Léxico: «empregatício»

Intervalo entre dois valores

      Acabei de conhecer uma palavra: «empregatício». É adjectivo que não consta dos nossos dicionários, mas que não falta, obviamente, no Houaiss, e o leitor que neste momento, às 19h04, está a ler o blogue algures entre Matupá e Novo Mundo, no Brasil, há-de conhecê-lo. (E é claro que Millôr Fernandes se referia ao Houaiss em papel — e, por isso, ao Houaiss — e não ao Houaiss de carne e osso, mais osso que carne, parece que era magro. Tirando casos patológicos, apenas de um dicionário é que se pode afirmar que conhece todas as palavras, só não sabe juntá-las.)
      Mau, mau... No mesmo texto onde encontrei «empregatício», leio que determinados dados apontam para «uma fourchette entre 80 % e 90 %». Eu sabia lá que isto se usava em estatística... Para francófonos?

[Texto 2818]


«Africano/negro»

Continua a ser assim

      Rua das Pretas. Pois é, das Pretas. Ainda o politicamente correcto, essa estupidez erigida em moda, há-de querer mudar o nome da rua. Aposto que escolheriam Rua das Africanas. Rua das Negras não, pois continuo a ler e a ouvir «africano» a querer significar «negro». Ora, todos nós conhecemos africanos brancos e até de cores intermédias. Felizmente – e que o Diabo seja cego, surdo e mudo –, os dicionários, pelo menos os que interessam, ainda só registam que africano é o natural ou habitante de África. Quanto à cor, essa é outra história.
[Texto 2817]

Léxico: «macroninfia»

Eh lá

      Outra ausente dos dicionários, mas esta muito menos notada, e já vão ver porquê. A macroninfia — e não quero pornografar (quem sabe do que veio aqui ver o leitor que estava, às 4 da manhã, no meio da rua!, junto da Estação Central de Belo Horizonte) — é a hipertrofia dos pequenos lábios da vulva, que chegam a ter 5 a 8 centímetros.
[Texto 2816]

A minha memória de África

De chapéu colonial

      Há quem se lembre (e tenha saudades!) do Senhor do Adeus, figura habitual no Saldanha, que eu nunca vi. Lembro-me, isso sim, de ver de quando em quando um senhor baixo e franzino, já idoso, na estação de Metro de Picoas ataviado como se fosse para uma caçada em África: de casaco-camisa com cinto, dito à rodesiana, chapéu de explorador africano e — calções.
[Texto 2815]

Léxico: «chassidismo»

Vale, Baal Shem Tov

      Já que os meus vizinhos me acordaram, aproveito para dizer que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora aceitou a minha sugestão de entesourar o vocábulo «chassidismo», variante de «hassidismo», nome dado a uma corrente mística judaica, de raiz popular, surgida no século XVIII na Polónia.

[Texto 2814]

O brasileiro e o AO

Quase mudos — e gratos

      «Há uma evidente razão para que o português brasileiro seja mais inteligível a ouvidos lusitanos do que o português europeu a nossos ouvidos: nós pronunciamos as vogais das palavras» («Percebes?», Caetano Veloso, O Globo, 5.05.2013).
      Cada vez mais diferente, o português de cada lado do Atlântico. E desde o início, claro que só por acaso — porque a Constituição não foi votada, mas outorgada — é que o Brasil não fala brasileiro, mas português. O negregado Acordo Ortográfico ainda nos vem emudecer mais. Passo.
[Texto 2813]

Léxico: «apocatástase»

Finalmente

      Não quero falar de Orígenes nem de Schleiermacher, mas, quase todos católicos, tenho de lembrar este vocábulo e o conceito: apocatástase. Custa a dizer, mas é o preço. Abreviadamente: é a doutrina segundo a qual todos os seres caídos em pecado serão finalmente salvos.
[Texto 2812]

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Tem graça

     O grupo do reflexivo *se indica, nas línguas indo-europeias, o que é próprio (em latim, suus) e existe de modo autónomo, tanto no sentido daquilo que é próprio de um grupo, como no latim suesco, consuetudo, sodalis, no grego ethos (e éthos), «costume, hábito, morada habitual»... Não, não era nada disto que eu queria dizer. Queria apenas dizer que acho bem conseguida a publicidade (o headline, diriam os (des)entendidos — e vou já lavar a boca com vinagre) da Citroën que promete «o céu a seu dono».

[Texto 2811]

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