Verbo «inaugurar»

Nem pensar


      «Inaugurou no passado dia 14 a segunda edição da Trienal de Arquitectura, que se estende até 16 de Janeiro, por diversos pontos de Lisboa — os museus Berardo, da Electricidade e do Chiado — e a Casa das Histórias de Paula Rego, em Cascais, e conta com exposições, workshops e uma conferência internacional» («Falemos de casas», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 17.10.2010, p. 66).
      Inaugurou — quem? Querem ver que foi a Trienal de Arquitectura que se inaugurou a si mesma? Enquanto o mundo for mundo e se falar português, a Trienal de Arquitectura foi inaugurada. Esta forma de escrever foi inaugurada, e agora é seguida, por jornalistas com um deficientíssimo conhecimento da língua.

[Post 4069]

Ortografia

Estoiro ortográfico


      «No calão policial americano, chama-se “inside job” a um roubo ou crime perpetrado “de dentro”, por pessoas que trabalhavam no local onde se deu o delito. Charles Ferguson não podia ter achado um melhor título do que Inside Job para o seu documentário sobre a crise financeira global (em português: A Verdade da Crise), que se estreia hoje em Portugal, já que os responsáveis pela mesma estão situados no coração da finança internacional» («Tudo o que queria saber sobre o estoiro financeiro», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 45).
      Ficamos a conhecer um pouco mais — da gíria policial, caro Eurico de Barros. E agora os atropelos à ortografia: «O filme tem também os seus “heróis”, na pessoa de alguns daqueles que previram o que ia acontecer e foram ignorados, criticados ou até troçados pelos seus pares. É o caso de Raghuram Rajan, que em 2005, quando estava no FMI, escreveu um estudo sobre o meltdown financeiro que se deu em 2008, perfeitamente evitável, segundo ele (e Ferguson). O cocktail de irresponsabilidade estatal, ganância, crédito à tripa-forra, práticas anti-éticas e falta de prudência e do mais elementar bom-senso, resultou na crise que nos cerca por todos os lados. Charles Ferguson puxa pelos seus galões de especialista em política e de antigo empresário de sucesso para se defender da acusação de “anti-capitalista” que lhe chegou a ser feita por causa de A Verdade da Crise: “Não sou anti-capitalista nem anti-negócios. Sou, no entanto, contra a criminalidade em grande escala.”» (Sim, eu sei que alguns dicionários registam «à tripa-forra» e «bom-senso».)

[Post 4068]

«Nerd», «geek» e «jock»

Marrões, cromos e populares


      A propósito do filme A Rede Social, de David Fincher, Pedro Lomba tenta encontrar alguns termos portugueses equivalentes a outros ingleses: «Nerds, geeks e jocks. Faltam-nos palavras em português para descrever estas tribos juvenis, estas contraculturas. Lembramo-nos delas do liceu através de outras definições (os nerds eram os marrões, os geeks eram os cromos, os jocks os rapazes populares com queda para o desporto, que também arrebanhavam as mais giras da turma). A grande bipolaridade dos nossos tempos escolares separava quem fosse e não fosse popular. Os nerds tinham borbulhas e boas notas, os geeks gostavam de ficção científica e eram tecnologicamente evoluídos. Há milhentas maneiras de preencher o estereótipo. Podia ser-se ao mesmo tempo um nerd e um geek» («Anti-geek», Pedro Lomba, Público, 11.11.2010, p. 40).
      É uma tentativa de encontrar uma equivalência. Chamo a atenção dos meus leitores para a bipolaridade de «quem fosse e não fosse popular»... Estes também são «doentes psiquiátricos».

[Post 4067]

«Andar ao rabisco»

Rabisco da casta Ramisco


      «Anteontem, o Senhor Saraiva contou-nos que, quando era miúdo, há mais de 70 anos, ele e os amigos iam à cata das uvas Ramisco, de chão de areia, que as vindimas tinham esquecido. Nessa altura não havia pinheiros nem casas e as vinhas iam até à Praia Grande — havia por onde procurar. Felizes da vida, levavam os cachos abarbatados às mães. Chamavam eles a estas uvas as uvas “rabisco”: como está um gatafunho para a pintura acabada, assim está a uva Ramisco que vai fazer doce para aquela que vai fazer o vinho mais fino de Portugal, que é o Ramisco de Colares» («O rabisco», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.11.2010, p. 39).
      Escrito assim, até parece que os rapazes eram uns ignorantes relapsos. Contudo, como andar ao rabisco (ou ao rebusco, como se diz nas Beiras, por exemplo) é percorrer áreas extensas para apanhar o que ficou esquecido na colheita de uvas, de castanhas, etc., parece-me que a semelhança fonética só serve para o Sr. Saraiva gracejar e cativar os clientes cultos.

