Léxico: «poesia visual»

Se existe


      «Assim como a poesia visual questionou os limites da linguagem e as páginas de papel, a literatura digital prolonga esse movimento num ambiente tecnológico. A passagem, aparentemente disruptiva, é, na verdade, uma continuidade das transformações da literatura ao longo dos séculos, sempre sensível ao suporte, ao modo de leitura e ao papel do leitor» («O reconhecimento incipiente da literatura digital e da poesia visual», Maria C. Maltez, Visão, 30.04.2026, p. 81).

      Para começar, devíamos definir e dicionarizar ➜ poesia visual LITERATURA forma de expressão poética em que a disposição gráfica dos elementos verbais (letras, palavras, versos) e/ou a integração de componentes não verbais (imagens, cores, sinais) participa activamente na construção do sentido, podendo a leitura depender tanto da percepção espacial e visual como da decifração linguística, frequentemente explorando a materialidade do texto, a tipografia e a relação entre ver e ler, em suportes impressos ou digitais.

[Texto 22 953]

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P. S.: Não me escapou na altura, mas não posso fazer tudo ao mesmo tempo: se «biruta» pertence aos domínios AERONÁUTICA, METEOROLOGIA, «manga-de-vento», seu sinónimo, não pode estar fora desses domínios.



Definição: «igualdade»

Ora essa!


      «A perda de nacionalidade como pena acessória foi novamente declarada inconstitucional, anunciou esta sexta-feira o Tribunal Constitucional (TC). [...] Apesar das alterações do Parlamento, os juízes consideram que “a norma mantém a diferenciação materialmente censurada” anteriormente pelo Tribunal Constitucional. “Produz um efeito discriminatório” e viola o princípio da igualdade» («Perda de nacionalidade como pena acessória declarada inconstitucional», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 8.05.2026, 18h27). 

      Só alguém sem a mínima noção das coisas — como certos, demasiados, deputados — podia pensar que isto passava no Tribunal Constitucional. Como não conseguimos endireitar estas cabeças, endireitemos os dicionários. A Porto Editora define assim «igualdade» nesta acepção: «princípio de organização social segundo o qual todos os indivíduos devem ter os mesmos direitos, deveres, privilégios e oportunidades». 

      A sensação imediata é de quem redigiu a definição parece ter partido de uma vaga ideia de igualitarismo social e não do conceito jurídico-constitucional de igualdade. Igualdade de privilégios? Na tradição jurídica portuguesa, e basta pensar no artigo 13.º da Constituição, a igualdade não consiste em todos terem os mesmos privilégios. Pelo contrário: o constitucionalismo moderno nasceu, em grande medida, precisamente contra os privilégios jurídicos de ordens, estamentos ou grupos particulares. Aliás, historicamente, privilégio e igualdade são quase conceitos antagónicos. O privilégio é uma excepção favorável; a igualdade jurídica procura eliminar privilégios arbitrários. Isto faz-me lembrar uma montagem da Rádio Observador em que aparecem vários entrevistados, comentadores, jornalistas que a determinado ponto dizem «eu não sou jurista, mas». Perante tal panorama, proponho ➜ igualdade DIREITO princípio constitucional segundo o qual todos os cidadãos têm igual dignidade perante a lei e devem beneficiar da mesma protecção jurídica.

[Texto 22 952]

Etimologia: «final»

Afinal...


      «Pour la deuxième année consécutive, le Paris Saint-Germain s’est qualifié pour la finale de la Ligue des champions. Le mot vient du latin finis, qui désigne la frontière : celle qui sépare une bonne équipe d’une équipe légendaire» («Finale», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.05.2026, p. 32). 

      Na etimologia, a Porto Editora pensa que resolve sempre tudo com «idem». E isso é particularmente absurdo aqui, porque «final» tem uma família lexical e semântica riquíssima, perfeitamente explorável numa nota etimológica minimamente cuidada. Assim, proponho ➜ do latim finālis, e, «relativo ao fim, terminal», derivado de finis, «fim, limite, fronteira».

[Texto 22 951]

Definição: «sachê»

O tal mistério


      «O crime organizado dos vendedores de nicotina ataca de novo. Além de pressionar a Anvisa para liberar os cigarros eletrônicos, agora querem aprovar os sachês de nicotina, saquinhos que contêm doses altas da droga, para ser absorvida quando colocada entre a gengiva e a bochecha» («Sachês de nicotina», Drauzio Varella [médico cancerologista, autor de Estação Carandiru], Folha de S. Paulo, 7.05.2026, p. B10). 

