Léxico: «niungue»

Tetense

      O autor afirma que conhece a gramática e mesmo a «maioria do léxico da língua nyungwe», falada em Tete, Moçambique. E só pode ser verdade, pois claro. Mas é niungue que se escreve. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «dialecto do grupo sena falado pelos Niungues, grupo de povos centrados em Tete e na bacia inferior do Zambeze, em Moçambique».

[Texto 3239]

Léxico: «alfabetação»

Dois num

      Quando li o dicionário de José Pedro Machado, não me lembro de ter encontrado esta. Alfabetação. Conhecia-a agora através de umas «Achegas para Umas Regras Portuguesas de Alfabetação», separata editada em 1979 do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra.
      E aqui está um exemplar da obra Os Monjardinos — Uma Família Genovesa em Portugal, Açores e Brasil, de Jorge Pamplona Forjaz, publicado em Angra do Heroísmo em 1987. «Os Monjardinos», pois claro! Mal seria que um genealogista escrevesse de outra maneira.
[Texto 3238]

Ortografia: «subespera»

Ortografia não é com eles

      Viram a reportagem no Telejornal de ontem daquele caso de negligência médica no Hospital da CUF do Porto? Alguém se esqueceu de uma gaze de mais de 30 centímetros na garganta de uma criança de 4 anos, operada às amígdalas. Filmaram parte das instalações do hospital e, entre outras, a sala — lê-se numa placa — de «sub-espera pediatria». Nunca tal vira. O erro sim, é comum: é subespera que se deve escrever, porque ao elemento sub- se segue uma palavra iniciada por vogal. Sala de espera, sala de subespera... Kafkiano.
[Texto 3237]

«Quota/cota»

De outiva não vamos lá

      «Outra das suas forças é a existência de uma obra “emblemática” de derivação de um ribeiro desde o monte Córdova, sobranceiro à cidade, que abastecia o edifício e os terrenos envolventes através de um complexo sistema hidráulico. A água vinha do monte até um grande tanque que ainda hoje se preserva, e depois era encaminhada para os chafarizes dos jardins, de onde ia descendo para as quotas inferiores» («Santo Tirso propõe à UNESCO mosteiro que o ajudou a ser concelho», Samuel Silva, Público, 26.08.2013, pp. 12-13).
      Errado, caro Samuel Silva: à diferença de nível entre qualquer ponto e aquele que se toma para referência dá-se o nome de cota, não de quota. São palavras divergentes e, o que mais interessa no caso, só parcialmente sinónimas.
[Texto 3236]

Como se escreve nos jornais

Eles pensam que bem

      «Em Portugal, no plano económico, político e filosófico, evidenciou-se como figura tutelar da direita liberal, influenciando uma geração focada nas virtualidades do mercado livre. Foi o caso de Carlos Moedas, secretário de Estado adjunto de Passos Coelho, que entrou para a Goldman Sachs (GS), como “júnior”, quando Borges já era vice-presidente em Londres: “É o homem que conheci com maior sabedoria, no sentido da palavra sabedoria. Quando alguma coisa me falhava, procurava-o e ele explicava coisas complexas com palavras simples. Por isso é que um grupo de jovens e de pessoas de idade abaixo da dele o admiravam tanto”» («Um liberal que agiu sempre em coerência», Cristina Ferreira, Público, 26.08.2013, p. 2).
       «Geração focada»... Pois. O «júnior» merecia mais do que as aspas: é um anglicismo semântico, junior — «lower in standing or rank». E agora, lapso ou convicção do secretário de Estado ou da jornalista — «sabedoria, no sentido da palavra sabedoria». Fiquem a pensar se isto tem algum sentido.

[Texto 3235]

Léxico: «pingadeira»

Nunca vai acabar

      «Os jornais de hoje revelam escândalo sobre escândalo, que na generalidade envolvem o Estado ou antigos dirigentes do Estado. Do BPN ao desaparecimento dos dossiers a pingadeira não pára. E previsivelmente não vai parar. O tal buraco de que tanto se fala não é só um buraco financeiro, é também o buraco dos “negócios” do Estado, que, pelos nossos 308 municípios, penetraram Portugal inteiro, de Lisboa à mais remota vila de Trás-os-Montes» («Confiança», Vasco Pulido Valente, Público, 25.08.2013, p. 56).
      É palavra que Eça, citado antes deste excerto por Vasco Pulido Valente, também usou, assim como, noutro sentido, Camilo. Pingadeira é, entre outras coisas, em sentido figurado, negócio que vai rendendo sempre e despesa contínua. É isto, hoje, o nosso Estado, despesa para a maioria, negócio para uns tantos.

[Texto 3234]

Demasiado francês

Quase nos enganavam

      «E com uma característica que importa salientar: foi dada primazia à reutilização de materiais. Há pupitres (peças em madeira usadas para fazer a remuage do espumante) que foram transformadas em mesas, paletes que serviram de base para sofás, caixas individuais de vinho que resultaram em óptimos e originais suportes de papel higiénico» («Noites com uma pitada de sal e champanhe», Maria José Santana, «Fugas»/Público, 24.08.2013, p. 28).
       Embora o Público seja parquíssimo em itálico — mas faz mal —, como vi a remuage em itálico, ainda pensei que «pupitre», que conheço bem do castelhano, fosse português. Nada disso: a palavra é francesa, como remuage. Vejam aqui uma imagem. É acepção que não está, por exemplo, no Dicionário Francês-Português da Porto Editora, que apenas regista: «carteira; escrivaninha; estante de música; estante de coro». Para o dicionário da Real Academia Espanhola, é o «mueble de madera, con tapa en forma de plano inclinado, para escribir sobre él». («De madera», cara Maria José Santana, repare bem.) No Trésor, lemos: «ŒNOL. Pupitre (à bouteilles, de cave). Meuble de cave constitué par deux panneaux de bois inclinés, percés de trous, dans lesquels on introduit le col des bouteilles et qui sert à les maintenir en position inclinée, en particulier dans la fabrication du champagne».

[Texto 3233]

«Pôr uma hipótese»

Toda a gente

      «É um dos pratos mais afamados da Galiza, o polvo à galega — tanto que se tornou numa espécie de símbolo da gastronomia espanhola. Logo, esperávamos cruzar-nos com polvo, sim, à mesa — esse pulpo a la féria, cozido e polvilhado de pimentão; colocámos até a hipótese de o ver no aquário» («A cidade líquida e salgada que é um passeio marítimo», Andreia Marques Pereira, «Fugas»/Público, 24.08.2013, p. 18).
      Valia mais que a pusessem, à hipótese, como quase toda a gente e há muito tempo. «Ainda não chegara a conclusões certas e seguras sobre o curso que melhor me convinha, pus a hipótese de não estudar mais e ir à procura de emprego, e então folheava o Diário de Notícias» (Tudo Tem o Seu Tempo, Ana Maria Magalhães. Lisboa: Editorial Caminho, 2012, p. 401).
[Texto 3232]

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