Pronúncia de «cônjuge»

Impressionante!

      E no mesmo Jornal das 8 da TVI, a jornalista Judite de Sousa contribuiu activamente para divulgar entre as massas uma calinada das grandes: «Uma marcha que acontece no dia em que as Mulheres Socialistas apelaram à mudança da lei que permite ao assassino de um cônjugue ser herdeiro da vítima e ter direito a pensão de sobrevivência.» Tão experiente, e sai-nos com uma destas. Saiba a jornalista que essa palavra não existe. Existe «cônjuge», que só tem uma forma de ser pronunciada: /côn–ju–je/. Um conselho: consulte o Prontuário Sonoro da RTP.
      Aproveitemos também para lembrar que «cônjuge» é um substantivo sobrecomum, isto é, tem um género determinado e invariável, masculino, neste caso, para designar as pessoas de um ou outro sexo: seja homem ou mulher, diz-se sempre «o cônjuge».
[Texto 2371]

«Terá abrido fogo»

Mas estava assustado

      Tiroteio em São Miguel d’Acha. Anteontem, no Jornal das 8 da TVI, o alferes da GNR Tiago Delgado, ainda com ar assustado, afirmou: «Um dos indivíduos que tinha fugido terá regressado numa moto. Os militares, ao avistarem a moto, estranharam porque o indivíduo até estaria sem capacete. Ao tentarem abordá-lo, o indivíduo imediatamente sacou de uma caçadeira e terá abrido fogo sobre os militares.» É o particípio passado regular do verbo «abrir» — mas caiu em desuso. O alferes Delgado, com vinte e tal anos, devia saber isto.
[Texto 2370]

Conjunção subordinativa causal

Pois

      «A conjunção pois não tem sido classificada como conjunção [subordinativa] causal», escreveu o consultor do Ciberdúvidas numa consulta datada de 6 de Março deste ano. Tem a certeza? Veja lá, é que eu tenho a certeza do contrário — e provo-o já: Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Edições Sá da Costa, 1984, pp. 381-82) integram-na entre as conjunções subordinativas causais, o que abonam com uma frase de Érico Veríssimo de Um Lugar ao Sol: «Tio Couto estava sombrio, pois aparecera um investigador da polícia perguntando por Gervásio.» Lá está a iniciar oração subordinada denotadora de causa.
[Texto 2369]

Ortografia: «alto-mar»

Como neste caso

      «A EDP, que tem a única eólica de alto mar em operação em Portugal, quer instalar mais cinco novas torres de produção de energia, desta vez no mar perto da Nazaré. “Com grande probabilidade será desenvolvido na zona-piloto [de energia das ondas] em São Pedro de Moel”, referiu ao DN/Dinheiro Vivo fonte da empresa» («EDP quer cinco eólicas de alto mar perto da Nazaré», Ana Baptista, Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
[Texto 2368]

Ortografia: «borboleta-do-mar»

Espécime dos pterópodes

      «O animal em causa, Limacina helicina antarctica, é uma espécie de caracol marinho, conhecido popularmente como borboleta dos mares. Num artigo publicado na revista Nature Geoscience, uma equipa de investigadores da British Antartic Survey, coordenada por Nina Bednarsek, confirmou que esta espécie já revela enfraquecimento ou mesmo dissolução de duas estruturas laterais duras, que caracterizam esta espécie» («Borboleta dos mares afetada por maior acidez do oceano austral», Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
      E os hífenes? E não apenas isso: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafa-o assim: borboleta-do-mar.
      (O apelido da investigadora na verdade é Bednaršek, mas isso talvez não tenha qualquer importância.)

[Texto 2367]

Ortografia: «micrometeorito»

Da pressa não é, porque demora mais

      «Na mira destes caçadores de meteoritos estão, não apenas os de dimensão média de uma pequena pedra, mas também os chamados micro-meteoritos, com tamanhos inferiores a dois milímetros, que são os mais abundantes de todos» («Caçadores de meteoritos a caminho da Antártida», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
      Quando é necessário hífen, como já vimos inúmeras vezes, não o usam. Vá lá a gente percebê-los.

[Texto 2366]

Léxico: «papável»

Não percebo

      «Luis Antonio Tagle. Filipino, 55 anos, arcebispo de Manila, é um dos mais novos cardeais, apontado como papabile, pelo dinamismo da Igreja na Ásia» («Quem é quem», Diário de Notícias, 25.11.2012, p. 26).
      Se temos o adjectivo papável — que pode ser eleito papa —, para quê usar um termo estrangeiro, italiano no caso? E porque dirá o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que é um termo coloquial?
[Texto 2361]

Parece uma brincadeira

Com muita pedagogia

      Já fiz, mais do que uma vez, sugestões para o Prontuário Sonoro, do portal da RTP. Não sei, nem isso agora interessa, se as aceitaram ou não. Convém que aceitem esta: corrijam «uxorcida», que não existe. Se o radical é uxori, que fizeram do i? É uxoricida. A transcrição também está mal, mas é coerente com o primeiro erro: /ukssurssida/. E, por fim, alguém pronuncia a palavra que não existe. Não estiveram envolvidas menos de quatro pessoas — e tudo para tamanho erro. E estão a ensinar os colegas...

[Texto 2356]

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