Léxico: «ingesta»

A toma, a ingesta...

      «E eis que no mesmo dia iam dois deles para uma aldeia, que distava de Jerusalém sessenta estádios, cujo nome era Emaús.» Assim escreveu um médico, São Lucas, o evangelista. Estádio, não estadio. Outro médico — como todos os médicos, actualmente —, o nefrologista Aníbal Ferreira, que ontem estava no Bom Dia Portugal para falar de doença renal crónica, disse «estadio».
      Este médico também usou um termo que só os médicos usam: «Os cálculos renais, a lítiase renal aumenta, associada regra geral a um componente de desidratação ou de menor ingesta hídrica, nos doentes que têm mais tendência a desenvolver esta complicação.» Ingesta é o que o organismo consumiu e absorveu.
[Texto 3242]

Léxico: «criptobiose»

Pouco científicos

      Mais de 90 investigadores estiveram reunidos num congresso mundial, em Vila Nova de Gaia, a falar de seres microscópicos. Concretamente, dos tardígrados — animais que marcham com lentidão. São animais de reduzidíssimas dimensões, de que há pelo menos 1000 espécies, de corpo não segmentado, com quatro pares de patas locomotoras, que vivem nas águas, sobre as plantas aquáticas ou no lodo. Numa reportagem de ontem do Jornal da Tarde, falou, a propósito destes seres, Paulo Fontoura, investigador do Departamento de Biologia da Universidade do Porto: «Eles são capazes de entrar no processo chamado criptobiose, portanto, vidas escondidas, reduzem fortemente o metabolismo, inclusivamente chegam a ter cadeias de ADN destruídas e que conseguem depois recompor.» Esta «criptobiose», redução extrema do metabolismo, não está nos dicionários gerais.
[Texto 3241]

Léxico: «cante»

Exagero

      «Completam-se na terça-feira cinco meses sobre a entrega, no comité internacional da UNESCO, da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade» («Um canto pelo cante», Nuno Pacheco, «2»/Público, 25.08.2013, p. 32).
      Já mais de uma vez me ocupei deste vocábulo. Aqui, aventei a hipótese, pouco arriscada, de o étimo estar no castelhano cante, e lamentei, do mesmo passo, que não estivesse dicionarizado. Como ainda não está, decorridos quatro anos. Seja como for, é manifesto exagero grafá-lo em itálico. Desconfio muito mais ali daquela construção — «cinco meses sobre a entrega». Hum...
[Texto 3240]

Léxico: «niungue»

Tetense

      O autor afirma que conhece a gramática e mesmo a «maioria do léxico da língua nyungwe», falada em Tete, Moçambique. E só pode ser verdade, pois claro. Mas é niungue que se escreve. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «dialecto do grupo sena falado pelos Niungues, grupo de povos centrados em Tete e na bacia inferior do Zambeze, em Moçambique».

[Texto 3239]

Léxico: «alfabetação»

Dois num

      Quando li o dicionário de José Pedro Machado, não me lembro de ter encontrado esta. Alfabetação. Conhecia-a agora através de umas «Achegas para Umas Regras Portuguesas de Alfabetação», separata editada em 1979 do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra.
      E aqui está um exemplar da obra Os Monjardinos — Uma Família Genovesa em Portugal, Açores e Brasil, de Jorge Pamplona Forjaz, publicado em Angra do Heroísmo em 1987. «Os Monjardinos», pois claro! Mal seria que um genealogista escrevesse de outra maneira.
[Texto 3238]

Ortografia: «subespera»

Ortografia não é com eles

      Viram a reportagem no Telejornal de ontem daquele caso de negligência médica no Hospital da CUF do Porto? Alguém se esqueceu de uma gaze de mais de 30 centímetros na garganta de uma criança de 4 anos, operada às amígdalas. Filmaram parte das instalações do hospital e, entre outras, a sala — lê-se numa placa — de «sub-espera pediatria». Nunca tal vira. O erro sim, é comum: é subespera que se deve escrever, porque ao elemento sub- se segue uma palavra iniciada por vogal. Sala de espera, sala de subespera... Kafkiano.
[Texto 3237]

«Quota/cota»

De outiva não vamos lá

      «Outra das suas forças é a existência de uma obra “emblemática” de derivação de um ribeiro desde o monte Córdova, sobranceiro à cidade, que abastecia o edifício e os terrenos envolventes através de um complexo sistema hidráulico. A água vinha do monte até um grande tanque que ainda hoje se preserva, e depois era encaminhada para os chafarizes dos jardins, de onde ia descendo para as quotas inferiores» («Santo Tirso propõe à UNESCO mosteiro que o ajudou a ser concelho», Samuel Silva, Público, 26.08.2013, pp. 12-13).
      Errado, caro Samuel Silva: à diferença de nível entre qualquer ponto e aquele que se toma para referência dá-se o nome de cota, não de quota. São palavras divergentes e, o que mais interessa no caso, só parcialmente sinónimas.
[Texto 3236]

Como se escreve nos jornais

Eles pensam que bem

      «Em Portugal, no plano económico, político e filosófico, evidenciou-se como figura tutelar da direita liberal, influenciando uma geração focada nas virtualidades do mercado livre. Foi o caso de Carlos Moedas, secretário de Estado adjunto de Passos Coelho, que entrou para a Goldman Sachs (GS), como “júnior”, quando Borges já era vice-presidente em Londres: “É o homem que conheci com maior sabedoria, no sentido da palavra sabedoria. Quando alguma coisa me falhava, procurava-o e ele explicava coisas complexas com palavras simples. Por isso é que um grupo de jovens e de pessoas de idade abaixo da dele o admiravam tanto”» («Um liberal que agiu sempre em coerência», Cristina Ferreira, Público, 26.08.2013, p. 2).
       «Geração focada»... Pois. O «júnior» merecia mais do que as aspas: é um anglicismo semântico, junior — «lower in standing or rank». E agora, lapso ou convicção do secretário de Estado ou da jornalista — «sabedoria, no sentido da palavra sabedoria». Fiquem a pensar se isto tem algum sentido.

[Texto 3235]

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