Léxico: «palácio mental/ da memória»

Memorizem também isto


      «Sans viser de tels sommets, une étude publiée en 2017 dans la revue “Neuron” montre que des individus comme vous et moi peuvent eux aussi tirer un bénéfice notable du palais mental. Dans ce protocole, des participants sans entraînement préalable retenaient au départ 26 à 30 mots, en moyenne. Après quelque six semaines d’entraînement régulier à cette technique, ils mémorisaient en moyenne 35 mots supplémentaires. Et quatre mois plus tard, ils conservaient encore un gain de 22 mots» («Entraîner son cerveau, c’est bon à tout âge!», Caroline Zuercher, Le Matin Dimanche, 10.05.2026, p. 16). 

      Devia estar nos dicionários, assim ➜ palácio mental/ da memória PSICOLOGIA, PEDAGOGIA técnica mnemónica que consiste em associar mentalmente informações a diferentes lugares de um espaço imaginário familiar, de modo a facilitar a sua memorização e evocação posterior; palácio mental; método de loci.

[Texto 22 958]

Léxico: «literatiço»

Exilado no Brasil


      «Em conclusão, todos estes preitos de literatos e literatiços não eram mais que o incensório normal à marquesa de Rambouillet portuense» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 60).

[Texto 22 957]

Léxico: «mnemonista»

Memorizem


      «De quoi s’agit-il? Nous sommes ici dans une discipline qui consiste à mémoriser rapidement, et de manière précise, des informations arbitraires, telles que chiffres, cartes, mots, images, dates fictives ou associations de noms et de visages. Ces pros de la “carte mémoire” ont un nom: les mnémonistes» («Un jeune prodige de la mémoire livre ses secrets», Ivan Radja, Le Matin Dimanche, 10.05.2026, p. 15).  

      Ora, também o temos, só não está onde devia. Assim, proponho ➜ mnemonista pessoa que pratica técnicas de memorização intensiva, geralmente com o objectivo de reter e reproduzir com rapidez e exactidão grandes quantidades de informação arbitrária, como números, palavras, cartas, rostos ou datas; especialista em mnemónica.

[Texto 22 956]

Definição: «latência»

Porque não é


      «Deverá desenrolar-se ao longo do ano e trará “clara vantagem para o cliente”, explica a empresa, prometendo maior velocidade de navegação e menor latência (ou tempo de espera) com o reforço das redes 4G e 5G» («Portugal segue movimento global e desliga este ano as redes 3G», Ana Brito, Público, 9.06.2024, p. 18). 

      Portanto, faz muito mal a Porto Editora em restringir à informática o termo, como se vê: «INFORMÁTICA período de tempo decorrido entre o momento em que é dado um comando e a efetiva execução da respetiva operação». Aliás, não é o único problema da definição, pelo que proponho ➜ latência INFORMÁTICA, TELECOMUNICAÇÕES período de tempo decorrido entre o momento em que é dado um comando ou enviado um sinal e a execução da respectiva operação ou a recepção da resposta.

[Texto 22 955]

Definição: «borrada»

E pronto, é isto


      «Fizeste borrada da grossa com as reformas, Andrezito» (João Miguel Tavares, Público, 7.05.2026, p. 40). Há sempre alguém a fazer borrada, quando não burrada. Em sentido figurado, são mais ou menos o mesmo. A mesma merda, digamos. De borrada diz a Porto Editora que é a «coisa mal feita». Deve ter pretendido exemplificar com a própria definição, porque correcto é como está na 2.ª acepção de chachada: «coisa malfeita».

[Texto 22 954]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Pode ser falha minha, Porto Editora, mas não estou a ver, por mais voltas que lhe dê, a jocosidade da designação «escama-peixe».



