Plural de nome de povos

Ora, tão simples

      «Consolidado o irreversível processo que, em 1965, criou a Região Autônoma do Tibete e concluídas a reforma agrária e outras reformas democráticas radicais, sepultou-se de vez a ordem servil tibetana. O princípio de autodeterminação das minorias étnicas é garantido pela Constituição Chinesa no Artigo 14, aos mongóis, huis, tibetanos, miaos, lis e korais» (Relações Internacionais: Visões do Brasil e da América Latina, Estêvão Chaves de Rezende Martins. Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, 2003, p. 461).
      E também os sanyis, os yis, os hans, os naxis, os mosuos, os uigures, os manchus, os yaos, os dongs, os zhuangs... É assim, pois claro, mas parece que é preciso atravessar o Atlântico para se saber. Cá é tudo no singular — porque a ciência manda.
[Texto 3145]

Relidos, não ficavam assim

Era só mudar

      «A em»? Era só mudar «em 1994» para outra parte da frase. «Há mesmo quem avente que não foi Pissarreira a, em 1994, na primeira fuga da prisão, matar uma septuagenária, o filho desta e uma criança de nove anos que chegava da escola e assistiu aos crimes» («“Tem uma falha na cabeça e anda por aí cheio de fome”», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 19).
      O advogado, russo, de Snowden não sabe falar russo? Era só mudar «apesar de não falar russo» para outra parte da frase. «Apesar de não falar russo, o advogado garante que Snowden se irá “adaptar facilmente” ao país que lhe deu asilo temporário, desafiando o pedido de extradição dos Estados Unidos» («Snowden em casa de amigos e à espera do pai e da namorada», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 21).
[Texto 3144]

Tradução: «spinoff»

Em inglês, mas explicado

      «Na Sonae, esta fusão também fecha um ciclo de sete anos para Paulo Azevedo, que em 2006 tentou expandir o universo da Sonae lançando uma OPA sobre a Portugal Telecom. A oferta foi chumbada pelos acionistas, mas desse processo acabaria por nascer a Zon (ex-PT Multimedia), fruto do spinoff (separação) de operações que a Autoridade da Concorrência impôs à PT» («Zon e Sonae só esperam pela AdC para atacar mercado», Miguel Pacheco, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 11).
[Texto 3143]

Tradução: «buy-back»

Ah, mas em inglês...

      «Refira-se a propósito que as empresas de rent a car compram os carros em dois sistemas principais: ou ficam com eles como ativos (normalmente três anos), ou fazem os chamados contratos buy-back, em que o vendedor volta a receber a viatura passado um determinado prazo que, explicou Robalo de Almeida[,] “varia entre sete meses e dois anos e meio”» («Rent a car salva vendas de carros, mas enfrenta custo do investimento», Armando Fonseca Júnior, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 13).
      E não podemos dizer isto em português? Porque não contrato de retrovenda, se retrovender é vender com a condição de desfazer o contrato de venda?
[Texto 3142]

Como comunicam os governos

O que é dizer muito

      «A primeira comunicação [sobre o desastre ferroviário na Galiza] do governo de Madrid foi a mais tardia (já se tinham pronunciado o governo regional, a oposição, as autoridades ferroviárias do Estado e a polícia) e constou na difusão de um comunicado mal escrito, frio e impessoal. Era tão rotineiro que continha o erro grosseiro de se perceber (porque parte do texto não foi apagado) que fora redigido em cima de outro comunicado sobre um outro acidente (na China)» («O marketing de Passos para lá dos briefings», Luís Paixão Martins, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 3.08.2013, pp. 20-21).
       Não sei, ainda parecem mais ineptos do que Pedro Lomba nestas questões de comunicação.

[Texto 3141]

«Risco», uma acepção

Tem de ir para lá

      A propósito de empréstimos subprime e de swaps, ao que parece, terei de ser eu, que não sou economista, a pôr no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora a acepção usada em finanças do termo «risco» — a variância, ou diferença, que tanto pode ser positiva como negativa, entre o retorno esperado e o retorno obtido de um investimento.
[Texto 3140]

O AO mal assimilado

Alto!

      Tivesse sido na SIC, e nem se notava.... «Hoje, é claro que, tal como os empréstimos subprime, os swaps são uma arma financeira de destruição maciça, um jogo de altorrisco que foi literalmente vendido por partes interessadas e detentoras de mais informação e mais poder» («Uma verdade sistémica», Pedro Adão e Silva, Expresso, 3.08.2013).
      Caro Pedro Adão e Silva, e o Acordo Ortográfico, o que é, senão também uma arma de destruição maciça da língua? Nunca pensou que podia prová-lo, confesse lá. Pois é, conseguiu. Tudo provém, nós percebemos, da monomania do hífen: de um hipotético «jogo de alto-risco» passou para *altorrisco, porque lhe soou que se dobravam os ss e os rr. Quando, em que casos, é que lhe escapou completamente. Mas este não é um jogo de morte súbita.
[Texto 3139]

Ortografia: «autoconhecimento»

Para não dizer apenas mal

      «Fazendo um elenco mais ou menos exaustivo dos temas abordados neste romance, podem encontrar-se referências ao dinheiro, ao casamento, a um subtil mas acutilante confronto de classes e até, pela evolução e pelas metamorfoses dos estados de alma da protagonista Elizabeth Bennet, um caminho original para uma profunda regeneração através do auto-conhecimento» («Morte acrescentada», Rui Lagartinho, «Ípsilon»/Público, 2.08.2013, p. 19).
      Esta é uma parte do código de escrita que não dominam, nem os críticos literários. Enfim, para não dizer apenas mal, reproduzo o bem que Rui Lagartinho diz da tradução recenseada: «Nota final: a janela de oportunidade que este livro [Morte em Pemberley] abriu ao trazer de novo P. D. James para as livrarias portuguesas numa edição cuidada e muito bem traduzida por Tânia Ganho deveria, passado o efeito do título que vai estar na origem de uma série da BBC a estrear no final do ano, ser aproveitada pela Porto Editora para disponibilizar novas edições dos romances de P. D. James, um corpus indispensável da literatura policial dos últimos 50 anos. Poucos estão disponíveis no mercado português, os que o estão são difíceis de encontrar e estão mal traduzidos.»
[Texto 3138]

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