Léxico: «alabardeiro»

Único uso actual


      «Leão XIV presidiu, esta quarta-feira, na Aula Paulo VI, à cerimónia de tomada de posse de 28 novos recrutas da Guarda Suíça Pontifícia. Aos novos alabardeiros, o Papa dirigiu palavras de carinho e agradecimento: “A vós, queridos jovens que prestaram o Juramento, expresso a minha estima e gratidão”. A Guarda Suíça Pontifícia, foi fundada há 520 anos, em 1506, pelo Papa Júlio II. É a força militar mais pequena e antiga no mundo» («Novos guardas suíços prestam juramento no Vaticano», Miguel Marques Ribeiro e Aura Miguel, Rádio Renascença, 6.05.2026, 20h12). 

      Uso que justifica plenamente nos dicionários acrescentar-se, pela sua especificidade e sobrevivência na actualidade, ➜ alabardeiro 2. membro da Guarda Suíça Pontifícia sem funções de comando.

      Actualmente, os alabardeiros são 85 dos cerca de 135 efectivos da Guarda Pontifícia, distribuídos por vários postos e responsáveis, entre outras funções, pela vigilância dos acessos ao Vaticano e pela protecção próxima do papa.

[Texto 22 942]

Como se traduz por aí

Também na costa, mas noutra


      O 4.º e último episódio da 1.ª temporada da série Vigilantes (Brigade Anonyme), na RTP2, andou todo à volta do desaparecimento de um adolescente, Lucas. Depois de ver que a última mensagem de um dos envolvidos fora enviada de Pontaillac, Charlie pergunta à mãe de um deles onde era. «C’est une plage sur la côte. Mon beau-frère a un carrelet là-bas.» Nas legendas (de Susana Serrão), a opção foi por «palheiro». Pouco feliz. «O meu cunhado tem lá um palheiro...» «Descreva o palheiro, se faz favor», pede Castaneda. «C’est une des cabines sur pilotis. C’est vers la pointe, c’est le plus loin quand on vient de la plage et il y a des volets verts.» Fez-me lembrar uma tradução de um romance norte-americano de que falava Jorge Colaço cujo protagonista, nas palavras do tradutor, «sofrera as passas do Algarve». Enfim... Susana Serrão, bastava optar por «cabana de pesca», por exemplo.

[Texto 22 941]

Léxico: «stablecoin»

Já está bem assente


      Está na hora de dicionarizarmos o estrangeirismo «stablecoin». Volta não volta, ele aí está na imprensa: «Portugal passa a ter a partir desta quarta-feira stablecoins, uma aposta do Bison Bank, banco português de investimento que nasceu do Banif. É uma iniciativa pioneira no país. Já existem stablecoins famosas no mercado internacional e na Europa são ainda pontuais as emissões. [...] O que são as stablecoins? “É um token de moeda eletrónica, ou um electronic money token”, explica António Henriques. “Não é uma moeda, mas é equivalente a uma moeda no sentido em que é representado por um token, digital suportado em blockchain, que está depois suportado pela sua equivalência na moeda em que está indexado”, acrescenta» («Primeira stablecoin portuguesa é lançada esta quarta-feira», Sandra Afonso, Rádio Renascença, 6.05.2026, 00h00, itálicos meus). 

      Assim, proponho ➜ stablecoin ECONOMIA, FINANÇAS criptomoeda indexada a um activo estável, geralmente uma moeda fiduciária, concebida para reduzir a volatilidade típica das restantes criptomoedas.

      A etimologia já diz tudo, ou quase ➜ do inglês stablecoin, de stable, «estável», + coin, «moeda».

[Texto 22 940]

Léxico: «esporteirar»

Apregoar aos sete ventos


      «O despique à porta do convento não prosseguiu. As alusões insidiosas à aventura com a freira e ao seu alistamento no constitucionalismo só o podiam diminuir no conceito de gente que esfalfara os pulmões a esporteirar o Rei chegou» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 99). 

      Parece ter alguma relação com porta, e tem: é disparatar à porta, proclamar. É também comportamento e ocupação próprios de porteiras, que dispõem de todo o tempo do mundo para se ocupar da vida alheia. Felizmente, é uma espécie em extinção. 