Léxico: «poesia visual»

Se existe


      «Assim como a poesia visual questionou os limites da linguagem e as páginas de papel, a literatura digital prolonga esse movimento num ambiente tecnológico. A passagem, aparentemente disruptiva, é, na verdade, uma continuidade das transformações da literatura ao longo dos séculos, sempre sensível ao suporte, ao modo de leitura e ao papel do leitor» («O reconhecimento incipiente da literatura digital e da poesia visual», Maria C. Maltez, Visão, 30.04.2026, p. 81).

      Para começar, devíamos definir e dicionarizar ➜ poesia visual LITERATURA forma de expressão poética em que a disposição gráfica dos elementos verbais (letras, palavras, versos) e/ou a integração de componentes não verbais (imagens, cores, sinais) participa activamente na construção do sentido, podendo a leitura depender tanto da percepção espacial e visual como da decifração linguística, frequentemente explorando a materialidade do texto, a tipografia e a relação entre ver e ler, em suportes impressos ou digitais.

[Texto 22 953]

⋅ ── ✩ ── ⋅

 

P. S.: Não me escapou na altura, mas não posso fazer tudo ao mesmo tempo: se «biruta» pertence aos domínios AERONÁUTICA, METEOROLOGIA, «manga-de-vento», seu sinónimo, não pode estar fora desses domínios.



Definição: «igualdade»

Ora essa!


      «A perda de nacionalidade como pena acessória foi novamente declarada inconstitucional, anunciou esta sexta-feira o Tribunal Constitucional (TC). [...] Apesar das alterações do Parlamento, os juízes consideram que “a norma mantém a diferenciação materialmente censurada” anteriormente pelo Tribunal Constitucional. “Produz um efeito discriminatório” e viola o princípio da igualdade» («Perda de nacionalidade como pena acessória declarada inconstitucional», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 8.05.2026, 18h27). 

      Só alguém sem a mínima noção das coisas — como certos, demasiados, deputados — podia pensar que isto passava no Tribunal Constitucional. Como não conseguimos endireitar estas cabeças, endireitemos os dicionários. A Porto Editora define assim «igualdade» nesta acepção: «princípio de organização social segundo o qual todos os indivíduos devem ter os mesmos direitos, deveres, privilégios e oportunidades». 

      A sensação imediata é de quem redigiu a definição parece ter partido de uma vaga ideia de igualitarismo social e não do conceito jurídico-constitucional de igualdade. Igualdade de privilégios? Na tradição jurídica portuguesa, e basta pensar no artigo 13.º da Constituição, a igualdade não consiste em todos terem os mesmos privilégios. Pelo contrário: o constitucionalismo moderno nasceu, em grande medida, precisamente contra os privilégios jurídicos de ordens, estamentos ou grupos particulares. Aliás, historicamente, privilégio e igualdade são quase conceitos antagónicos. O privilégio é uma excepção favorável; a igualdade jurídica procura eliminar privilégios arbitrários. Isto faz-me lembrar uma montagem da Rádio Observador em que aparecem vários entrevistados, comentadores, jornalistas que a determinado ponto dizem «eu não sou jurista, mas». Perante tal panorama, proponho ➜ igualdade DIREITO princípio constitucional segundo o qual todos os cidadãos têm igual dignidade perante a lei e devem beneficiar da mesma protecção jurídica.

[Texto 22 952]

Etimologia: «final»

Afinal...


      «Pour la deuxième année consécutive, le Paris Saint-Germain s’est qualifié pour la finale de la Ligue des champions. Le mot vient du latin finis, qui désigne la frontière : celle qui sépare une bonne équipe d’une équipe légendaire» («Finale», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.05.2026, p. 32). 

      Na etimologia, a Porto Editora pensa que resolve sempre tudo com «idem». E isso é particularmente absurdo aqui, porque «final» tem uma família lexical e semântica riquíssima, perfeitamente explorável numa nota etimológica minimamente cuidada. Assim, proponho ➜ do latim finālis, e, «relativo ao fim, terminal», derivado de finis, «fim, limite, fronteira».

[Texto 22 951]

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