«Desestimar», um falso cognato

Era tão fácil

      «O Ministério Público espanhol já recorreu da decisão do juiz de chamar a depor como arguida a filha do rei. Se tal recurso não for desestimado, a infanta Cristina terá que [sic] comparecer no próximo dia 27 no mesmo tribunal, onde já foi interrogado o marido duas vezes, indiciado de apropriação indevida de fundos públicos» («Infanta Cristina indiciada por desvio de fundos públicos», Rosa Veloso, Telejornal, 3.04.2103).
      Com as actuais tecnologias, se quisermos, podemos consultar um dicionário no próprio telemóvel. Se o tivesse feito, Rosa Veloso ia concluir que desestimar é um falso cognato. Em castelhano, e no campo jurídico, desestimar é negar, rejeitar. A jornalista desestimou, como faz tantas vezes, a língua portuguesa.

[Texto 2737]

Plural de «avô» é...

Não se fala mais nisso

«Avós, avôs. Seria conveniente aplicar a primeira forma ao plural de avó. A segunda usar-se-ia com referência aos antecessores, antepassados, avoengos e como plural de avô.
      Viana preferiu registar avôs apenas como plural de avô e avós como plural de avó e no sentido de antepassados. O “Vocabulário” da Academia errou, pois atribuiu a avô o plural avós, o que não pode ser. (D. D.) Quase no fim da invocação, referindo-se ao avô paterno de D. Sebastião, D. João III, e ao avô materno, Carlos V, emprega Camões o plural avôs (canto I, est. XVII, edição de 1572).

        “Em vós se vem da olímpica morada
        Dos dois avôs as almas cá famosas.”

      Lembra-nos haver já sido proposta a forma avôs, com o o fechado, para designar também os antecessores, antepassados, antigos, ascendentes, ou avoengos (palavras estas que evitam o galicismo ancestro). Ver, por exemplo, a “Selecta Clássica” de João Ribeiro, pág. 78, onde se refere o uso de tal grafia pelos nossos bons escritores antigos. Aí ensina ainda o mesmo Autor que o verdadeiro significado de progenitores é avôs, ascendentes. Julgamos que haveria conveniência em aplicar avós sòmente ao plural de avó. A edição de 1907 de “O Santo da Montanha”, de Camilo, traz a acentuação de avôs: “solar de nossos avôs...”, onde o termo ocorre por antepassados. Finalmente, não se esqueça que o anglicismo ancestral tem bom correspondente em avito. (E. V.).
      Nas anteriores edições deste “Dicionário de Dificuldades”, além do mais, informei que o “Vocabulário” da Academia errou, ao atribuir a avô o plural avós. Costa Leão (“Prontuário de Ortografia”, pág. 129, nota — ed. 13.ª) cai no mesmo lapso, quando deseja que o plural de avô seja avós.
      O plural de avô (pai do pai ou pai da mãe) só deve ser avôs, como Gonçalves Viana regista no seu inexcedível “Vocabulário”» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. I, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, pp. 455-56).

[Texto 2736]

Léxico: «acacianismo»

Tem de estar lá

      «O segundo reparo é este: nem todas as obras podem ajudar a formar a “personalidade” dos alunos. Isso é um acacianismo. Quem ler o Fernão Mendes Pinto que personalidade forma?» (Estudos de Apoio ao Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Livraria Avis, 1976, p. 280).
      Pois é: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lembrou-se de acaciano e esqueceu-se de acacianismo.
[Texto 2735]

JGS, revisor

E depois?

      «Sim, a profissão de revisor não imunizou Gaspar Simões, ou os seus textos, contra as gralhas, de que foi grande recordista» (Bacoco É Bacoco, Seus Bacocos, Arnaldo Saraiva. Porto: Lello & irmão, 1984, p. 144).
      E depois? Os médicos não adoecem e não morrem? Os enfermeiros não enfermam? Não há sacerdotes a morrerem sem a extrema-unção? Quando escrevia, João Gaspar Simões não era revisor.
[Texto 2734]

«Noites sem lua»

Nas trevas completas

      «Mãos, orelhas e objetos escuros existem desde, pelo menos, o séc. XII (estou a lembrar-me de Geraldo Geraldes sem Pavor a cortar sentinelas mouras em noites sem Lua) e não seria daí que vinha o espanto» («Mentira e vídeo (sem sexo)», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 56).
      Há um verso de Guerra Junqueiro (um dia conheci um médico, que não tinha a trave bem cortada, é bem verdade, que sabia de cor A Velhice do Padre Eterno) que diz «vão em noite sem lua num barco sem velas». Não há, não houve até hoje, que se saiba, noites sem Lua, apenas sem lua, isto é, sem luar.

[Texto 2733]

O preço da pureza

A impureza das aspas

      «Estes enfermeiros têm de saber inglês e durante o período de formação no hospital [de West Suffolk] fazem um aprofundamento dos conhecimentos linguísticos, nomeadamente no que diz respeito a termos médicos. Filipa Teixeira reconhece as dificuldades de trabalhar noutro país e com outra língua: “Nós chegamos aqui e deparamo-nos com uma população idosa e com inglês mais ‘puro’ e mais difícil de compreender”» («Enfermeiros lusos dominam em hospital britânico», Emanuel Nunes, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 17).
      Tudo o que é puro — com aspas ou sem aspas — é sempre mais difícil de compreender, como bem sabemos. A ganharem, porém, 3250 euros logo no primeiro ano de serviço, talvez possam ter umas explicações.
[Texto 2732]

Talvez uma simples gralha, mas...

Mais de 6 anos

      «O ator britânico queria fazer parte do rol de celebridades que podiam dar-se ao luxo de edificar uma casa numa edílica frente de mar. [...] As cada vez mais furiosas tempestades de inverno e as marés cada vez mais altas estão a colocar em perigo as casas dispostas ao longo da costa» («Primeira mulher pivô em horário nobre nos EUA retira-se em 2014», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 53).
      No sábado, a minha filha veio mostrar-me um desenho em que tinha escrito «ilfante» — mas acabou de fazer 6 anos e ainda não está na escola. Em compensação, nunca a ouvi dizer «colocar em perigo». Mas sim, senhora jornalista, «edílico» existe, mas se quiser saber o que significa consulte um dicionário.

[Texto 2731]

Tradução: «comprehensive»

Compreendo

      «O assinalável êxito internacional de A Bíblia é fácil de explicar: trata-se de uma produção grande, promovida por um canal acima de suspeitas (e um canal de informação, note-se), ao longo da qual se desenrola uma dramatização transversal, quase completa — os anglo-saxónicos diriam comprehensive, palavra para que não temos boa tradução —, de um livro que nunca deixou de exercer um enorme fascínio sobre as pessoas e, porém, cada vez menos gente leu» («Ainda ‘A Bíblia’», Joel Neto, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 52).
      Deve ser por isso que uns a deixam por traduzir e outros a traduzem por... «compreensivo»! Bem, agora já é tarde para mudar de país.
[Texto 2730]

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