Léxico: «burkeano»

O tal erro


      «Edmund Burke (1729-1797) é talvez um dos mais marcantes actores e autores políticos — conjuntamente com Winston S. Churchill (1874-1965) — que expressaram e defenderam o espírito pluralista e não-revolucionário (nem contra-revolucionário) que tem sustentado a democracia liberal do Ocidente (ou, como prefere justamente dizer meu amigo Tim Garton Ash, do Mundo Livre)» («Elogio ‘Burkeano’ das eleições autárquicas», João Carlos Espada, Observador, 20.10.2025, 00h17). 

      Mas então, João Carlos Espada, é referente a Edmund Burke ou não? É? Então, esqueça as aspas. E lá está o adjectivo próprio — que nós não temos, mas do que jornalistas, autores, tradutores apressados se esquecem, se é que sabem. A relevância de Edmund Burke no pensamento político ocidental, como crítico da ruptura revolucionária e defensor do gradualismo e do pluralismo institucional, justifica plenamente a dicionarização do adjectivo «burkeano». 

[Texto 22 921]

Léxico: «chaleira nuclear»

Já fumega


      «António Eloy, coordenador do Observatório Ibérico de Energia e antigo membro do grupo consultivo do Plano Energético Nacional, é perentório: “Não há a mínima hipótese de a energia nuclear, nas suas formas atuais nem nas suas formas imaginárias (fusão e pequenos reatores modulares), ser implementada no nosso país, nem na Península Ibérica, onde está estabelecido um calendário escrito, com as empresas proprietárias das centrais, para o seu encerramento”, afirma, por e-mail. “Em meados da próxima década não haverá produção de eletricidade a partir do aquecimento de água em chaleiras nucleares na Península Ibérica”» («Enxadas contra o nuclear», Tiago Carrasco, «Revista E»/Expresso, 13.03.2026, p. 29). 

      Tem, por vezes, um sentido ligeiramente depreciativo, mas se até especialistas na área a usam, quem somos nós para a manter afastada dos dicionários? Assim, proponho ➜ chaleira nuclear figurado designação metafórica de central nuclear de produção de electricidade, empregada para sublinhar que o seu funcionamento assenta, em última análise, no aquecimento de água por calor gerado em reacções nucleares, com produção de vapor para accionar turbinas.

[Texto 22 920]

Léxico: «narciso-poético»

A Natureza poética


      «Fazia, em seguida, a ligação do postal ao tema do livro em que na altura trabalhava, e que viria a publicar em 2025, em Setembro em edição digital, e em Dezembro em papel. Trata-se do livro As Plantas na Obra Poética de Camões, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra. A fotografia que preenchia o postal de Natal é também a da capa do livro – o narciso-poético (Narcissus poeticus), e as razões para a escolha desta flor encontram-se na entrevista que deu ao PÚBLICO no início deste mês, em que revelou que a flor que Camões mais citou são as rosas, embora não fosse a de que mais gostava» («Jorge Paiva brindou-nos com outros dos seus postais de Natal», Teresa Firmino, Público, 27.12.2025, p. 31).

[Texto 22 919]

Léxico: «narrativismo | narrativista»

Quantas vezes não o vi já


      «A Nova História queria-se não-positivista, não-marxista, não-quantitativa, não-engajada, mas igualmente distante do narrativismo cronológico e enfático daquilo a que os franceses chamam “romance nacional”, ou história patriótica» («Historicizar a História», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 13.03.2026, p. 68).

[Texto 22 918]

Léxico: «escorcioneira-oca | heleborina-dos-brejos»

Se é nosso, é desprezado


      «“Entre as plantas que herborizei [que colheu para pôr em herbários] ao longo de 70 anos, colhi, em 1961, pelo menos duas espécies que, actualmente, estão dadas como extintas em Portugal”, alerta. “Uma endémica da Península Ibérica, a escorcioneira-oca (Avellara fistulosa); a outra, a orquídea heleborina-dos-brejos (Epipactis palustris). Isto é, num pequeno país e num curtíssimo período de existência da vida do planeta onde vivemos – o equivalente a 0,00000000001 anos de vida nesta enorme Gaiola – provocámos a extinção de duas das espécies de antófitas (plantas com flores) que colhi”, prossegue [o botânico Jorge Paiva]» («Jorge Paiva brindou-nos com outros dos seus postais de Natal», Teresa Firmino, Público, 27.12.2025, p. 31).

