Linguagem desbragada

Mas há quem goste

      «Tudo naquela entrevista era bom, começando pelas fotografias de playboy cinquentão e acabando na linguagem desbragada, que Marcelo Rebelo de Sousa classificou como “tom infeliz”. [...] Tratar o alemão Wolgang Schäuble por “aquele estupor do ministro das Finanças”, classificar uma posição do primeiro-ministro da Holanda como “calvinismo reles”, afirmar de si próprio que “sempre fui a merda de um moderado”, disparar uns “pulhas” para aqui e uns “bandalhos” para acolá, e despachar os seus opositores políticos como “os filhos da mãe da direita portuguesa”, só está ao alcance de alguém para quem “a dureza encenada não é nenhuma dureza. Ou se tem ou não se tem.” E Sócrates, claro, é um duro» («O verdadeiro macho político», João Miguel Tavares, Público, 22.10.2013, p. 44).
[Texto 3418]

Como se escreve nos jornais

Provavelmente

      «Ao fim de sete semanas, em cinco dos sete casos, surgiram novos folículos capilares e pequenos cabelos começaram a surgir. Resultados que levaram um dos coordenadores do estudo, Colin Jahoda, da Universidade de Durham, a afirmar à BBC que a calvície “será eventualmente inteiramente tratável”» («Cientistas garantem que ‘fim’ das carecas está próximo», P. S. T., Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 26).
      Duplamente errado. Porque, no contexto («Yeah I think it [baldness] will eventually be treatable, absolutely.»), eventually não se traduz por «eventualmente» e porque dois advérbios em -mente assim seguidos é de uma grande inépcia.
[Texto 3417]

O defunto verbo «pôr»

Não apenas os jornalistas

      «Segundo o médico Filipe Gomes, o novo protocolo compreende uma cláusula que “coloca em causa a autonomia pedagógica da direção do MIM [Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Algarve], de forma inaceitável”» («Demissão ameaça curso de Medicina», Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 21).
[Texto 3416]

Ortografia: «multiúso»

Pelo menos isso

      «A Nave da Estufa Fria [construída na década de 1950 e com 800 metros quadrados, da autoria do Eng. Edgar Cardoso], espaço que sofreu uma remodelação, é hoje inaugurada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. Este espaço é agora um multiúsos disponível para a realização de qualquer evento» («Nave da Estufa Fria passa a ser um multiúsos», Diário de Notícias, 21.10.2013, p. 21).
      É uma barbaridade, bem o sabemos, mas pelo menos agora já lhe põem o necessário acento agudo.

[Texto 3415]

«Recriar/recrear»

Da pressa, hem?

      «Sob um céu cinzento, os soldados avançam em linha enquanto decorrem escaramuças de cavalaria e se ouvem disparos de artilharia. Foram cerca de seis mil figurantes a recrearem no fim de semana, nos arredores de Leipzig, o confronto que ditou o fim da influência de Napoleão na Europa: a Batalha das Nações, que opôs 185 mil franceses a 320 mil alemães, russos, austríacos e suecos entre 16 e 20 de outubro de 1813» («Alemanha. 200 anos da Batalha das Nações», Diário de Notícias, 21.10.2013, p. 8).
      Quando têm de escrever «recrear», escrevem «recriar». Eles dirão que é da pressa; alguns até me perguntam, estocada final, se já trabalhei num jornal.
[Texto 3414]

Léxico: «contraplano»

Pouco cinéfilo

      «A estranheza inicial das duas personagens dilui-se rapidamente na extraordinária beleza com que são filmadas. E não falo apenas das técnicas cinematográficas que regulam a luz, que ditam as horas para obter as melhores filmagens ou que revelam os planos e os contraplanos adequados à emoção de cada momento» (Coisas da Vida, Laurinda Alves. Alfragide: Oficina do Livro, 2009, 2.ª ed., pp. 122-24).
      Tive de ser eu a propor «contrapicado» ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e agora é este «contraplano». Ou seja, tenho de fazer tudo.
[Texto 3413]

«Mezanino/sobreloja»

Duas perguntas

      «A partir de uma escola com a tipologia típica da arquitectura do Estado Novo, a equipa de Fernando Maia Pinto apostou no máximo aproveitamento do espaço: o edifício principal foi desmultiplicado em três pisos, que acolhem um arquivo na cave, um auditório e sala de exposições no piso térreo, e um mezanino também para exposições» («Mário Cláudio, um vizinho em Paredes de Coura», Sérgio C. Andrade, Público, 20.10.2013, p. 39).
      Pior ainda é quando os autores querem deixar, à viva força e a despropósito, o termo em italiano, mezzanino. E agora uma pergunta: «sobreloja» não é exactamente o mesmo? E porque é que os dicionários, tão lestos noutros casos, não fazem aqui uma remissão?
[Texto 3412]

Clássicos

O português que não se usa

      «O português sem gramática que se usa na televisão e nos jornais desceu à “língua de pau”. A “língua de pau” costumava ser um exclusivo do Partido Comunista, agora é a língua quase oficial da política, uma pasta mastigada e remastigada, que não exprime nada e não convence ninguém. [...] Do século XVI para a frente não faltava um único autor dos que mudaram e moldaram o português que hoje se usa ou, mais precisamente, não se usa. Para medir bem a nossa pobreza literária os “clássicos Sá da Costa” foram um instrumento único» («Os clássicos Sá da Costa», Vasco Pulido Valente, Público, 18.10.2013, p. 52).

[Texto 3411]

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