Tradução: «doily»

Com paninhos

      Fico sempre perplexo quando alguém traduz do inglês — com termos de outra língua que não a portuguesa. Desta vez, a palavra era doily ­— paninho ornamental, segundo o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. O tradutor quis que fosse napperon. Mas até o temos aportuguesado, naperon. E é assim que ele aparece abundantemente na obra de António Lobo Antunes, talvez o autor que mais a usa.

[Texto 2283]

«Golpe de magia/passe de magia»

Não vá o Diabo tecê-las

      «Como explicar, senão por um golpe de magia, esse estranho fenómeno colectivo que varreu rotinas, sacudiu torpores, quebrou tabus e nos levou, como que tocados pela graça, ao autoconvencimento de que íamos fazer História?» (Arte de Marear, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, 2.ª ed., p. 116).
      Isto não cheira logo, mesmo ao longe, a galicismo? Ora golpe, coup... Prefiro «passe de magia»: «Por um verdadeiro passe de magia, o autor, desprezando a coerência da unidade espacial, faz coincidir a localização dos dois centros de acção» (Vida e Obra de Raul Brandão, Guilherme Castilho. Lisboa: INCM, 2006, p. 278). Claro que, se o autor, ou alguém por ele, decide que «golpe de magia» (e, para maior francesia, «golpe de mágica» ainda era melhor: coup de magique) é que é, nada podemos fazer.

[Texto 2282]

Léxico: «lamieiro»

Isto não tem fim

      O que o homem disse, e a mulher repetiu, é que ano sim, ano não corta os lamieiros lá no terreno e os usa como estacas para o feijão. Que são plantas altas, fortes, com folha viçosa semelhante à da laranjeira. Alguém conhece o termo nesta acepção? Para todos os dicionários e enciclopédias que consultei, é apenas outro nome para o pisco-azul. Será regionalismo?
[Texto 2281]

Léxico: «biotítico»

Mas devia

      «No Geoparque Arouca é possível assistir a um fenómeno que, até hoje, é considerado único no mundo. Junto à aldeia da Castanheira, num afloramento de granito com cerca de um quilómetro de extensão, discos de pedra (chamam-se nódulos biotíticos) soltam-se de rochas de granito, como se delas nascessem. São as pedras parideiras» («Pedras parideiras ganham ‘maternidade’», Helder Robalo, Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 27).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista este adjectivo: relativo à biotita (ou biotite) ou que contém este mineral.
[Texto 2280]

Léxico: «canhotismo»

Sinistro

      Sim, «paladar» também tem essa acepção de parte superior da cavidade bucal. Veja-se o Salmo 137: «Pegue-se-me a língua ao paladar,/ se eu não me lembrar de ti,/ se não fizer de Jerusalém/ a minha suprema alegria!» É também este salmo que se refere, ao que parece, ao canhotismo — mas esperem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «canhotismo». Se até regista «mancinismo» e «sinistrismo»...
[Texto 2279]

Léxico: «hostal»

Boa alternativa

      «Na Baixa de Lisboa, o Lisbon Story Guesthouse recebe hóspedes de todo o mundo. Mas estes, para além das suas histórias, deixam solidariedade para os sem-abrigo da cidade. A ideia, inédita, partiu de Bruno Ferreira, o seu proprietário e gerente, que dia após dia, via os sem-abrigo nas imediações do seu hostal» («Hóspedes entregam pão e roupa para sem-abrigo», Joaquim Cardoso e Marina Almeida, Diário de Notícias, 1.11.2012, p. 16).
      Ora muito bem: em vez de um termo estrangeiro, um termo português antigo. Curiosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista «estau», não acolhe nem «hostal» nem «hostau».
[Texto 2278]

Léxico: «fashionista»

Nunca a tinha encontrado

      «E como dizem as fashionistas, a história da Cinderela é a prova de que um par de sapatos nos pode mudar a vida» («Bela sedutora com novo visual», Eunice Gaspar, Nova Gente, n.º 1885, p. 5).

[Texto 2277]

Léxico: «congeneridade»

Mas existe

      E a propósito de «congénere». Sabiam que os dicionários registam o vocábulo «congeneridade»? Nunca a viram antes? Ei-la: «Uma escolha paradoxal, pois Salazar não nega só a congeneridade dos regimes estadonovista e mussoliniano, mas faz todo um rol de afirmações as quais, no seu conjunto, não abonam em absoluto o fascismo italiano» (Portugal e Itália: Relações Diplomáticas (1943-1974), Vera de Matos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 16). De «estado-novista» falámos aqui.

[Texto 2276]

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