«Liceu», um vocábulo perene

Lyceu Camões


      Relacionado com o que afirmei aqui, eis mais um exemplo de como as antigas designações teimam — mesmo na escrita de profissionais — em persistir. Há quantos anos não há liceus? Há tantos que os dicionários já tiveram tempo de se actualizar e registar que se trata de um vocábulo «antiquado» (como regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Pois vejam este exemplo: «Mas a onda que então começou ainda está longe de rebentar. Pedro [Feijó] é hoje presidente da Associação de Estudantes do Liceu Camões e não exclui dar mais um passo: conquistar um assento no Conselho Nacional de Educação, como representante de todos os alunos do Ensino Secundário» («Juventude inquieta», Christiana Martins, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 38). E não pensem que foi caso único: ao longo da reportagem, a jornalista escreveu sempre «liceu».

[Post 3169]

Ortografia: «trotsquista»

Abaixo o capa!


      «O irmão de Christopher Hitchens chama-se Peter Hitchens e é um reaccionário-robô, sem imaginação ou esperança, que escreve estúpidas profecias apocalípticas no Daily Mail. Christopher é amaldiçoado pela esquerda trotsquista que o formou por ter ideias malquistas sobre as benquerenças ideológicas da esquerda sobre o Islão, o Irão e a invasão do Iraque» («Dois irmãos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.2.2010, p. 33).
      É reconfortante ver Miguel Esteves Cardoso renunciar ao uso da letra capa. Temos tempo de usá-la quando adoptarmos o Acordo Ortográfico de 1990.

[Post 3168]

Léxico: «endoprótese»

Porquê?


      «O seu cardiologista, Allan Schwartz, afirmou que Clinton “está animado”, depois de ter sido submetido a uma intervenção na qual lhe forma introduzidas [sic] dois stents (tubos ou endopróteses) para abrir a artéria e manter o fluxo sanguíneo» («Clinton operado de novo com êxito», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 13.2.2010, p. 34).
      Se os dicionários registam outras –teses, não sei porque ignoram esta, que é o nome que se dá à prótese colocada no interior do organismo, de modo geral para substituir definitivamente um segmento de osso, de vaso, uma válvula cardíaca, etc.

[Post 3167]

Léxico: «ortoréxico»

Comida correcta


      «Na verdade, não há povo que se preocupe mais com as consequências dos alimentos ao nível da saúde do que nós, os Americanos — e nenhum povo sofre mais de doenças relacionadas com a dieta alimentar. Estamos a tornar-nos numa nação de ortoréxicos: pessoas com uma obsessão doentia pela alimentação saudável» (Em Defesa da Comida, Michael Pollan. Tradução de Sónia Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 20).
      Não conhecia o vocábulo ortoréxico, o que não é muito de surpreender, pois, de acordo com uma nota de rodapé, o «termo foi usado pela primeira vez em 1996 pelo médico americano Steven Bratman», e não deve circular muito por aí. 


[Post 3166]

Léxico: «areola»

Mais um esquecimento


      «A retirada das referidas construções pode ter reduzido a impermeabilização num subsolo de areolas por onde se infiltram facilmente as águas das chuvas que rolam colina abaixo» («Infiltrações ameaçam lojas do Chiado», Carla Tomás, Expresso, 6.2.2010, p. 24).
      Nem todos os dicionários — a versão electrónica do Dicionário Houaiss e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por exemplo — registam o termo. Ficaram-se pela aréola. Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, areola é o «solo constituído por areia média e fina, silte e argila, em proporções variáveis, mas com predominância de areia fina e silte».

[Post 3165]

«Para o bem e para o mal»

A bem da língua


      «O director da empresa israelita de alta tecnologia Radcom, Adar Eyal, acredita que isto tem muito que ver com a falta de hierarquia reinante na sociedade israelita. “Quando levo estrangeiros a bases militares, ficam atónitos ao ver soldados e generais tratarem-se por tu e servindo-se café, sem distinção de patentes. Em muitos aspectos continuamos a ser uma espécie de kibbutz, para o bom e para o mau, e isso também se nota nas start ups”» («A terra prometida das tecnologias electrónicas», Henrique Cymerman, Expresso, 6.2.2010, p. 30).
      Então a expressão não é «para o bem e para o mal»? For better or for worse? E a famosa revisão do Expresso, onde estava?

[Post 3164]

«Girl Guides» e «Brownies»

Guidismo português


      O original falava em Girl Guides e Brownies, e o tradutor optou por deixar em inglês. A mim, contudo, não me pareceu uma dificuldade inultrapassável. No Reino Unido, o movimento escutista feminino nasceu por iniciativa de um grupo de raparigas que em 1909 se fardou como os rapazes e apareceu de surpresa numa concentração no Palácio de Cristal de Londres, organizada pelos escuteiros, proclamando-se raparigas escuteiras. Baden-Powell limitou-se a apadrinhar a iniciativa. Nasciam assim as Guias, que também estão em Portugal desde a década de 1920. No Reino Unido, as Brownies são guias que têm entre 7 e 10 anos. Em Portugal, às guias que têm entre 6 e 10 anos dá-se o nome de Avezinhas.

[Post 3163]

Anglicismos

Voltar a andar nos carris


      É do Brasil que costumam vir notícias mais caricatas sobre o uso de estrangeirismos. Desta vez, porém, não é de lá que nos chegam as notícias nem se trata da língua portuguesa. É a seriíssima Deutsche Bahn, a companhia de caminhos-de-ferro alemã, que anunciou, em resposta às críticas de que era alvo, que vai deixar de usar tantos anglicismos na publicidade e nos diversos suportes que usa. Assim, para começar, vocábulos como hotline, flyer, counter serão substituídos, enquanto outros, como call-a-bike, por exemplo, serão explicados em alemão. Recentemente, o ministro dos Transportes alemão, Peter Ramsauer, já tinha proibido o recurso a anglicismos no ministério que dirige, e nomeadamente expressões como task force, travel management e inhouse meeting (leia aqui, caro Francisco). O exemplo a vir de cima. Estão fartos do Denglisch. Cá, achar-se-ia ridículo e objectar-se-ia que há assuntos mais importantes. E há...

[Post 3162]

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