Definição: «sachê»

O tal mistério


      «O crime organizado dos vendedores de nicotina ataca de novo. Além de pressionar a Anvisa para liberar os cigarros eletrônicos, agora querem aprovar os sachês de nicotina, saquinhos que contêm doses altas da droga, para ser absorvida quando colocada entre a gengiva e a bochecha» («Sachês de nicotina», Drauzio Varella [médico cancerologista, autor de Estação Carandiru], Folha de S. Paulo, 7.05.2026, p. B10). 

      Porto Editora, parece que não conheces bem o brasilês: «saquinho com substâncias aromáticas, usado para perfumar armários, gavetas, roupa, etc.; almofadinha». Mas também há outra coisa que me faz espécie: como toda a gente sabe, o dicionário da Porto Editora tinha centenas de termos marcados indevidamente como brasileirismos. Tem-se vindo a corrigir isso nos últimos oito anos. Ainda terá alguns, sabe Deus quantos. Em contrapartida, há termos que não aparecem assinalados como tal, e são-no. Por exemplo? Ora, ora, estes mesmos, «sachê» e «cancerologista».

[Texto 22 950]

Léxico: «propicioso»

Paradeiro conhecido: Brasil


      «Seja como for, algum facto sobreveio que Camilo considerou propicioso e lhe permitiu mudar de comportamento com Ana Plácido» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 347).

[Texto 22 949]

Léxico: «lek»

Vai uma sueca


      O que significa que estão atentos: a juntar ao lek albanês vamos ter este ➜ lek ORNITOLOGIA, ETOLOGIA área onde machos de certas espécies, sobretudo aves, se reúnem para realizar exibições nupciais colectivas destinadas a atrair fêmeas; por extensão, o próprio conjunto desses comportamentos de cortejo. 

      Quanto à etimologia, vem do sueco lek, «jogo, brincadeira», por alusão ao comportamento exibicionista dos machos.

[Texto 22 948]

Definição: «dálita»

Se está fora, nem alta nem baixa


      Num romance, apareceu-me, em boa hora, uma família dálita. Já sabem, oportunidade para corrigir definições. Assim, quando o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora garante que é o «membro da casta mais baixa, no antigo sistema de castas indiano; pária», erra em dois pontos capitais: não apenas os dálitas não são a casta mais baixa, porque se encontram fora desse sistema, como a equivalência a pária é falso. Tudo visto, proponho ➜ dálita SOCIOLOGIA (Índia) membro das comunidades tradicionalmente situadas fora do sistema de castas hindu, historicamente sujeitas a exclusão social e discriminação. 

      Em dois pontos? Talvez em três. É verdade que, juridicamente, a discriminação baseada em castas foi abolida na Constituição da Índia de 1950, e que o Estado indiano adopta políticas de acção afirmativa para as chamadas castas desfavorecidas. Mas isso não significa que o sistema de castas tenha desaparecido enquanto realidade social: continua a influenciar práticas, relações e mentalidades em muitas regiões, com intensidade variável.

[Texto 22 947]

Léxico: «galo-lira | tetraz-lira»

Agora com mais tempo e tento


      «Selon une étude française publiée en 2013, plus de 835 oiseaux sont morts dans les Alpes et les Pyrénées françaises à cause des câbles de remontées mécaniques sur la période 1997-2009. Les téléskis, plus proches du sol (et plus souvent fréquentés, ce qui augmente la probabilité de trouver des cadavres), apparaissent comme les plus meurtriers: ils concernent 78% des collisions fatales. Parmi toutes les espèces impliquées, le tétras-lyre (Lyrurus tetrix), ce gallinacé noir à la queue en panache qui survit l’hiver en se cachant dans un igloo creusé dans la neige, paie le plus lourd tribut» («La vision, talon d’Achille du tétras-lyre», Aurélie Coulon, 24 heures, 2.05.2026, p. 26). 

      Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas a definição foi claramente feita nos últimos minutos de uma sexta-feira: «ORNITOLOGIA (Lyrurus tetrix) Ave não migratória, com asas pequenas e arredondadas, da família dos Fasianídeos, ordem dos Galiformes». Nem para apontar a sinonímia sobrou tempo: «galo-lira ORNITOLOGIA (Tetrao tetrix) ave galiforme de distribuição eurasiática, da família dos Tetraonídeos, atinge cerca de 55 centímetros de comprimento e apresenta plumagem escura com reflexos azulados, barra branca nas asas, penachos vermelhos sobre os olhos e cauda característica, que recorda o formato de uma lira (instrumento musical)». 

      Estamos perante três problemas. Um é propriamente um erro dos grandes: Tetrao tetrix é uma designação desactualizada, a espécie foi reclassificada, deixando o género Tetrao e passando para Lyrurus. Assim, e exemplificando justamente com este, que está errado, proponho ➜ galo-lira ORNITOLOGIA (Lyrurus tetrix) ave galiforme da família dos Fasianídeos, de médio porte (cerca de 55 cm), não migratória, de distribuição eurasiática, própria de regiões frias e abertas, com dimorfismo sexual acentuado: o macho apresenta plumagem negra com reflexos azulados, barra branca nas asas, carúnculas vermelhas supra-orbitais e cauda em forma de lira; a fêmea é acastanhada e críptica; habita charnecas, turfeiras e orlas de floresta, alimentando-se de vegetais e invertebrados, sendo conhecida pelos rituais colectivos de exibição nupcial (lek); o m. q. tetraz-lira. 

      A definição de tetraz-lira será, sem tirar nem pôr, igual, salvo na remissão, que será «o m. q. galo-lira».

[Texto 22 946]

Léxico: «escama-peixe»

Chamem um pedreiro


      «Nas noites de inverno os ratos e leirões, que emigram dos campos depois de se cevarem nos espigueiros, faziam com grande alarde demorado regabofe das maçarocas em suas camaratas entre o tecto e o escama-peixe» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 108).

[Texto 22 945]

Léxico: «cerra-cabos»

Talvez eu


      «“Faltam cabos de aço inox e um tubo também de inox no corrimão junto à porta principal do teatro. Esta situação, potencialmente perigosa para o público infantil, tem sido reparada pela companhia com recurso a cabos de aço normal e cerra-cabos”, alertava um dos relatórios enviados ao município» («Sete acusados em queda de atriz», Paula Gonçalves, Correio da Manhã, 7.05.2026, p. 33). 

      Quem diria que o dicionário da Porto Editora não acolhe «cerra-cabos»? Pois, ninguém. Aqui vai o ➜ cerra-cabos peça metálica, geralmente em forma de U com uma braçadeira apertada por porcas, usada para fixar, unir ou formar olhais em cabos de aço, comprimindo a extremidade do cabo contra si própria.

[Texto 22 944]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Para a legião de anglófilos que me segue: caso se encontrem em Londres e precisem de comprar um cerra-cabos, convém saber que os Ingleses lhe chamam “U-bolt cable clamp”. Talvez o encontrem na velha MacCulloch & Wallis, algures entre Lambeth e uma Londres que já quase desapareceu, entre latas de tinta enferrujadas, dobradiças vitorianas e um empregado de avental castanho que responde “right you are” sem sequer levantar os olhos. Arrogante duma figa. Ou mais literário: arrogante do caralho. Se lá estiver um empregado indiano chamado Rajiv Patel, este sim, simpático, digam-lhe que vão da minha parte: «Mr Guégués told us you were the kindest and most helpful employee in Greater London... and we believe him, because Mr Guégués almost always tells the truth.»


Léxico: «locotractor/locotractora»

É só um exemplo


      Faltarão muitos milhares de palavras nos dicionários, isso é certo. Por exemplo, na CP toda a gente sabe o que é ➜ locotractor/locotractora FERROVIA veículo ferroviário motorizado, de dimensões geralmente reduzidas e destinado sobretudo a manobras, deslocação de vagões ou composição de comboios em estações, oficinas e terminais; distingue-se das locomotivas de linha pela menor potência e velocidade, privilegiando o esforço de tracção a baixa velocidade.

[Texto 22 943]

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