[Post 4066]

Como se escreve nos jornais

Coloque-se na rua!


      Rui Tavares queixava-se aqui ontem de que no Público não lhe revêem os textos. Melhor, mais cuidadoso: «Parece-me que os textos não são revistos, ou quando são a revisão não é feita de acordo com as novas regras». Como é que iam preocupar-se com isso se deixam passar brutezas como esta: «Oliveira Costa colocado em liberdade e BPN ainda com resultados negativos» (11.11.2010, p. 22). Bem vejo: «Lusa/PÚBLICO». A acrescentar aos disparates próprios, os jornais deixam passar os disparates que vêm da Lusa. Um dos mais comuns, ultimamente, é o vocábulo «auto-estrada» grafado segundo as novas regras ortográficas em jornais que ainda as não seguem: «A GNR tem feito várias operações de forma a dissuadir concentrações de carros alterados, cujos condutores escolhem a A2 para corridas ilegais. Mas parte dos locais de concentração são na área de competência da PSP, o “que dificulta o trabalho da GNR, que tem sob sua competência a Ponte Vasco da Gama e a autoestrada do Sul”, diz a mesma fonte da GNR» («GNR procura filme de corrida que matou condutor na A2», Sónia Simões, Diário de Notícias, 31.10.2010, p. 27).

[Post 4065]

Ensino

Preocupem-se

      «Quatro em cada dez alunos do 6.º ano não foram além de duas respostas totalmente correctas em nove no domínio do Conhecimento Explícito da Língua na prova de aferição de Português, o que fica “aquém do desejável”», noticia hoje o Público. E mais: «Segundo o relatório nacional do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação sobre a prova do 6.º ano, ontem divulgado, 42 por cento dos alunos tiveram um máximo de duas respostas totalmente certas e 10 por cento não tiveram qualquer resposta integralmente certa. “Os alunos evidenciam um bom desempenho ao nível da Compreensão da Leitura e da Expressão Escrita, mas permanecem aquém de que é desejável no que respeita ao Conhecimento Explícito da Língua”, lê-se no relatório. Desagregando os dados, 38 por cento por cento dos alunos obtiveram uma classificação correspondente a “Não Satisfaz”» («Maus resultados na prova de aferição de Português», 10.11.2010, p. 9).
      O conhecimento explícito da língua é o conhecimento reflectido e sistematizado das unidades, regras e processos gramaticais da língua (ver mais aqui). Se os alunos são maus nisto, quer dizer que detêm somente um conhecimento implícito da língua — não se distinguindo assim muito de analfabetos.

[Post 4064]

Acordo Ortográfico

A trapalhada continua


      Rui Tavares lá continua no bastião inimigo a usar como sabe e quer as novas regras ortográficas: «Se no Financial Times de anteontem vinha Portugal na capa, no de ontem vinha Angela Merkel, que dizia estar preocupada com o proteccionismo. Na fotografia, a chanceler alemã parece (como sempre) uma morsa: sonolenta mas capaz de nos triturar» («A morsa e o carpinteiro», Público, 10.11.2010, p. 44). E ainda nos lança para cima mais um «proteccionismo» e um «proteccionista». Contudo, com o novo acordo ortográfico, é «protecionismo» e «protecionista» que se escreverá.

[Post 4063]

Ortografia: «solstício»

Jogo?


      O título do artigo é «A Porta da Kasbah», e o subtítulo, que surge no índice e na página 18, é «Aquém daqueles dias do Sulstício». É da autoria do sargento-ajudante António José Rodrigues e foi publicado na última edição do Jornal do Exército (ano LI, n.º 598, Agosto/Setembro de 2010). Sim, senhor, há por aí uns poetas que também usaram esta palavra forjada, um jogo entre «Sul» e «solstício». No Algarve (neste caso, o sítio certo) há mesmo uma revista com este título. Só pode ser, pela referência temporal («aquém daqueles dias»), erro, e erro crassíssimo. E não pensem que esta publicação não tem revisão ou que é feita por um recruta semianalfabeto. Não: quase no rodapé da página do sumário, lê-se: «Revisão de texto a cargo do Professor Doutor Eurico Gomes Dias». Nem mais.

[Post 4062]

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