Outro grande modismo

Quem quiser, use

      «Com espanto, o alemão percebeu que os oficiais inimigos, apesar de graduados em coronéis, comandando regimentos em batalha, não se sentiam confortáveis com mapas» («Os coronéis de Tannenberg», Viriato Soromenho-Marques, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 11).
      «Não se sentiam confortáveis com mapas»... Como quem diz, um sem-abrigo confortável com os jornais com que se protege do relento. Também digo: não uso. Nunca me fez falta.

[Texto 1794]

O absoluto desmazelo II

Ou se se importam, não parece

      «Foi a 16 de março de 2009 que José Gregório dos Santos foi submetio a uma intervenção cirúrgica ao joelho, mais conccretamente, seguno o despacho de acusaão da secção do DIAP de Lisboa, uma “meniscectomia parcial artroscópia, realizada sob anestesia epidural”. A administração da anestesia provocou em José Gregório dos Santos uma “lesão iatrogénica”» («Morte de doente em operação ao joelho vai a tribunal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 18).

[Texto 1793]

Tradução: «publisher»

Já souberam

      «“Somos um país pequenito”, concorda Fernanda Dias, prosseguindo: “Temos menos famosos, com menos histórias” Para a publisher e diretora da revista Caras, para lá da quantidade de personalidades em Espanha, existe a monarquia que, por si só, “dá pano para mangas”» («‘Jet Set’ a sério e tom agressivo ditam êxito em Espanha», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 50).
      Eles sabem que há uma palavra em português para designar o mesmo, mas esqueceram-se dela (como se pode ver aqui). E jet set com maiúsculas iniciais é o respeito absoluto.

[Texto 1792]

O absoluto desmazelo

Ninguém se importa, ao que parece


      «Um labitinto feito de pereiras, ameixeiras, maceeiras e oliveiras. [...] O projeto funciona como uma espécie de aldeia praticamente autosuficiente, com serviços necessários para a subsistência dos seus quase 400 habitantes. [...] Uma queijaria e um fumeiro são alguns dos projetos a curto prazo, que vão contar com o apoio da EDP. O parque tem ainda planos para a construção de um hospital, assim como a preparação da candidatura do Hotel Quinta da Paiva, uma maneira de tornar o projeto economicamente autosuficiente» («Prémio para ‘aldeia’ que integra deficientes», Mariana Barbosa, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 17).
      Palavras para quê, não é? É o moderno Diário de Notícias. De escola de revisores para isto que agora vemos todos os dias. Todos.
[Texto 1791]

«Precursor/percursor»

Politicamente correcto

      «As primeiras mulheres a andar de bicicleta foram vistas como percursoras do movimento de emancipação feminina e chocaram uma sociedade conservadora. “Nos finais do século XIX, quando começaram a andar de bicicleta, as mulheres usavam espartilhos e saias compridas. A ideia de abrirem as pernas e se sentarem no selim chocava as pessoas. Os homens achavam que não era apropriado”, conta Maria Filomena Mónica, historiadora e socióloga» («A idade não é obstáculo para elas aprenderem a pedalar», Joana Capucho, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 16).
      É uma política antidiscriminatória: não querem distinguir entre quem vai à frente e quem simplesmente vai. Ah, sim, e também ignoram a ortografia. Tencionava sugerir-lhes uma mnemónica, mas vou antes recomendar-lhes que tenham respeito aos leitores.
[Texto 1790]

«As mesmas», «o mesmo»...

Evitem isso

      «Durante o período em que esteve com dores, José Gregório dos santos [sic] queixou-se das mesmas à enfermeira de serviço, que contactou o médico. António O. observou o doente e, de acordo com a acusação do DIAP de Lisboa, “determinou” que o mesmo “se deveria levantar para um cadeirão e ali repousar por momentos”. Neste momento, a 17 de março de 2009, o médico não determinou a realização de uma TAC» («Morte de doente em operação ao joelho vai a tribunal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 18).
      «Das mesmas» — grande bordão da actualidade — faz tanta falta na frase como uma viola num enterro. E, como que a demonstrá-lo cabalmente, a sua eliminação muitas vezes nem sequer implica a reescrita da frase. Pensem nisso.

[Texto 1789]

«Hash/haxe»

Não precisamos disso

      Ele depois reconheceu, lá no cantinho da redacção, que tinha andado a fumar muito hash... Já estamos no ar?! Estou farto de ver assim escrito em todo o lado. Mas porque não escrever sempre «haxe»? Terá sido Álvaro Guerra, na década de 1970, o primeiro a usar numa obra sua o vocábulo «haxe»? Os historiadores da língua que o digam.
[Texto 1788]

«Zona de guerra»

Rangeres de dentes

      «O mercado de operações de alto risco em cenários de conflito armado está a ser procurado por jovens que acabam contratos militares em forças especiais portuguesas. Exemplo disso é o facto de 20 ex-operacionais rangers, que tiveram formação no Centro de Tropas de Operações Especiais de Lamego, estarem, neste momento, a obter certificação para conseguirem trabalhar na área em que morrer faz parte do trabalho» («Ex-militares portugueses recrutados para zonas de guerra», Luís Fontes, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 20).
      Ora, muito nos surpreende, porque os jornalistas gostam muito da expressão war theater, perdão, teatro de guerra. Mas levamos com os rangers.

[Texto 1787] 

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