[Texto 22 917]

Definição: «planeta»

Não acertam nos requisitos


      Jared Isaacman, administrador da NASA, durante uma audiência no Senado norte-americano na terça-feira passada, disse que era convictamente da equipa Make Pluto a Planet Again. Na sequência dessa afirmação, vários meios de comunicação pegaram no assunto e relembraram os três requisitos para se considerar que estamos perante um planeta. Na formulação do terceiro nem todos acertam. Como tão-pouco acertam os nossos dicionários. A Porto Editora, por exemplo, define assim planeta: «corpo celeste sem luz própria e com gravidade suficiente para ter uma forma quase esférica, que se move numa órbita elíptica em redor de uma estrela, não tendo outros corpos celestes na sua vizinhança orbital». Se estou a ver bem as coisas, nenhum planeta «não tem» outros corpos na vizinhança; a Terra, por exemplo, tem asteróides próximos. 

      O critério da União Astronómica Internacional, datado de 2006, não é de ausência, mas de domínio gravitacional. Está bem, já que insistem: não é só isso, a definição apresenta outros problemas. Todas as órbitas são elipses em sentido lato, mas a definição da União Astronómica Internacional não exige essa especificação. Assim, proponho ➜ planeta ASTRONOMIA corpo celeste que orbita uma estrela, sem emissão significativa de luz própria por fusão nuclear; possui massa suficiente para atingir o equilíbrio hidrostático, adquirindo forma aproximadamente esférica; exerce domínio gravitacional na sua órbita, tendo removido, capturado ou subordinado dinamicamente a maioria dos corpos de massa comparável na sua vizinhança orbital.

[Texto 22 916]

Léxico: «soalhento»

Todos, todos, todos


      Não vamos é, nesta matéria, seguir a filosofia de Miguel Araújo no seu último disco, em que canta «Não há nada, nada/ Não há nada como não fazer nada/ Nada, não há nada/ Não há nada como não fazer nada». Aliás, ao repeti-lo está a contradizer-se, pois já está a esforçar-se. Tem de ser, pelo menos quanto à lexicografia, não há nada como fazer tudo. Tudo o que estiver ao nosso alcance, porque alguém o tem de fazer, porque é preciso ser feito, porque sabemos fazê-lo tão bem como os outros. Por exemplo, dicionarizar isto: «Pobre Fanny! A vida que a carochinha de sonhos cor-de-rosa levaria naquela casa soturna, bem se adivinha qual era: lágrimas, reprimidas revoltas, horas, muitas horas de janela para janela ou a fazer que cuidava dos dois pés de cravos e maravilhas que enlanguesciam no hortejo contra a empena soalhenta do edifício» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 185).

      Se ao menos conseguíssemos, pelo simples facto de meter lá este, tirarmos da cabeça de toda a gente (autores, tradutores, jornalistas, todos) a falsa sinonímia «soalheiro = solarengo», o mundo, o mundo da língua, seria um pouco melhor. Utopias, pois.

[Texto 22 915]

Léxico: «terbutrina»

Da detecção à captura


      «Ao todo, a bacia do Leça cobre “quatro massas de água superficiais” e outra subterrânea, e os documentos em consulta pública alertam para a necessidade de reduzir a poluição, “especialmente considerando a presença de cádmio, zinco, fluoranteno e terbutrina, detectados nas análises”» («Plano de 81 milhões de euros para recuperar Rio Leça em consulta pública», Público, 29.04.2026, 11h39). 

      Nos nossos dicionários é que ela não foi detectada, pelo que proponho ➜ terbutrina QUÍMICA composto orgânico pertencente ao grupo das triazinas, de fórmula C₁₀H₁₉N₅S, usado como herbicida selectivo no controlo de ervas daninhas em culturas agrícolas e em áreas não cultivadas; actua inibindo a fotossíntese das plantas, o que leva à sua morte; pode persistir no solo e na água, sendo considerado um contaminante ambiental devido à sua toxicidade para organismos aquáticos.

[Texto 22 914]

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