      Porto Editora, parece que não conheces bem o brasilês: «saquinho com substâncias aromáticas, usado para perfumar armários, gavetas, roupa, etc.; almofadinha». Mas também há outra coisa que me faz espécie: como toda a gente sabe, o dicionário da Porto Editora tinha centenas de termos marcados indevidamente como brasileirismos. Tem-se vindo a corrigir isso nos últimos oito anos. Ainda terá alguns, sabe Deus quantos. Em contrapartida, há termos que não aparecem assinalados como tal, e são-no. Por exemplo? Ora, ora, estes mesmos, «sachê» e «cancerologista».

[Texto 22 950]

Léxico: «propicioso»

Paradeiro conhecido: Brasil


      «Seja como for, algum facto sobreveio que Camilo considerou propicioso e lhe permitiu mudar de comportamento com Ana Plácido» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 347).

[Texto 22 949]

Léxico: «lek»

Vai uma sueca


      O que significa que estão atentos: a juntar ao lek albanês vamos ter este ➜ lek ORNITOLOGIA, ETOLOGIA área onde machos de certas espécies, sobretudo aves, se reúnem para realizar exibições nupciais colectivas destinadas a atrair fêmeas; por extensão, o próprio conjunto desses comportamentos de cortejo. 

      Quanto à etimologia, vem do sueco lek, «jogo, brincadeira», por alusão ao comportamento exibicionista dos machos.

[Texto 22 948]

Definição: «dálita»

Se está fora, nem alta nem baixa


      Num romance, apareceu-me, em boa hora, uma família dálita. Já sabem, oportunidade para corrigir definições. Assim, quando o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora garante que é o «membro da casta mais baixa, no antigo sistema de castas indiano; pária», erra em dois pontos capitais: não apenas os dálitas não são a casta mais baixa, porque se encontram fora desse sistema, como a equivalência a pária é falso. Tudo visto, proponho ➜ dálita SOCIOLOGIA (Índia) membro das comunidades tradicionalmente situadas fora do sistema de castas hindu, historicamente sujeitas a exclusão social e discriminação. 

      Em dois pontos? Talvez em três. É verdade que, juridicamente, a discriminação baseada em castas foi abolida na Constituição da Índia de 1950, e que o Estado indiano adopta políticas de acção afirmativa para as chamadas castas desfavorecidas. Mas isso não significa que o sistema de castas tenha desaparecido enquanto realidade social: continua a influenciar práticas, relações e mentalidades em muitas regiões, com intensidade variável.

[Texto 22 947]

Léxico: «galo-lira | tetraz-lira»

Agora com mais tempo e tento


      «Selon une étude française publiée en 2013, plus de 835 oiseaux sont morts dans les Alpes et les Pyrénées françaises à cause des câbles de remontées mécaniques sur la période 1997-2009. Les téléskis, plus proches du sol (et plus souvent fréquentés, ce qui augmente la probabilité de trouver des cadavres), apparaissent comme les plus meurtriers: ils concernent 78% des collisions fatales. Parmi toutes les espèces impliquées, le tétras-lyre (Lyrurus tetrix), ce gallinacé noir à la queue en panache qui survit l’hiver en se cachant dans un igloo creusé dans la neige, paie le plus lourd tribut» («La vision, talon d’Achille du tétras-lyre», Aurélie Coulon, 24 heures, 2.05.2026, p. 26). 

      Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas a definição foi claramente feita nos últimos minutos de uma sexta-feira: «ORNITOLOGIA (Lyrurus tetrix) Ave não migratória, com asas pequenas e arredondadas, da família dos Fasianídeos, ordem dos Galiformes». Nem para apontar a sinonímia sobrou tempo: «galo-lira ORNITOLOGIA (Tetrao tetrix) ave galiforme de distribuição eurasiática, da família dos Tetraonídeos, atinge cerca de 55 centímetros de comprimento e apresenta plumagem escura com reflexos azulados, barra branca nas asas, penachos vermelhos sobre os olhos e cauda característica, que recorda o formato de uma lira (instrumento musical)». 

      Estamos perante três problemas. Um é propriamente um erro dos grandes: Tetrao tetrix é uma designação desactualizada, a espécie foi reclassificada, deixando o género Tetrao e passando para Lyrurus. Assim, e exemplificando justamente com este, que está errado, proponho ➜ galo-lira ORNITOLOGIA (Lyrurus tetrix) ave galiforme da família dos Fasianídeos, de médio porte (cerca de 55 cm), não migratória, de distribuição eurasiática, própria de regiões frias e abertas, com dimorfismo sexual acentuado: o macho apresenta plumagem negra com reflexos azulados, barra branca nas asas, carúnculas vermelhas supra-orbitais e cauda em forma de lira; a fêmea é acastanhada e críptica; habita charnecas, turfeiras e orlas de floresta, alimentando-se de vegetais e invertebrados, sendo conhecida pelos rituais colectivos de exibição nupcial (lek); o m. q. tetraz-lira. 

      A definição de tetraz-lira será, sem tirar nem pôr, igual, salvo na remissão, que será «o m. q. galo-lira».

[Texto 22 946]

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