Ses e entãos

Se, então

      «A interpretação dos resultados dos cenários deverá pois ser condicional, isto é: “se... então...”. Os “se” são as hipóteses e os “então” os resultados possíveis.» E porque não hão-de estar no plural as palavras assinaladas? «Os ses são as hipóteses e os entãos os resultados possíveis.»
      «O homem teve outros ‘mas entãos’ – e de fúria deixou cair os papéis no chão» (O Surrealismo em Portugal, Maria de Fátima Marinho. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987, p. 47).

[Texto 1957]

Zagrebe e Pionguiangue

Um carácter especial

      Não sei porque não é mais usada a grafia Zagrebe. Já é alguma coisa estar registada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Porto Editora. Que também regista, pois claro, Pionguiangue, a capital da República Popular Democrática da Coreia, vulgo Coreia do Norte. Se não são susceptíveis de ser aportuguesados, prefiro então manter a grafia original mais usada, ainda que obrigue a usar caracteres (singular: carácter) especiais: Međugorje, por exemplo.
[Texto 1956]

«Autocarros expressos»

Não percebo a dúvida

      «Junto da comunidade portuguesa mais abastada, conseguimos então um emprego para o filho mais novo numa empresa de autocarros expressoExpresso, o comboio ou camioneta que vai do local de partida ao de chegada sem fazer paragens, é substantivo e adjectivo. Como adjectivo, concorda com o nome que qualifica: autocarros expressos.
[Texto 1955]

«Devido a»

Um devido indevido

      «Na década de 90, milhares de pessoas morreram no país devido à fome, como indicam várias organizações não governamentais» («Ri Sol-Ju exibe mala Dior num país com fome», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 16).
      «Que faria ele em Leiria? Leiria era ao pé de Fátima. “Continua a rondar os milagres”, pensou. Nesse ano, morreram de fome na União Soviética cinco milhões e meio de pessoas» (Café República, Álvaro Guerra. Lisboa: BIS/Leya, 2010, p. 144).
[Texto 1954]

Plural: «wons»

Naturalmente

      «De acordo com o jornal Joong Ang Ilbo, da Coreia do Sul, este modelo da Dior está à venda em Seul por 1,8 milhões de won (1289 euros), um valor aproximado do rendimento anual de um norte-coreano» («Ri Sol-Ju exibe mala Dior num país com fome», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 16).
      Mas o Vocabulário Ortográfico Português e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, indicam como plural «wons».
[Texto 1953]

«Promenades» na Madeira

Não resistem

      «Fonte ligada ao processo explicou à agência Lusa que a perseguição começou com a denúncia, na esquadra de Machico, de que um condutor “estaria a subir e a descer escadas na promenade” local» («Condutor em fuga destrói carros da PSP», Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 16).
      Não sabia que na Madeira também havia promenades... Claro que o jornalistas não podia perder uma oportunidade de usar uma palavra estrangeira — sobretudo se desnecessária.
[Texto 1952]

Sobre «mandatório»

É indispensável?

      «É o procedimento mandatório, assegura o psiquiatra Daniel Sampaio» («Menino violado deve ter apoio por seis meses», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 16).
      Tem de ter sempre um pezinho no inglês. Qual a necessidade de usar a palavra «mandatório» quando temos outras que dizem o mesmo, mas em bom português? Uma aposta em como a mãe da criança não vai compreender quando ler a notícia? Não passava o exame Vieira — que devia ser mandatório obrigatório fazer em voz alta.
[Texto 1951]

Plural: «papos-secos»

É o que se ouve

      Em parte, temos de o admitir, a jornalista tem razão: o que ouvimos é «papo-secos». Mas é assim que se fala, a mascar e a engolir fonemas. No caso, o encontro de dois ss de sílabas diferentes tinha de dar nisto.
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora garante que «papo-seco» é popular. Amílcar Ferreira de Castro, em A Gíria dos Estudantes de Coimbra, afirma que «em Lisboa costuma chamar-se aos pães pequenos “papos-secos”. Esta designação é dada também aos janotas, pelo que pãozinho veio provàvelmente a ter o mesmo sentido» (p. 91). Até agora, quase só ouvi a palavra no Alentejo e muito pouco em Lisboa.
      «O Pedro continuava, mais mais, agora os poemas do novo livro, já em provas, poemas que estalavam, novinhos em folha, moletes, papos-secos, pães a quebrar a crosta, vivinhos da costa, polidos na teta da origem» (O Mundo à Minha Procura, vol. 3, Rúben A. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1968, p. 14).

[Texto 1950]

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