Plural de «puro-sangue»

A doutrina divide-se

      «Atenta a esta questão, a comissão defende que, numa primeira fase, “a restruturação desta atividade tem de ser suportada financeiramente pelas receitas provenientes das apostas online nas corridas de cavalos, de molde a permitir desenvolver, nomeadamente, a criação de cavalos puro-sangue, a construção de hipódromos e a formação de jóqueis”» («Apostas hípicas são mesmo para avançar sob tutela da Santa Casa», Marina Marques, Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 7).
      O Dicionário Houaiss regista, tanto para o adjectivo como para o substantivo, o plural «puros-sangues», e o mesmo faz o Vocabulário Ortográfico Português. Ou, porque se trata de um adjectivo composto por justaposição e o último elemento é um nome, na pluralização permanecem ambos invariáveis? A doutrina, como se costuma dizer em Direito, divide-se, mas já o dissemos muitas vezes: a língua portuguesa tende para a concordância.
[Texto 1883]

É fazer a conta

Ai querem ser minuciosos?

      «Mas Lupe Ontiveros não correspondia ao estereótipo: era bacharel em Psicologia, pela Universidade do Texas, e chegou a trabalhar como assistente social antes de enveredar pela representação» («A atriz que foi a eterna criada latina mas que era muito mais», Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 43).
      Então se vamos descer a esses pormenores, está bem: era bacharel em Psicologia, mas não pela Universidade do Texas. Há muitas universidades no Texas. A actriz Lupe Ontiveros estudou na Texas Woman’s University, em Denton. E, por outro lado, tendo a actriz trabalhado quinze anos como assistente social, eu não teria escrito que «chegou a trabalhar como assistente social». Quinze anos equivale a um terço do tempo que a maioria das pessoas dedica à profissão.
[Texto 1882]

Léxico: «estado-novista»

A todos os interessados

      Ia jurar que já uma vez tinha lido num dicionário «guterrismo», mas consultei agora vários, e dos mais atreitos a tais proezas, e não o encontrei. Como também não encontrei «cavaquismo», valha a verdade. Só encontrei «gonçalvismo» (e o homem merece?). Tudo isto a propósito de um adjectivo que acabei de encontrar: «estado-novista». Também deste não há rasto. Há dois anos, uma assistente editorial perguntou ao Ciberdúvidas como era correcto, se com hífen ou sem hífen. (Pergunta infeliz, mas que querem?) A consultora começou por responder: «Não encontrámos registo, nos dicionários que consultámos, de nenhum adjectivo formado a partir de Estado Novo.» Ora que grande novidade. E depois: «De qualquer modo, na medida em que o sistema morfológico português permite formas (que nem sempre os falantes aceitam, e vice-versa), o adjectivo estado-novista poderá ser encarado como um neologismo, razão pela qual é aconselhável que essa particularidade seja referida, sempre que a consulente o utilizar, uma vez que não está atestado pelos dicionários nem pelos vocabulários ortográficos de língua portuguesa (por exemplo, os realizados a partir dos acordos de 1945 e o de 1990.» Estão a ver: usa-se e, antes ou depois: atenção, esta palavra não está registada em nenhum dicionário. Depois não digam que não avisei. Ridículo.
[Texto 1861]

Quantos continentes

Sabe-se lá

      Ontem, às 14h30, um Boeing 777 da Emirates aterrou em Portugal, «com direito a baptismo de voo», ouvi no Telejornal. Tiago Simões, antigo piloto da TAP e agora naquela companhia aérea, declarou à chegada (no português possível, digamos): «É um desafio bastante grande e bastante interessante de poder voar para seis continentes e para uma quantidade de destinos e com uma diversidade de nacionalidades no cockpit e na cabine.»
      Não sei se foi a minha professora da escola primária que nos poupou a esta controvérsia frustrante sobre o número de continentes ou se, como é mais provável, ela a desconhecia. É impressionante como até sobre esta questão há opiniões desencontradas. São cinco, propugnam uns; são seis, afirmam outros; nada disso, são sete, defendem outros. Da mesma forma, temos de estar atentos à despromoção de planetas.
      E quanto ao «baptismo de voo», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece o que seja. Regista, isso sim, «baptismo do ar»: primeira viagem aérea de uma pessoa. De uma pessoa, não do próprio avião.
[Texto 1799]

«Ser necessário»

É preciso saber

      Nuno Crato, ministro da Educação, ontem no Telejornal: «Nós estamos a trabalhar para o estabelecimento de metas que ajudem os professores, os alunos, os pais, os autores de manuais, os autores de exames a ter muito mais claro quais são os objectivos que em cada ano são necessários atingir.»
      Nas locuções ser necessário e ser preciso, o predicativo, como se sabe, pode não concordar com o sujeito, e é mesmo, hoje em dia, o mais habitual. A concordância do verbo e do predicativo com o sujeito encontra-se com frequência em autores clássicos. É conhecida a frase do padre António Vieira para o ilustrar: «Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho» (Sermão da Sexagésima). A frase do ministro está, pois, errada, já que o sujeito é um verbo no infinito, «atingir».

[Texto 1798]

«Victrola/vitrola»

É preciso distinguir

      Traduzir «Victrola» por «vitrola» pode não ser a melhor solução. Alguns dicionários da língua portuguesa registam o substantivo «vitrola», mas acrescentam que é brasileirismo. Conhecemos muitos outros casos em que um nome comercial é apropriado como nome comum. Neste caso específico, isso não se passou assim em Portugal. Pela proximidade geográfica do Brasil, terá chegado lá em quantidades que justificam e explicam a derivação. Em alguns casos, «Victrola» pode referir-se precisamente a um gira-discos daquela marca, produto da norte-americana Victor Talking Machine Company.

[Texto 1797]

Tradução: «formulaic»

Fórmulas

      «Aside from the frequent formulaic complex sentences beginning with…» Lembram-se, decerto, que uma vez, a propósito do uso do vocábulo «formulaico» por Vasco Pulido Valente numa crónica, tratei desta questão (aqui), de como traduzir o termo. Agora vejo aqui «formulaic complex sentences» vertido por «frases feitas».
[Texto 1796]

Léxico: «hipotáctico»

Está explicado

      Paratáctico está para parataxe como _______ está para hipotaxe. O espaço em branco — e os erros, das poucas vezes que se escreve sobre assuntos que requeiram o vocábulo — é culpa dos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «paratáctico», mas omite «hipotáctico», que encontramos, por exemplo, na página 534 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. (Claro que constar do Aulete sem c contribui muito para o panorama. Neste caso, mais valia terem consultado o dicionário da Real Academia Galega.)
[Texto 1795]

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