Léxico: «donzelinho | samarrinho»

A casta e o vinho


      «A zona, estando colada ao Douro, tem com ele uma grande cumplicidade de castas e métodos de produção, havendo assim uma proximidade entre os vinhos produzidos nestas terras altas. Já em 1532, Rui Fernandes, na sua “Descrição do Terreno em Redor de Lamego Duas Léguas”, nos dá informações essenciais sobre os vinhos na época, na zona de Lamego mas também no Douro. Muitas das castas de que hoje falamos já vêm aqui citadas, como bastardo, malvasia, castelão, verdelho, terrantez, donzelinho, samarrinho, mourisco, ferral e felgosão (que creio ser a que hoje chamamos Folgosão)» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34).

[Texto 22 929]

Definição e etimologia: «hantavírus»

Não tão simples


      «O Ministério dos Negócios Estrangeiros confirma, através da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que há um português a bordo do navio de cruzeiro, retido ao largo de Cabo Verde devido a um surto de infeção respiratória a bordo. [...] Cabo Verde recusa a entrada do navio, onde três pessoas morreram e há outras duas infetadas com hantavírus, um vírus transmitido por roedores» («Há um português a bordo do cruzeiro onde morreram 3 pessoas», Anabela Góis e Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 4.05.2026, 13h41). 

      É a oportunidade para actualizar e melhorar a definição e a etimologia. Assim, proponho ➜ hantavírus PATOLOGIA grupo de vírus da família Hantaviridae, do género Orthohantavirus, cujo reservatório natural são roedores, transmitido ao ser humano sobretudo por inalação de aerossóis contaminados com excreções (urina, fezes, saliva) desses animais; raramente, e apenas em algumas estirpes (nomeadamente o vírus Andes), pode ocorrer transmissão entre humanos; pode provocar infecções graves, designadamente a febre hemorrágica com síndrome renal e a síndrome pulmonar por hantavírus, caracterizadas por febre, aumento da permeabilidade capilar e atingimento renal ou respiratório.  

      Vem do inglês hantavirus, «idem», a partir do topónimo Hantan (rio da península da Coreia), onde o vírus foi identificado durante a Guerra da Coreia (1950-1953).

[Texto 22 928]


⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Soube agora, pela leitura da imprensa suíça, que algumas estirpes americanas, sobretudo o vírus Andes, distinguem-se pela elevada virulência e pela possibilidade, rara entre hantavírus, de transmissão entre humanos. A mortalidade de certas variantes sul-americanas pode aproximar-se dos 30 %, enquanto as estirpes europeias tendem a provocar formas renais menos graves.


Definição: «autólise»

E não queremos isso


      «Ainda que as principais inovações tenham sido, como vimos, no século XIX, durante o século XX houve avanços científicos que ajudaram ao apuro da técnica de produção. O saber sobre o assunto é um work in progress que entra pelo século XXI. Por exemplo, ainda não há conclusões definitivas sobre o uso da carica ou de uma rolha com grampo para conservar a garrafa fechada durante o estágio, atendendo à permeabilidade (entrada de oxigénio) de um e outro vedante; a técnica de contagem de leveduras que ajuda à melhor definição da bolha do vinho; o fenómeno da autólise das leveduras — que ocorre quando as células da levedura morrem e as suas próprias enzimas começam a quebrar as estruturas celulares e a libertar compostos aromáticos» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34). 

      Um leitor que vá do artigo para a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora concluirá inevitavelmente que um dos dois está incorrecto: «BIOLOGIA destruição espontânea dos tecidos orgânicos». Está de tal forma incompleto, que só pode gerar dúvidas no leitor leigo que consulta o dicionário. 

      Para evitar isso, proponho ➜ autólise BIOLOGIA degradação de células ou tecidos por acção das enzimas próprias da célula, geralmente após a morte celular ou em condições que comprometem a sua integridade, conduzindo à desagregação dos seus constituintes.

