Antes minúsculas

Não merece tanto

      «A audiência, formalmente chamada Conferência de Interessados, durou mais de duas horas e foi conclusiva: Marisa Cruz e João Pinto saíram já divorciados do tribunal e com as responsabilidades parentais para com os dois filhos em comum — Diogo, de 4 anos, e João, de 8 — decididas por acordo entre os pais e homologado por sentença» («João Pinto e Marisa Cruz estão divorciados», Sara Oliveira, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 53).
      Nem a lei lhe dá a honra das maiúsculas — e, se desse, não era razão bastante para fazermos o mesmo.

[Texto 3518]

Tradução: «percutant»

Fere, e muito

      «O mais interessante, [sic!] é o debate entre o jornalista iconoclasta Jean-François Kahn e Marcel Gauchet, sem dúvida alguma hoje o pensador francês com um olhar mais percutante sobre as transformações da política contemporânea, tanto em termos franceses como globais» («A lição francesa», Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 55).
      Será tudo verdade — ou não, porque se trata apenas de uma opinião, mas «percutante» não é português. É francês. Em português, o que percute ou fere é percuciente.
[Texto 3517]

«Coloração rosa intensa»

Dúvidas persistentes

      «A licitação da pedra preciosa, de forma oval e com uma coloração rosa intenso (ver foto), durou apenas cinco minutos, num despique entre potenciais compradores e com o futuro proprietário na sala a manter-se no anonimato» («Diamante rosa ‘vale’ 55,1 milhões de euros», Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 56).
      Então, o adjectivo «intenso» está a qualificar que substantivo? Só pode ser «coloração», o único presente. Coloração rosa intensa.
[Texto 3516]

Ortografia: «Celsius»

Jornalismo científico

      «A não haver travão, o mundo caminha para um aquecimento global, a médio prazo, de mais 3,6 graus Célsius, um valor 1,6 graus mais alto do que foi estimado como limite seguro pelos cientistas» («2013 já tem a marca das alterações climáticas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 30).
      Como parece convicção e não descuido, pois escreveu desta maneira duas vezes, é preciso dizer: Celsius não tem acento.
[Texto 3515]

Uma letra a mais

E é outra coisa

      «A história das centenas de cartas inéditas trocadas entre Camilo Castelo Branco e o amigo de infância, Carlos Ramiro Coutinho, visconde de Vouguela, agora publicadas em Camilo Íntimo (Clube do Autor, 378 págs.), é um enredo que exigiria deliberação a Calisto Elói Barbuda, o inocente morgado de província, corrompido pelos costumes da capital, no clássico A Queda de um Anjo» («As cartas perdidas de Camilo», Sílvia Souto Cunha, Visão, 1.11.2012, p. 110).
      Que diria neste caso o autor do tal blogue «político»? Talvez que a jornalista devia ter mais cuidado. É verdade que, mais à frente, é Ouguela — o correcto — que se lê, mas esta é a primeira ocorrência, e no leitor que desconheça de quem se trata fica a dúvida. E mais: terá tido Camilo apenas este amigo na infância? Bem, algo certo, para contrabalançar: «Este tesouro camiliano inédito faz, igualmente, um vívido retrato da sociedade da época, e das convulsões sociais e políticas; nomeadamente, a conspiração que levou Ouguela à prisão, que pretendia afastar os Braganças do poder e destituir D. Luiz I.»

[Texto 3514]

Léxico: «betetista»

É só esperar

      «Mesmo assim, o livro [A Gloriosa Bicicleta, Laura Alves e Pedro Carvalho. Lisboa: Texto Editores, 2013] distingue autóctones, betetistas, carapaus de corrida, hipsters de roda fixa e salteadores urbanos» («Bicicletas. Tudo o que tem de saber para se fazer ao piso com estilo», Ana Tomás, i, 13.11.2013, p. 33).
      Para levar a sério, só o «betetista», que leio com frequência e ainda não chegou aos dicionários gerais da língua.
[Texto 3513]

«Psicopatáveis»!

Eu sabia

      «Os pivôs de televisão e rádio estão no top 3 das profissões com personalidades mais psicopatas; pior, só mesmo os presidentes de empresas e os advogados. O autor do estudo é Kevin Dutton, um psicólogo, profissão que, curiosamente, não consta da lista de psicopatáveis» («O perfil alargado dos psicopatas», Rita Ramos, Telejornal, 12.11.2013). Mas vejam aqui o arzinho do investigador, «da prestigiada Universidade de Oxford».
[Texto 3512]

Um «móvel» diferente

Trocamo-lo

      «Vai em anexo», escreveu-me ontem o leitor Rui Almeida, «um cartaz semelhante ao que vi na semana passada no metro e me fez pensar que poderia muito bem estar perante uma nova acepção da palavra “móvel”.» O cartaz é o que se viu recentemente em toda a cidade, nos múpis, e nos meios de comunicação: «Vem aí a ZON4i, a ZON com móvel ilimitado.» Estamos perante uma nova acepção de «móvel», sim. Fará falta? Talvez fizesse mais como adjectivo, pois o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista — parece mentira, eu sei — o adjectivo mobile: «que usa dispositivos ou serviços móveis». Quantas vezes não ouvimos e lemos já a expressão «segmento mobile»?
[Texto 3511]

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