Léxico: «rendoso»

Podemos pois

      «Além desta fonte de receita, criou logo outras, que eram não menos rendosas do que ela» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, pp. 93-94).
      Então se este e outros autores, no seu tempo, puderam escrever sem usar o antipático «rentável», nós não podemos? (E, é claro, também não precisou de escrever «para além». Pois nós também não.)

[Texto 2536]

«Quanto mais/quando mais»

Jogo do dia

      «E, quando mais não fosse, esses sacrificados merecem a homenagem de uma lembrança. Mas há mais. A recordação do seu martírio será uma lição para senhores e servos» (Diário, Vols. XIII a XVI, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, 5.ª ed., p. 242).
      Que palavra se oculta ali: será quando ou quanto? Qual a expressão certa neste contexto?

[Texto 2535]

«A meia voz» ou «a meia-voz»?

Isto é uma república

      Continuamos a contribuir, se nos deixarem, para melhorar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque não há reis (nem rainhas) das palavras. No verbete «sangue-frio», temos a locução a sangue-frio. Contudo, no verbete «meia-voz», não temos a locução a meia-voz, que encontramos — sem hífen — no verbete «voz». Alguém entende isto? Que se apresente.
[Texto 2534]

«Fungir»?

Em sonhos ou talvez não

      Era só um sonho, alheio. Nós não temos a palavra «fungir». Regista-a, desde meados da década de 1970, o dicionário da Real Academia Espanhola: «Desempeñar un empleo o cargo. Fungir de presidente. Fungir como secretario.» Também para eles é um exotismo, que há-de ter-lhes chegado da América do Sul, primeiro como termo jurídico. Afinal, também na nossa língua «fungível» só se usa nos meios jurídicos.
[Texto 2533]

Revisão

Para lá do desejável ou BWV 565

      «Efectivamente, a quantidade alterações e correcções excede muito a nossa expectativa.» Ao que isto chegou. E de quem é a culpa de tantos erros, hã? Há sempre expectativas, desejos, sonhos. Eu também queria ser um grande músico, do que me lembro mais quando ouço música — como agora, ao ouvir a Tocata e Fuga em Ré Menor, de Bach, pela Orquestra de Câmara de Munique.
[Texto 2532]

Duisburgo

Uma gota para esse oceano

      É verdade: em todo o lado se lê que a iniciativa («evento», como agora toda a gente diz) «Língua Portuguesa: um oceano de culturas» se está a realizar em Duisburg (ou em Duisberg, também já li).
      Escrevo sempre como Rodrigues Lapa: «Convém ainda estabelecer uma outra diferença, não isenta de significado: o malogrado musicólogo alemão Hans Spanke, ao qual nos ligou durante anos uma simpática camaradagem intelectual, vítma de um dos bombardeamentos de Duisburgo, sua cidade natal, insistia em dizer que os seus estudos não se baseavam propriamente na música oficial da Igreja, mas em textos de musica pia non liturgica» (Miscelânea de Língua e Literatura Portuguesa Medieval, Manuel Rodrigues Lapa. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1982, pp. 7-8).
[Texto 2531]

Léxico: «corporatura»

Já era

        Aqui a minha autora diz, em relação a dois mendigos, que um deles tem uma «estatura mais robusta». Encontrei em Arnaldo Gama a palavra certa, mas entretanto de todos esquecida: «Álvaro era um belo moço de trinta anos de idade, de aspecto formosamente varonil e de galharda e bem posta corporatura, possuía fôrças superiores às do ichacorvos, era corajoso como um leão, e generoso e altivo como o melhor cavaleiro dos da Távola redonda» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, pp. 51-52).
[Texto 2530]

 

«Ovo», uma acepção

Para escapar ao francês

      «Outras vezes, finge-se que os bebés estão em cena, mas há apenas um berço ou um ovo vazio.» Na semana passada, quem consultasse o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não encontrava esta acepção. Na quinta-feira passada, fiz a sugestão ao Departamento de Dicionários, e hoje vejo que já a registaram: «cadeira para transportar um bebé desde o nascimento até atingir cerca de dez, ou no máximo treze, quilos de peso; coque». E eu nunca tinha ouvido falar em «coque» nesta acepção, mas é uma má troca, pois vem do francês (marca comercial?) babycoque ou baby coque.
[Texto 2529]

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