[Texto 22 927]

Léxico: «ané | fante»

Isto interessa-nos


      «Do lado de cá, nas margens de Aného, um braço do rio antecipa-se à foz e, sem pedir licença, faz uma incisão na linha costeira, para se encontrar com o Atlântico. Foi precisamente ali que, no final do século XVII, os anés, originários da antiga Costa do Ouro, procuraram refúgio dos ataques do Império Denkyira, cujos grupos armados procuravam sequestrá-los, fosse para os escravizar, fosse para os vender a mercadores europeus, através de intermediários da etnia fante. Sendo originários do local onde, 200 anos antes, os portugueses haviam construído o Castelo de São Jorge da Mina (no atual Gana), os anés passaram a integrar o conjunto de povos chamados Mina» («Na rota da escravatura», Tiago de Matos Fernandes, «Revista E»/Expresso, 17.04.2026, p. 30).

      Quanto a fante, o Houaiss indica que também tem a variante fânti, o que devemos ter em conta.

[Texto 22 926]

Léxico: «executividade | pré-executividade»

Já nos esquecíamos deste


      «Há, contudo, uma distinção importante a fazer entre as disposições que produzirão efeitos imediatos e aquelas que dependem de regulamentação para ter plena executividade» («Com nova Lei da Nacionalidade, Portugal reescreve o futuro de muitos imigrantes», Amanda Rattes, Público, 4.05.2026, 9h30).

[Texto 22 925]

Léxico: «edipianismo»

Do glossário psicanalítico


      «Na análise a um romance de um autor de renome da sua época, uma leitura sugerida pelo seu círculo mais próximo, Freud percorre muitos dos temas com que definiu o seu próprio trabalho: o edipianismo, o inconsciente, a interpretação dos sonhos e, como o título o indica, o delírio» («Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen», Carlos Leone, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 53).

[Texto 22 924]

Léxico: «escorrente»

Já que o prometes, Porto Editora


      «Treplicou a Nação uns dias depois, tempo necessário ao mosqueteiro, que estava na capital, para cevar o trabuco com cacos de pote e sal escorrente das salmouras» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 99).

[Texto 22 923]

Definição: «biruta | manga-de-vento»

É hoje


      De cada vez que passava, e passo várias vezes por semana, por uma biruta na A5, fazia uma nota mental para ir consultar o dicionário da Porto Editora para ler a definição. Aconteceu hoje, agora. A definição suscita, à primeira leitura, duas reservas. Por um lado, revela-se excessivamente extensa e descritiva, com pormenores que pouco acrescentam à identificação do objecto. Por outro, ao circunscrever o uso aos domínios da aeronáutica e da meteorologia, e sobretudo nesta ordem, pode levar a supor que se trata de um dispositivo próprio sobretudo de aeródromos e heliportos, quando, na prática, é igualmente comum em vias rápidas e auto-estradas, onde assinala a presença e intensidade do vento lateral. Assim, proponho ➜ biruta METEOROLOGIA, AERONÁUTICA dispositivo indicador da direcção e intensidade do vento à superfície, constituído por um tubo de tecido em forma de cone truncado, aberto nas duas extremidades, fixo pela boca mais larga a um aro no topo de um mastro e livre na extremidade mais estreita, que se distende e orienta com o sopro do vento, sendo usado em aeródromos, vias rodoviárias e outros locais expostos; manga-de-vento. 

      Quanto à etimologia, vem do francês biroute, de origem incerta, possivelmente relacionado com formas dialectais associadas a «tubo» ou «manga» e, por via semântica, à ideia de direcção (cf. route). 

      Em inglês, o dispositivo designa-se windsock, composto transparente de wind, «vento», e sock, «meia», atestado desde o início do século XX no sentido técnico de cone de tecido usado para indicar a direcção do vento. A imagem é evidente: uma «meia» ou tubo de pano que se enche com o vento. Em português, além de «biruta», ocorre a designação «manga-de-vento», igualmente transparente; trata-se de um composto lexicalizado do tipo nome + preposição + nome, que deve grafar-se com hífen. Apesar disso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «manga-de-vento» (nem «manga de vento») como entrada autónoma, limitando-se a apresentá-la como sinónimo na entrada «biruta».

[Texto 22 922]

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