Definição: «cifrão»

Segue-se isto


      Porque não está bem explicado nos dicionários, também proponho uma nova definição de ➜ cifrão sinal ($) usado como símbolo monetário em vários países (dólar, peso, etc.); em Portugal e no Brasil, até meados do século XX, não era símbolo de moeda, mas separador numérico entre milhares e unidades de réis ou entre escudos e centavos. 

      É também esta a oportunidade para dizer que a 2.ª acepção, Porto Editora, é um pouco caricatural: «sinal ($) que indica o valor monetário de um bem ou serviço, sendo que quantos mais se usam, mais caro é esse bem ou serviço». Não descreve um uso que propriamente lexical, mas antes gráfico ou estilístico. Não se trata de um significado autónomo de cifrão, mas de uma convenção expressiva (sobretudo publicitária ou humorística), em que a repetição do símbolo sugere preço elevado. É, no fundo, uma espécie de metáfora visual. Queremos isto nos dicionários?

[Texto 22 905]

Definição: «real | conto»

Revisão da matéria dada


      Duvido que os mais novos saibam sequer ler este valor monetário: «Segundo um requerimento seu, teria servido a Manuel Botelho durante 4 meses, dos quais, conjuntamente com os meses que esteve ao serviço dos órfãos, ou seja, de 8 de Dezembro de 1835 a 8 de Março de 36, pede os ordenados à razão de 1$400 réis por mês» (O Romance de Camilo, Aquilino Ribeiro, Vol. I, Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 67). 

      Por extenso, é mil e quatrocentos réis. O sinal $ (cifrão), neste contexto não indica a moeda, mas apenas separa as unidades dos milhares, e a notação tradicional portuguesa usava precisamente este sinal como separador entre milhares e unidades de réis — por exemplo, mil-réis (1$000) ou conto de réis (1.000$000). Hoje, muito poucos reconhecerão o sentido ou a escala dos valores. A definição da Porto Editora para «real» é: «1. antiga unidade monetária de Portugal e do Brasil», seguida da acepção «2. unidade monetária do Brasil», e encabeçada por uma indicação global de plural: «reais, réis». A distinção das acepções está, neste caso, correcta: a primeira diz respeito à moeda histórica usada tanto em Portugal (até 1911) como no Brasil (até 1942), e a segunda refere-se ao real actualmente em vigor no Brasil desde 1994. Contudo, essa distinção está apresentada de forma incompleta e imprecisa: não são indicadas as datas de vigência no caso brasileiro da acepção antiga, pois que o real em réis ali se manteve até 1942, quando foi substituído pelo cruzeiro à taxa de 1 cruzeiro = 1000 réis, e, sobretudo, os plurais são listados em conjunto no cabeçalho da entrada, como se fossem equivalentes, quando «réis» se aplica apenas à moeda antiga e «reais» apenas à actual. Além disso, não se menciona a notação histórica portuguesa, que é, como se vê, fundamental para compreender fontes antigas. 

      Assim, proponho ➜ real 1. unidade monetária de Portugal entre o século XIV e 1911 e do Brasil até 1942, data em que foi substituída, respectivamente, pelo escudo e pelo cruzeiro, à taxa de 1 escudo ou 1 cruzeiro = 1000 réis; era frequentemente representada sob a forma de múltiplos, como o mil-réis (1$000), sendo r. a abreviatura comum (plural: réis); 2. unidade monetária do Brasil desde 1994 (símbolo: R$) (plural: reais). 

      Curiosamente, a expressão conto (de réis) continuou a ser usada, por hábito, durante todo o século XX e até ao início do século XXI, já em pleno sistema do escudo, para designar mil escudos (1000$00).

[Texto 22 904]

Léxico: «destombar | destombamento»

Mais brasilês


      «Discussões distintas realizadas no mesmo 10 março deste ano consideravam excluir do patrimônio municipal trechos de três bairros da zona leste da cidade. Enquanto o Conpresp (conselho municipal de patrimônio) avaliava destombar vilas operárias no Tatuapé e no Belém, uma audiência pública na Câmara Municipal tinha como pauta rever a área envoltória do centro histórico da Penha de França» («Destombamentos em áreas históricas viram nova frente de batalha imobiliária em SP», Clayton Castelani, Folha de S. Paulo, 20.04.2025, p. A28). 

      Desconhecido para nós, comum lá ➜ destombar Brasil 1. retirar de um tombo (registo oficial de bens, nomeadamente de valor histórico ou cultural); 2. anular o tombamento de (bem móvel ou imóvel), fazendo cessar a sua protecção legal e o regime de conservação que lhe estava associado.

[Texto 22 903]

Léxico: «tragediante»

Só em bilingues?


      «As páginas do diário que sucedem à morte de Fanny, por ele mandada embalsamar e depositada em urna de cristal, depois de lhe extrair o coração que meteu num bocal de álcool e levou para o Lodeiro — mise en scène dum tragediante-comediante, encharcado de Dumas Filho, de Gautier, de Soares de Passos, do mau Schiller — são suspiros, retrospecção dolorosa, remorso, pantominice» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 190-91).

[Texto 22 902]

Léxico: «piasta»

A História fora dos dicionários


      Aqui os protagonistas de um romance estão a caminho de Auschwitz, «antiga capital dos ducados piastas de Auschwitz e Zator». O pior é que os dicionários não registam (e deviam) a palavra ➜ piasta HISTÓRIA relativo ou pertencente à dinastia dos Piastas, primeira dinastia reinante na Polónia, que governou desde o século X até ao XVII; membro dessa dinastia.

[Texto 22 901]

Léxico: «afogador»

Arranque a frio


      Ai, ai... Houve um momento de anticlímax quando o Ford Escort Mk2 não quis pegar. Ela puxou o afogador e tornou a tentar e, desta vez, o motor arrancou. Claro que, a ti, Porto Editora, isto não te diz nada, pelo que proponho ➜ afogador dispositivo do carburador que limita a entrada de ar, enriquecendo a mistura ar-combustível para facilitar o arranque a frio do motor.

[Texto 22 900]

AO90 no dia-a-dia

Da teoria à prática


      «Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante – ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS –, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões» («O Chega e a Bíblia de Tarantino», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 29.04.2026, p. 13). 

      Tem que ver com o Acordo Ortográfico, sim senhor: desde o início da sua aplicação, pessoas mal informadas — entre as quais boa parte são jornalistas — entendem, ou assim parece, que uma das alterações foi decepar tudo o que é hífen. Revejam-me esta convicção, se faz favor. E com urgência.

[Texto 22 899]

Léxico: «camerata»

Mais música


      Carlos Tavares, o que foi ministro da Economia no XV Governo Constitucional, não o ex-director-executivo da Stellantis (e quantos mais homónimos não haverá...), foi um dos convidados do programa Uma Noite em Forma de Assim, na Antena 1. A certa altura, usou o termo «camerata», nascido italiano, mas usado universalmente. Portanto, já é nosso este ➜ camerata MÚSICA 1. conjunto de músicos, geralmente de pequena dimensão, dedicado à execução de música de câmara; 2. [por extensão] grupo de artistas ou eruditos reunidos em torno de interesses estéticos comuns, especialmente à semelhança das academias musicais italianas do Renascimento.

[Texto 22 898]

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