Desgraçado verbo «entreter»

Grande tourada

      Sérgio Sousa Pinto, deputado do PS, esta tarde no Parlamento: «A única coisa que me perturba é que tratando-se a tourada de uma tradição milenar não se insinua no espírito dos deputados do Bloco de Esquerda e dos Verdes a mais pequena dúvida. Para eles, é manifesto que a tourada, exercício milenar, é um desporto que ocupou e entreteu selvagens e bárbaros durante centenas de anos.»
      «E por desfastio, como quem devaneia ao acaso, entreteve-se com estas invenções mais ou menos estapafúrdias: transformou a cabeça em esfera armilar, fez crescer asas de borboletas nas orelhas, enfeitou os dedos de bandeirinhas, etc., etc.» (As Aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira. Lisboa: BIS/Leya, 2011, 3.ª ed., p. 60).
[Texto 1762]

Tudo italiano

Já é descuido

      «O dono da escudaria italiana respondeu que sim, senhor, mas para isso o dono da Ferrari teria de deslocar-se a Turim, à Pininfarina. Foi preciso a intervenção de Sergio Pininfarina para o impasse se resolver: um encontro em terreno neutro, num restaurante em Tortona, a meio caminho entre Modena (Ferrari) e Turin (Pininfarina). E a ligação entre as duas casas italianas durou até hoje» («Mundo automóvel diz adeus ao pai do ‘design’», Ana Marcela, Diário de Notícias, 4.07.2012, p. 32).
      Ana Marcela não nos lê — e não deve ter pena. Só nós, leitores do Diário de Notícias, é que o lamentamos. E donde vem aquele a de «escudaria»? Do étimo — scuderia — não é de certeza. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «escuderia». Vimos aqui que se escreve Módena. «Turin» só no desleixo encontra explicação.
[Texto 1761]

«De resto»

Atirado ao muladar

      Já aqui agitou um pouco os ânimos: «— De resto — Eis aí uma locução que se atirou para o muladar das coisas inúteis por cheirar a francês. Mas milheiros de exemplos clássicos há que a absolvem da pecha que lhe assacam. Vou citar dois apenas e de mestres de polpa, que valem por todos os demais: “De resto, a agitação é sinal de vida”. (Machado de Assis: A Semana, 181). — “De resto, é uma circunstância esta pouco importante”. (Castilho: Obras, 55.º, 130)» (Canhenho de Português, P. José F. Stringari. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 65).
[Texto 1760]

«Gigaelectrãovolt»?

Agora é tudo pegadinho?

      «Os dados de dezembro da ATLAS e CMS mostraram pela primeira vez “um excesso de eventos” nas colisões de partículas realizadas a níveis de energia da ordem dos 126 gigaelectrãovolt (GeV) – a ATLAS – e 124 GeV (a CMS), o que poderia ser um sinal da presença do bosão Higgs naquelas zona de energia. [...] Nos últimos meses de trabalho, desde então, as equipas das duas experiências conseguiram duplicar os dados de dezembro, e a energia das colisões passou de 7 TeV (teraeletrãovolt) para 8 Tev» («O ‘dia D’ da ‘partícula de Deus’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 4.07.2012, p. 27).
      Deve haver alguma convicção da jornalista nisto, pois mais abaixo, num texto de apoio, lê-se: «É no Large Hadron Collider (LHC), que faz colidir protões (partículas que integram o núcleo dos átomos) a um nível de energia nunca antes atingido por uma máquina na Terra – 7 teraelectrãovolt (TeV) no ano passado, e 8 TeV já este ano –, que os físicos tentam descortinar o famoso bosão, que foi previsto em 1964 pelo físico Peter Higgs, que hoje estará presente na conferência no CERN.»
[Texto 1759]

Para maior confusão

Nem todos os santinhos

      E por Vaticano, lembrei-me do programa Quinta Essência, de João Almeida, que ontem de manhã ouvi durante escassos minutos. O entrevistado era Alberto Júlio Silva, autor de Os Nossos Santos e Beatos e Outros Que Portugal Adotou. «Se calhar», disse João Almeida, «[o povo] é humilde e sabe que não tem via directa para Deus, então pede a intercepção, pede um intermediário [...].» Agora, sim, agora é que são elas: interceção, intercepção, intercessão, intersecção, interseção... No caso vertente, impropriamente se diria que é conhecimento de outiva, porquanto o que mais falta é ouvido.
[Texto 1599]

«Colocar na linha»!

Não é abençoado

      «A sua nomeação tinha também como objectivo colocar o IOR na linha, depois das polémicas das últimas décadas e de modo a que o próprio Vaticano colaborasse com as autoridades financeiras internacionais na luta contra a lavagem de dinheiro» («Ettore Gotti Tedeschi», António Marujo, Público, 27.05.2012, p. 27).
      Não se dirá de outra forma no futuro: «colocar na linha». Em «de modo a que» é que faz falta uma tesourada. De modo que, de maneira que, de sorte que, de feição que fique uma obra mais ou menos asseada.
[Texto 1598]

Redija-se outra definição

Porcofobia e jemão

       O laboratório do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) aliou-se à indústria local (o pior é o nome: Bísaro Salsicharia!) para tentar produzir presuntos de cabra e de ovelha, que são menos gordos e mais proteicos do que os presuntos de porco. O projecto está ainda em fase de testes e os produtos destinam-se, ao que parece, a conquistar clientes árabes. Com isto, lá se vai a definição de presunto: «membro posterior do porco, depois de salgado, curado e seco». O termo «presunto» vem do latim perexutus, privado de todo o líquido. Dantes dizia-se, pelo menos no Alentejo, «jemão», sabiam? Há até o provérbio — Quem come presunto, come jemão. Os dicionários modernos perderam este verbete.
[Texto 1546]

Léxico: «cantonamento»

Tomem lá esta

      «Segundo o DN soube, no local onde, cerca das 13.55, o choque aconteceu existe uma curva que também terá dificultado a visão do maquinista. “Como vinha de um sinal de cantonamento, que apesar de estar fechado tinha um “P” branco em fundo azul, dizem as regras que deveria circular até aos 30 quilómetros/hora e pelos dados já conhecidos ele estaria a cumprir essa regra”, avançou a fonte» («Maquinistas da Linha de Cascais não comunicam», Carlos Diogo Santos, Diário de Notícias, 4.05.2012, p. 21).
       Esta não está em nenhum dicionário, nem no mais arteiro. Num léxico de termos ferroviários da página da Refer, lá está: «Sistema de controlo da distância de separação entre comboios, dividindo a linha-férrea em secções que, normalmente, não consintam mais do que um comboio em cada secção. Um cantão pode ser fixo ou móvel.»
[Texto 1467]

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