«Discordar de/concordar com»

E por erros estapafúrdios...

      «Atenção que não me estou a referir aqui a diferenças políticas, desentendimentos ideológicos ou divergências quanto ao zeitgeist. Qualquer um de nós é capaz de reconhecer inteligência em pessoas com as quais discorda profundamente. Do que eu falo é de uma outra coisa — é de gente que acumula os erros mais estapafúrdios, oferecendo o flanco para ser parodiada por qualquer indígena (eu incluído)» («A primavera do PS e o gonçalvismo do PSD», João Miguel Tavares, Público, 5.04.2013, p. 53).
      O verbo «discordar» rege a preposição «de»: discordar de. O verbo «concordar» é que pede a preposição «com»: concordar com.
[Texto 2742]

Sobre «maple»

A moda já passou

      «Notem os desnacionalizados de Portugal que ninguém por cá chama às poltronas essa coisa ridícula de maple, simples marca inglesa de poltronas feitas para exportação» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 13).
[Texto 2741]

Sobre «leitura»

Depois do paquete

      «Meu caro, isto tem duas leituras possíveis», acabou de me dizer certa pessoa. De onde nos vem esta acepção — maneira de compreender, de interpretar um texto — do substantivo «leitura»? Só pode ser do inglês ou do francês. Vejamos... Ah, sim, do francês: «manière de comprendre, d’interpréter un texte, un événement». Já não chegou no paquete do Havre, mas cá está.
[Texto 2740]

Léxico: «varascada»

A toda a hora

      Lembrei-me de repente (podia explicar porquê, mas não interessa) da palavra «varascada» (com a variante «varancada»), que é a pancada com vara; chibatada; verdascada. Vão agora ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ver se a encontram. Não está, claro.
[Texto 2739]

Léxico: «mota»

Não é redução de «motocicleta»

      «Foi feito um curso para o rio [Lis] e foram feitos, a designação técnica é umas motas no rio, ou seja, uns muros em terra, a ladear as margens do rio para conter as águas» (Henrique Damásio, técnico da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Lis [ARBVL], Portugal em Directo, 3.04.2103).
      É mais ou menos isso: mota é, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o «aterro à beira dos rios para resguardar os terrenos marginais das inundações».
[Texto 2738]

«Desestimar», um falso cognato

Era tão fácil

      «O Ministério Público espanhol já recorreu da decisão do juiz de chamar a depor como arguida a filha do rei. Se tal recurso não for desestimado, a infanta Cristina terá que [sic] comparecer no próximo dia 27 no mesmo tribunal, onde já foi interrogado o marido duas vezes, indiciado de apropriação indevida de fundos públicos» («Infanta Cristina indiciada por desvio de fundos públicos», Rosa Veloso, Telejornal, 3.04.2103).
      Com as actuais tecnologias, se quisermos, podemos consultar um dicionário no próprio telemóvel. Se o tivesse feito, Rosa Veloso ia concluir que desestimar é um falso cognato. Em castelhano, e no campo jurídico, desestimar é negar, rejeitar. A jornalista desestimou, como faz tantas vezes, a língua portuguesa.

[Texto 2737]

Plural de «avô» é...

Não se fala mais nisso

«Avós, avôs. Seria conveniente aplicar a primeira forma ao plural de avó. A segunda usar-se-ia com referência aos antecessores, antepassados, avoengos e como plural de avô.
      Viana preferiu registar avôs apenas como plural de avô e avós como plural de avó e no sentido de antepassados. O “Vocabulário” da Academia errou, pois atribuiu a avô o plural avós, o que não pode ser. (D. D.) Quase no fim da invocação, referindo-se ao avô paterno de D. Sebastião, D. João III, e ao avô materno, Carlos V, emprega Camões o plural avôs (canto I, est. XVII, edição de 1572).

        “Em vós se vem da olímpica morada
        Dos dois avôs as almas cá famosas.”

      Lembra-nos haver já sido proposta a forma avôs, com o o fechado, para designar também os antecessores, antepassados, antigos, ascendentes, ou avoengos (palavras estas que evitam o galicismo ancestro). Ver, por exemplo, a “Selecta Clássica” de João Ribeiro, pág. 78, onde se refere o uso de tal grafia pelos nossos bons escritores antigos. Aí ensina ainda o mesmo Autor que o verdadeiro significado de progenitores é avôs, ascendentes. Julgamos que haveria conveniência em aplicar avós sòmente ao plural de avó. A edição de 1907 de “O Santo da Montanha”, de Camilo, traz a acentuação de avôs: “solar de nossos avôs...”, onde o termo ocorre por antepassados. Finalmente, não se esqueça que o anglicismo ancestral tem bom correspondente em avito. (E. V.).
      Nas anteriores edições deste “Dicionário de Dificuldades”, além do mais, informei que o “Vocabulário” da Academia errou, ao atribuir a avô o plural avós. Costa Leão (“Prontuário de Ortografia”, pág. 129, nota — ed. 13.ª) cai no mesmo lapso, quando deseja que o plural de avô seja avós.
      O plural de avô (pai do pai ou pai da mãe) só deve ser avôs, como Gonçalves Viana regista no seu inexcedível “Vocabulário”» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. I, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, pp. 455-56).

[Texto 2736]

Léxico: «acacianismo»

Tem de estar lá

      «O segundo reparo é este: nem todas as obras podem ajudar a formar a “personalidade” dos alunos. Isso é um acacianismo. Quem ler o Fernão Mendes Pinto que personalidade forma?» (Estudos de Apoio ao Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Livraria Avis, 1976, p. 280).
      Pois é: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lembrou-se de acaciano e esqueceu-se de acacianismo.
[Texto 2735]

Arquivo do blogue