]

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