E o singular é?...

O mundo às avessas

      «“Sefiró” — remonta a Sefer Jezirah e significava “algarismo”. Na cabala, é o nome dado às emanações de Deus. Os sefirós são 10 e a cada um corresponde um nome divino» (O Livro das Maravilhas, Carlos Vale Ferraz. Lisboa: Editorial Notícias, 1999, p. 238).
      É a segunda vez, tanto quanto me lembro, que vejo esta palavra assim aportuguesada; habitualmente, é sefirot ou sephiroth — plural de sefira ou sephira — que se vê. Para o autor, porém, o singular é «sefiró». Se aportuguesamos, é claro que num vocábulo desta natureza o plural se faz por simples acrescentamento do s. Mas formar o singular com base no plural?
[Texto 3494]

Tradução: «sesto»

Mistério

      No Dicionário de italiano-Português da Porto Editora, podemos ver que à palavra italiana sesto fazem corresponder a palavra portuguesa — portuguesa? — «cintro». Nunca vi tal. Claro que não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Gralha ou invencionice? Sesto é o nome que em italiano se dá à linha curva do intradorso do arco. No caso, porém, da tradução que estou a ler, não se trata de um arco, mas de paredes que terminam nesses elementos arquitectónicos.
[Texto 3493]

Tradução: «soletta»

Mestre-de-obras

      «La terra era un grande rettangolo delimitato da quattro immense pareti che sostenevano due strati di volta celeste: sul primo brillavano le stelle e nella intercapedine, o soletta, vivevano i Beati.» Sim, Umberto Eco em «La Forza del Falso». Mas soletta não corresponde, como acabo de ler, em português, neste contexto, a «soleta» (como em italiano, temos, entre outras que nunca constam dos dicionários, a acepção de «palmilha»). Demasiado simples — e falso. Intercapedine pode traduzir-se por «desvão» ou «forro», e soletta talvez por «laje». Será?
[Texto 3492]

«Exame ADOC»!

E o Teatro Adoque

      «“O meu primeiro dia de trabalho foi com o Vasco Morgado (o pai). O percurso foi muito simples: fiz o liceu, o exame ADOC, porque queria trabalhar de dia e estudar à noite, depois entrei para o conservatório de teatro e cinema. Entretanto, soube que havia casting para um espetáculo de variedades com o Carlos Avilez e lá fui. Tinha 18 anos”, recorda o ator [Rogério Samora]» («“Continuo a ter medo de que ninguém se lembre de mim”», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 53).
      Demasiado nova para saber ou demasiado desleixada para investigar? Responda quem souber. É exame ad hoc que se diz, cara Ana Lúcia Sousa, exame ad hoc.
[Texto 3491]

Léxico: «plúrimo»

Perdeu-se o verbete

      Plúrimo. Vem directamente do latim e é usado sobretudo em Direito. Talvez faça também falta à poesia e, sei lá, aos críticos literários. Fernando Pessoa foi um poeta plúrimo. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3490]

Léxico: «ciclopatrulha»

Esta é nova

      «Entre 2012 e 2013, os 61 agentes das ciclopatrulhas fizeram em Lisboa 32 detenções, 39 identificações e passaram 1956 multas» («Polícias com muita pedalada no combate ao crime em Lisboa», Luís Fontes, Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 20).
[Texto 3489]

Que raio de «província»

Foram os da glote

      «Tomemos o exemplo de uma província da teoria do texto, etc.». Podemos exprimir-nos desta maneira? Em sentido figurado, está nos dicionários, podemos usar o termo para significar secção, ramo. Não terá origem no italiano? «In senso fig., nell’uso letter. (non com.), settore specifico, ramo ben determinato nell’ambito di una disciplina, di un’arte e sim.: le scienze ... mi paiono una p. di letteratura ... interamente diversa dalle belle lettere (Alfieri)», lê-se no Treccani. À primeira vista, dir-se-ia um falso amigo. Não daqueles do Facebook, antes um falso cognato.
[Texto 3488]

Tradução: «Schlagholz»

Se é para bater, batedeira

      «E via-se a si próprio como se debruçava sobre as batedeiras, para escolher uma; como fazia rolar a bola de um lado para o outro até tê-la bem ajeitada e lançá-la no momento preciso mesmo para o sítio onde queria que fosse cair; tão alto, para que o tempo de queda da bola correspondesse exactamente ao tempo que ele necessitava para pôr também a mão esquerda em volta do cabo da batedeira, brandi-la e atingir a bola com toda a força, para que voasse para muito longe, até para além da marca» (Bilhar às Nove e Meia, Heinrich Böll, tradução de João Carlos Beckert d’Assumpção. Lisboa: Editorial Aster, s/d [mas talvez de 1961], p. 48).
      Em que se repara logo, logo? Que não são frases para leitores com deficiências cognitivas. E que mais? Que faz ali uma batedeira? Em todo o texto é isso que se lê, batedeira para aqui, batedeira para ali. Na página 53, porém, o tradutor distraiu-se ou consentiu em facilitar a vida ao leitor e saiu «taco». Claro que o tradutor devia usar sempre «taco», a haste com que se bate a bola em jogos como o golfe, o pólo, o hóquei, etc.; nem sei onde foi desencantar «batedeira» nesta acepção. Pode ter sido o termo que, provisoriamente, encontrou, com a intenção de mais tarde substituir por outro, e depois esqueceu-se.
      «Und er sah sich selbst, wie er sich nach den Schlaghölzern bückte, um seins herauszusuchen; wie er den Ball in der linken Hand hin und her rollte, her und hin, bis er ihn griffig genug hatte, ihn im entscheidenden Augenblick genau dorthin zu werfen, wo er ihn haben wollte; so hoch, daß die Fallzeit des Balles genau der Zeit entsprach, die er brauchte, um umzugreifen, auch die linke Hand ums Holz zu legen, auszuholen und den Ball zu treffen, mit gesammelter Kraft, so, daß er weit fliegen würde, bis hinters Mal.»
[Texto 3487]

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