[Texto 22 939]

Léxico: «sercialinho»

Nem por ser tão única


      Em mais um episódio do programa De Gente & De Vinha, no Conta Lá, um vitivinicultor afirmou que será o maior produtor de Sercialinho do mundo. Como, porém, ninguém é profeta na sua terra, o nome da casta nem sequer está nos nossos dicionários. Assim, proponho ➜ sercialinho VITICULTURA 1. casta de uvas brancas portuguesa, rara e de cultivo sobretudo bairradino, onde é autorizada para a produção de vinho; resulta do cruzamento entre as castas Vital e Uva Cão, identificado por estudos genéticos recentes; origina vinhos de acidez elevada, frescura marcada e perfil aromático próprio, com notas frequentemente citrinas e minerais; apesar do nome, não deriva da casta Sercial, com a qual foi historicamente confundida, constituindo variedade distinta e de utilização limitada no encepamento nacional; 2. uva destas videiras.

[Texto 22 938]

Definição: «violação»

Não chega para todos os casos


      Na terça-feira de manhã, ouvi uma jurista na Rádio Observador que, a propósito do crime de violação, referiu que há um aspecto na violência doméstica que é quase sempre omitido, que é a ocorrência, muitas vezes, de violação. Nada disso, porém, tem implicações na definição de violação no sentido jurídico. Há, porém, outros casos, frequentíssimos, que a definição que encontramos no dicionário não prevê: a violação de menor. Relembremos a definição da Porto Editora: «DIREITO crime cometido por quem constranger ou obrigar outra pessoa a sofrer ou praticar relações sexuais, por meio de violência, ameaças ou após a ter posto na impossibilidade de resistir; estupro». Demasiado estreito. O problema está em pressupor que o núcleo do crime é sempre o constrangimento. Ora, juridicamente, há situações em que não é preciso constranger, porque o consentimento não tem valor. Um menor pode aceitar, pode até ser persuadido ou enganado, mas isso não transforma o acto em lícito, simplesmente porque falta capacidade para um consentimento válido. 

      Assim, proponho ➜ violação DIREITO crime que consiste em constranger ou determinar outrem a sofrer ou a praticar actos de natureza sexual, mediante violência, ameaça grave ou aproveitamento de situação que impeça a livre formação da vontade, ou em realizar tais actos sem consentimento juridicamente válido da vítima, designadamente por incapacidade ou menoridade; estupro.

[Texto 22 937]

Léxico: «serradoiro»

Quem diria


      «Não importa que sejam de lenho diferente. Na estrutura interior duma cómoda de Boulle topa-se com o pinho democrático. E tanto é utilizável o simples sarrafo como a bela prancha cortada nas proporções estandardizadas do serradoiro» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 143). 

      E estão a ver Aquilino aqui a escrever «estandardizadas» como gente grande? Ah, pois, não eram só palavras do bom povo, mas também estas se insinuavam pelos interstícios da tessitura.

[Texto 22 936]

Definição: «nucleótido | pentose»

Não ajuda, não


      «Essas “letras” do ADN chamam-se “nucleótidos”, ou “bases”. O ADN dos seres vivos é composto só por quatro dessas letras (A, T, G, C), distribuídas aos pares ao longo desta molécula em forma de dupla hélice: o A (de adenina) emparelha sempre com o T (de timina), enquanto o C (de citosina) faz parelha com o G (de guanina)» («Património genético da humanidade contado a partir de duas grandes viagens (e muitos bagos de arroz)», Teresa Firmino, Público, 9.06.2024, p. 24). 

      A explicação é simplificadora, sim, mas imprecisa ao identificar nucleótidos com bases, quando estas são apenas um dos seus constituintes. Também a definição da Porto Editora, ao restringir o termo ao ADN e não explicitar essa distinção, não ajuda a corrigir a confusão. Assim, proponho ➜ nucleótido BIOQUÍMICA unidade estrutural dos ácidos nucleicos (ADN e ARN), constituída por uma base azotada ligada a uma pentose e a um ou mais grupos fosfato.


[Texto 22 935]

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P. S.: Na definição de «neucleótido», Porto Editora, basta escrever «pentose», sem explicação adicional. Em contrapartida, «pentose» tem de ter outra definição, menos hermética e mais actual, assim ➜ pentose QUÍMICA monossacarídeo com cinco átomos de carbono, como a ribose e a desoxirribose.


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