Assim se exprimem

É o que temos

      «“Fazer novela.” “Ver novela.” “Produzir novela.” A gíria televisiva portuguesa acaba de ser injetada com expressões deste género: as telenovelas referidas no singular, sem artigo a precedê-las e desprovidas do prefixo “tele”. Produtores, atores, jornalistas — é um país inteiro, de repente, a falar à maneira brasileira. Eu ia dizer “a falar brasileiro”, mas travei-me a tempo: de facto, não é uma voragem sintática transatlântica, o que aqui está em causa — nem sequer os esperados primeiros sinais da definitiva brasileirização da língua portuguesa por via da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. É só mais um sinal de facilitismo, com a conivência dos jornais. É pena» («Um universo em mudança», Joel Neto, Diário de Notícias, 15.08.2012, p. 48).
[Texto 1973]

Como se fala na televisão

Directamente da Festa do Pontal

      Repórter Anselmo Crespo, no Jornal da Noite da SIC: «Não, Miguel Relvas não quer de todo falar com os jornalistas, sobretudo depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter sugerido esta semana que Pedro Passos Coelho deveria remodelá-lo numa eventual remodelação a fazer no futuro.» Remodelar, nesta particular acepção, é dar nova organização a, reestruturar. Estão a ver o demiurgo Passos Coelho a fazer isso a Relvas? Relvas, remodelado, só noutra encarnação.
[Texto 1972]

Cagaréus e ceboleiros

E dos obos móis

      «Para chegar à terra de cagaréus e ceboleiros o melhor é o comboio que permite ver logo à chegada a Estação da CP, edifício que em 1916 foi decorado com os azulejos que o tornaram um dos cartões de visita de Aveiro» («A cidade dos canais e dos doces e da arquitetura e...», Miguel Marujo, Diário de Notícias, 14.08.2012, p. 50).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «cagaréu» («designação dada aos pescadores da cidade portuguesa de Aveiro, especialmente aos nascidos na freguesia de Vera Cruz»), mas não regista a acepção de «ceboleiro». E devia, pois claro, porque quem fala em cagaréus não pode deixar de falar em ceboleiros. Proponho a seguinte redacção da acepção:

nome
regionalismo designação dada na cidade de Aveiro ao que se ocupava da cultura em quintais e nos campos

      Este dicionário aventa uma etimologia de cagaréu: de cagar + éu. E então, que adianta isto? Cagar ao léu? Cagaréu é o extremo da ré dos moliceiros e dos mercantéis, «naturalmente pela semelhança com as comuas de assento de tábua, havia-as, quando havia, nas aldeias marinhoas», informa Joaquim Lagoeiro na obra Português sem Mestre, Crónicas Linguísticas.
      Voltando a «ceboleiro». Vejo que a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista: «Ceboleiro, s. m. Alcunha que em Aveiro se dá aos moradores da freg. da Glória.»
[Texto 1971]

Plural de «foca-monge»

Monachus monachus

      Aquele era um dos locais de observação das — «focas-monge» ou «focas-monges»? Na Infopédia, é «focas-monges» que se lê, assim como na enciclopédia Portugal Moderno: Fauna (Lisboa: Editora Pomo, 1991, p. 187). Infelizmente, os dicionários não se querem comprometer, e a maioria não dá o plural dos vocábulos registados. Está mal. Pelo menos os que suscitam mais dúvidas deviam estar lá.
[Texto 1970]

«Esponja/espuma»

Só por escuma

      Que nome dão os meus caros leitores àquele material sintético, maleável e macio, usado no interior de colchões, almofadas, etc.? Espuma ou esponja? Toda a vida o designei e ouvi designar desta última forma, mas ultimamente vejo com frequência a primeira — que não está registada em quase nenhum dicionário, diga-se.
[Texto 1969]

«Creche/infantário»

Creche e aparece

      «Seja creche ou infantário», escreve o autor. Pergunto eu: não são sinónimos? Pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o chegamos a saber bem. Creche, que começou por ser o estabelecimento para asilo diurno de crianças pobres e já foi um galicismo bárbaro (mas hoje já ninguém fala disso), é o «estabelecimento de educação destinado a crianças com idades compreendidas entre os 3 meses e os 3 anos de idade». Perfeito. Agora só falta ter, de preferência no mesmo dicionário, uma definição de infantário tão precisa. Mas não: «estabelecimento que se ocupa de crianças em idade pré-escolar; jardim-escola; creche». Para mim, são sinónimos, mas dizem-me aqui, sem mais argumentos, como tantas vezes, que não.
[Texto 1968]

Plural: «tuque-tuques»

Plural e português

      Repórter Margarida Cruz no Telejornal de anteontem: «Do Oriente para as ruas de Lisboa há menos de um mês, os tuk-tuk já sabem como conquistar território luso» («Tuk-tuk em Lisboa»).
      Já que chegaram a Lisboa, não há nenhum motivo para, de pés bem assentes na terra, não aportuguesarmos a palavra: tuque-tuque. Já o plural é outra questão. Tudo leva a crer que é de origem onomatopeica. Logo, como nos substantivos compostos de palavras onomatopeicas só a última se pluraliza, fica tuque-tuques, à semelhança de reco-recos, roque-roques, tico-ticos, tique-tiques, toque-toques, etc. A propósito, também aqui a nossa sacrossanta ortografia apresenta incongruências, pois, igualmente onomatopeicas, temos zunzum, tiquetaque, frufru... Por sorte, os dicionaristas ainda não descobriram o tim-tim das taças nos brindes. É preciso tintins para aguentar tanto.
[Texto 1967]

Léxico: «gnómon»

Boa, Anaximandro (ou Anaxímenes...)

      «“Ainda bem que foi recuperado”, congratula-se ao DN Fernando Correia de Oliveira, um dos mentores do blogue Observatório dos Relógios Históricos, que, desde 2007, tinha vindo a chamar a atenção para a descaracterização do gnómon (o “ponteiro” de um relógio de sol) da Praça do Império» («Relógio de sol volta a funcionar... desregulado», Inês Banha, Diário de Notícias, 12.08.2012, p. 20).
      Gnómon é o ponteiro (mas sem aspas, Inês), sim, mas também, por metonímia, em que se toma a parte pelo todo, o próprio relógio de sol.
      Ah, não se sabe exactamente: ou foi Anaximandro ou o seu discípulo Anaxímenes de Mileto quem inventou o gnómon.
[Texto 1966]

Arquivo do blogue