Léxico: «escama-peixe»

Chamem um pedreiro


      «Nas noites de inverno os ratos e leirões, que emigram dos campos depois de se cevarem nos espigueiros, faziam com grande alarde demorado regabofe das maçarocas em suas camaratas entre o tecto e o escama-peixe» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 108).

[Texto 22 945]

Léxico: «cerra-cabos»

Talvez eu


      «“Faltam cabos de aço inox e um tubo também de inox no corrimão junto à porta principal do teatro. Esta situação, potencialmente perigosa para o público infantil, tem sido reparada pela companhia com recurso a cabos de aço normal e cerra-cabos”, alertava um dos relatórios enviados ao município» («Sete acusados em queda de atriz», Paula Gonçalves, Correio da Manhã, 7.05.2026, p. 33). 

      Quem diria que o dicionário da Porto Editora não acolhe «cerra-cabos»? Pois, ninguém. Aqui vai o ➜ cerra-cabos peça metálica, geralmente em forma de U com uma braçadeira apertada por porcas, usada para fixar, unir ou formar olhais em cabos de aço, comprimindo a extremidade do cabo contra si própria.

[Texto 22 944]

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P. S.: Para a legião de anglófilos que me segue: caso se encontrem em Londres e precisem de comprar um cerra-cabos, convém saber que os Ingleses lhe chamam “U-bolt cable clamp”. Talvez o encontrem na velha MacCulloch & Wallis, algures entre Lambeth e uma Londres que já quase desapareceu, entre latas de tinta enferrujadas, dobradiças vitorianas e um empregado de avental castanho que responde “right you are” sem sequer levantar os olhos. Arrogante duma figa. Ou mais literário: arrogante do caralho. Se lá estiver um empregado indiano chamado Rajiv Patel, este sim, simpático, digam-lhe que vão da minha parte: «Mr Guégués told us you were the kindest and most helpful employee in Greater London... and we believe him, because Mr Guégués almost always tells the truth.»


Léxico: «locotractor/locotractora»

É só um exemplo


      Faltarão muitos milhares de palavras nos dicionários, isso é certo. Por exemplo, na CP toda a gente sabe o que é ➜ locotractor/locotractora FERROVIA veículo ferroviário motorizado, de dimensões geralmente reduzidas e destinado sobretudo a manobras, deslocação de vagões ou composição de comboios em estações, oficinas e terminais; distingue-se das locomotivas de linha pela menor potência e velocidade, privilegiando o esforço de tracção a baixa velocidade.

[Texto 22 943]

Léxico: «alabardeiro»

Único uso actual


      «Leão XIV presidiu, esta quarta-feira, na Aula Paulo VI, à cerimónia de tomada de posse de 28 novos recrutas da Guarda Suíça Pontifícia. Aos novos alabardeiros, o Papa dirigiu palavras de carinho e agradecimento: “A vós, queridos jovens que prestaram o Juramento, expresso a minha estima e gratidão”. A Guarda Suíça Pontifícia, foi fundada há 520 anos, em 1506, pelo Papa Júlio II. É a força militar mais pequena e antiga no mundo» («Novos guardas suíços prestam juramento no Vaticano», Miguel Marques Ribeiro e Aura Miguel, Rádio Renascença, 6.05.2026, 20h12). 

      Uso que justifica plenamente nos dicionários acrescentar-se, pela sua especificidade e sobrevivência na actualidade, ➜ alabardeiro 2. membro da Guarda Suíça Pontifícia sem funções de comando.

      Actualmente, os alabardeiros são 85 dos cerca de 135 efectivos da Guarda Pontifícia, distribuídos por vários postos e responsáveis, entre outras funções, pela vigilância dos acessos ao Vaticano e pela protecção próxima do papa.

[Texto 22 942]

Como se traduz por aí

Também na costa, mas noutra


      O 4.º e último episódio da 1.ª temporada da série Vigilantes (Brigade Anonyme), na RTP2, andou todo à volta do desaparecimento de um adolescente, Lucas. Depois de ver que a última mensagem de um dos envolvidos fora enviada de Pontaillac, Charlie pergunta à mãe de um deles onde era. «C’est une plage sur la côte. Mon beau-frère a un carrelet là-bas.» Nas legendas (de Susana Serrão), a opção foi por «palheiro». Pouco feliz. «O meu cunhado tem lá um palheiro...» «Descreva o palheiro, se faz favor», pede Castaneda. «C’est une des cabines sur pilotis. C’est vers la pointe, c’est le plus loin quand on vient de la plage et il y a des volets verts.» Fez-me lembrar uma tradução de um romance norte-americano de que falava Jorge Colaço cujo protagonista, nas palavras do tradutor, «sofrera as passas do Algarve». Enfim... Susana Serrão, bastava optar por «cabana de pesca», por exemplo.

[Texto 22 941]

Léxico: «stablecoin»

Já está bem assente


      Está na hora de dicionarizarmos o estrangeirismo «stablecoin». Volta não volta, ele aí está na imprensa: «Portugal passa a ter a partir desta quarta-feira stablecoins, uma aposta do Bison Bank, banco português de investimento que nasceu do Banif. É uma iniciativa pioneira no país. Já existem stablecoins famosas no mercado internacional e na Europa são ainda pontuais as emissões. [...] O que são as stablecoins? “É um token de moeda eletrónica, ou um electronic money token”, explica António Henriques. “Não é uma moeda, mas é equivalente a uma moeda no sentido em que é representado por um token, digital suportado em blockchain, que está depois suportado pela sua equivalência na moeda em que está indexado”, acrescenta» («Primeira stablecoin portuguesa é lançada esta quarta-feira», Sandra Afonso, Rádio Renascença, 6.05.2026, 00h00, itálicos meus). 

      Assim, proponho ➜ stablecoin ECONOMIA, FINANÇAS criptomoeda indexada a um activo estável, geralmente uma moeda fiduciária, concebida para reduzir a volatilidade típica das restantes criptomoedas.

      A etimologia já diz tudo, ou quase ➜ do inglês stablecoin, de stable, «estável», + coin, «moeda».

[Texto 22 940]

Léxico: «esporteirar»

Apregoar aos sete ventos


      «O despique à porta do convento não prosseguiu. As alusões insidiosas à aventura com a freira e ao seu alistamento no constitucionalismo só o podiam diminuir no conceito de gente que esfalfara os pulmões a esporteirar o Rei chegou» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 99). 

      Parece ter alguma relação com porta, e tem: é disparatar à porta, proclamar. É também comportamento e ocupação próprios de porteiras, que dispõem de todo o tempo do mundo para se ocupar da vida alheia. Felizmente, é uma espécie em extinção. 

[Texto 22 939]

Léxico: «sercialinho»

Nem por ser tão única


      Em mais um episódio do programa De Gente & De Vinha, no Conta Lá, um vitivinicultor afirmou que será o maior produtor de Sercialinho do mundo. Como, porém, ninguém é profeta na sua terra, o nome da casta nem sequer está nos nossos dicionários. Assim, proponho ➜ sercialinho VITICULTURA 1. casta de uvas brancas portuguesa, rara e de cultivo sobretudo bairradino, onde é autorizada para a produção de vinho; resulta do cruzamento entre as castas Vital e Uva Cão, identificado por estudos genéticos recentes; origina vinhos de acidez elevada, frescura marcada e perfil aromático próprio, com notas frequentemente citrinas e minerais; apesar do nome, não deriva da casta Sercial, com a qual foi historicamente confundida, constituindo variedade distinta e de utilização limitada no encepamento nacional; 2. uva destas videiras.

[Texto 22 938]

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