Definição: «navajo»

É antes caso para agradecerem


      Também me parece que os Navajos não iam ficar-nos com o escalpe (até porque não eram particularmente dados a fazê-lo) se melhorássemos a definição do termo que designa a sua língua, o ➜ navajo LINGUÍSTICA língua atapasca meridional do grupo na-dene, falada pelo povo navajo no sudoeste dos Estados Unidos (sobretudo no Arizona e no Novo México), ágrafa até ao século XX, quando passou a dispor de ortografia padronizada, caracterizada por estrutura fortemente polissintética e grande complexidade morfológica, com predominância de formas verbais.

[Texto 22 910]

Léxico: «código navajo»

Que só conhecemos dos filmes


      «[Chester Nez, ou Betoli] Avec 29 autres camarades de sa tribu, il va devenir un combattant aguerri – il est habitué depuis l’enfance aux privations de toutes sortes dans cette réserve mal famée. Mais surtout, il va offrir aux Marines, partis à la conquête des iles Salomon que leur disputent les Japonais, un code, le fameux code navajo, qui permettra de transmettre des informations cruciales sur un champ de bataille dévastateur, où plusieurs milliers de Marines perdirent la vie, et qui l’aurait été encore plus sans ce langage indéchiffrable par l’ennemi» («Le jeune héros indien des Marines qui sauva la bataille de Guadalcanal grâce à sa langue natale», Paul François Paoli, «Le Figaro Littéraire»/Le Figaro, 30.04.2026, p. 2). 

      Sim, o famigerado ➜ código navajo MILITAR sistema de codificação de comunicações baseado no uso do idioma navajo por militares indígenas dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, que permitia a transmissão rápida e segura de mensagens sem recurso a cifragem convencional.

[Texto 22 909]

Definição: «ópera»

Falha no essencial


      «Ce n’est que vers le milieu des années 1960 que se généralisa l’habitude de jouer les opéras en langue originale. La bascule fut un problème pour toute une génération de solistes qui n’avaient jamais chanté que dans leur langue, d’autant que les carrières étaient beaucoup moins internationales. Et cela concerne tous les pays» («Traduire, c’est parfois aplatir», Christian Merlin, Le Figaro, 30.04.2026, p. 28). 

      Pode não ser um traço definidor, mas é uma característica, quando não uma limitação, que está quase sempre presente, pelo que podemos integrá-lo como traço recorrente na definição de ➜ ópera MÚSICA, TEATRO obra dramática musicada, de carácter narrativo, em que a acção é integral ou predominantemente cantada e acompanhada por orquestra, frequentemente associada à língua do libreto original, embora também representada em tradução, integrando música, texto e representação numa forma contínua. 

      A definição da Porto Editora reduz a ópera a uma mera peça musical com canto, quando se trata, na verdade, de uma forma dramática contínua, em que o canto não é adorno, mas o próprio meio de realização da acção.

[Texto 22 908]

Definição: «destransição | destransicionar»

Não é parar: é voltar atrás


      Na quarta-feira, no Grande Debate, na RTP1, em que o tema foi a identidade de género e a transexualidade, usou-se, mais de uma vez, o termo destransição, que o dicionário da Porto Editora define assim: «suspensão de processo de transição de género anteriormente iniciado». De tudo o que se disse no debate (que em muitos momentos mais merecia chamar-se Grande Confusão) e se sabe, «suspensão» não descreve com rigor o fenómeno, já que não ocorre a mera interrupção, há antes a reversão, total ou parcial, de uma transição de género anteriormente realizada. Pode envolver regressão ao sexo de nascimento, abandono de tratamentos hormonais, cirurgias de reversão (quando possíveis) ou simplesmente mudança de identificação social. Assim, proponho ➜ destransição processo de reversão, total ou parcial, de uma transição de género anteriormente realizada, envolvendo a cessação de intervenções médicas, sociais ou legais associadas a essa transição e, em muitos casos, o regresso ao género anteriormente assumido.

[Texto 22 907]

Definição: «conto»

Antiquado, mas tão presente


      Assim como esta precisa de ser mais bem definida ➜ conto ECONOMIA antiquado unidade de conta correspondente a um milhão de réis; após a reforma monetária de 1911, passou a equivaler a mil escudos (1000$00); sob a forma completa conto de réis, foi corrente no período monárquico, tendo a forma abreviada conto prevalecido no uso em Portugal até à substituição do escudo pelo euro (2002). 

      A etimologia, é claro, está incompletíssima, pois vem, de facto, do latim compŭtu-, «cálculo, conta»; mas, por especialização semântica, passou a designar, em contexto contabilístico, uma soma determinada, fixando-se em português como milhão de réis (conto de réis).

[Texto 22 906]

Definição: «cifrão»

Segue-se isto


      Porque não está bem explicado nos dicionários, também proponho uma nova definição de ➜ cifrão sinal ($) usado como símbolo monetário em vários países (dólar, peso, etc.); em Portugal e no Brasil, até meados do século XX, não era símbolo de moeda, mas separador numérico entre milhares e unidades de réis ou entre escudos e centavos. 

      É também esta a oportunidade para dizer que a 2.ª acepção, Porto Editora, é um pouco caricatural: «sinal ($) que indica o valor monetário de um bem ou serviço, sendo que quantos mais se usam, mais caro é esse bem ou serviço». Não descreve um uso que propriamente lexical, mas antes gráfico ou estilístico. Não se trata de um significado autónomo de cifrão, mas de uma convenção expressiva (sobretudo publicitária ou humorística), em que a repetição do símbolo sugere preço elevado. É, no fundo, uma espécie de metáfora visual. Queremos isto nos dicionários?

[Texto 22 905]

Definição: «real | conto»

Revisão da matéria dada


      Duvido que os mais novos saibam sequer ler este valor monetário: «Segundo um requerimento seu, teria servido a Manuel Botelho durante 4 meses, dos quais, conjuntamente com os meses que esteve ao serviço dos órfãos, ou seja, de 8 de Dezembro de 1835 a 8 de Março de 36, pede os ordenados à razão de 1$400 réis por mês» (O Romance de Camilo, Aquilino Ribeiro, Vol. I, Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 67). 

      Por extenso, é mil e quatrocentos réis. O sinal $ (cifrão), neste contexto não indica a moeda, mas apenas separa as unidades dos milhares, e a notação tradicional portuguesa usava precisamente este sinal como separador entre milhares e unidades de réis — por exemplo, mil-réis (1$000) ou conto de réis (1.000$000). Hoje, muito poucos reconhecerão o sentido ou a escala dos valores. A definição da Porto Editora para «real» é: «1. antiga unidade monetária de Portugal e do Brasil», seguida da acepção «2. unidade monetária do Brasil», e encabeçada por uma indicação global de plural: «reais, réis». A distinção das acepções está, neste caso, correcta: a primeira diz respeito à moeda histórica usada tanto em Portugal (até 1911) como no Brasil (até 1942), e a segunda refere-se ao real actualmente em vigor no Brasil desde 1994. Contudo, essa distinção está apresentada de forma incompleta e imprecisa: não são indicadas as datas de vigência no caso brasileiro da acepção antiga, pois que o real em réis ali se manteve até 1942, quando foi substituído pelo cruzeiro à taxa de 1 cruzeiro = 1000 réis, e, sobretudo, os plurais são listados em conjunto no cabeçalho da entrada, como se fossem equivalentes, quando «réis» se aplica apenas à moeda antiga e «reais» apenas à actual. Além disso, não se menciona a notação histórica portuguesa, que é, como se vê, fundamental para compreender fontes antigas. 

      Assim, proponho ➜ real 1. unidade monetária de Portugal entre o século XIV e 1911 e do Brasil até 1942, data em que foi substituída, respectivamente, pelo escudo e pelo cruzeiro, à taxa de 1 escudo ou 1 cruzeiro = 1000 réis; era frequentemente representada sob a forma de múltiplos, como o mil-réis (1$000), sendo r. a abreviatura comum (plural: réis); 2. unidade monetária do Brasil desde 1994 (símbolo: R$) (plural: reais). 

      Curiosamente, a expressão conto (de réis) continuou a ser usada, por hábito, durante todo o século XX e até ao início do século XXI, já em pleno sistema do escudo, para designar mil escudos (1000$00).

[Texto 22 904]

Léxico: «destombar | destombamento»

Mais brasilês


      «Discussões distintas realizadas no mesmo 10 março deste ano consideravam excluir do patrimônio municipal trechos de três bairros da zona leste da cidade. Enquanto o Conpresp (conselho municipal de patrimônio) avaliava destombar vilas operárias no Tatuapé e no Belém, uma audiência pública na Câmara Municipal tinha como pauta rever a área envoltória do centro histórico da Penha de França» («Destombamentos em áreas históricas viram nova frente de batalha imobiliária em SP», Clayton Castelani, Folha de S. Paulo, 20.04.2025, p. A28). 

      Desconhecido para nós, comum lá ➜ destombar Brasil 1. retirar de um tombo (registo oficial de bens, nomeadamente de valor histórico ou cultural); 2. anular o tombamento de (bem móvel ou imóvel), fazendo cessar a sua protecção legal e o regime de conservação que lhe estava associado.

[Texto 22 903]

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