O Sr. Clutter e todos os Clutters

Nem todos ignoram

      O Sr. Clutter, a Sra. Clutter, os filhos... «A família Rupp era católica e os Clutters metodistas, facto este que bastaria para tirar aos dois jovens quaisquer ilusões quanto a um futuro casamento» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 18).

[Texto 3375]

Tradução: «whipcord»

Precisamos de um alfaiate

      «No entanto, enquanto se barbeava, tomava chuveiro e envergava as calças de veludo canelado, o casaco de cabedal fino de vaqueiro e as botas guarnecidas de esporas sem roseta; não receava acordá-la porque dormiam separados» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 18).
      Ora, no original, lê-se o seguinte: «However, while Mr. Clutter was shaving, showering, and outfitting himself in whipcord trousers, a cattleman’s leather jacket, and soft stirrup boots, he had no fear of disturbing her; they did not share the same bedroom.»
[Texto 3374]

«Comissão fabriqueira»

Se fosse

      «Era, no entanto, o cidadão mais conhecido e importante, tanto na sua terra, como em Garden City, a sede do condado vizinho onde fora chefe da Comissão Construtora da Primeira Igreja Metodista, edifício que custara oitocentos mil dólares» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 16).
      No original, lê-se o seguinte: «He was, however, the community’s most widely known citizen, prominent both there and in Garden City, the close-by county seat, where he hardheaded the building committee for the newly completed First Methodist Church, an eight-hundred-thousand-dollar edifice.» Não há aqui, ao que me parece, nenhum erro de tradução, queria apenas lembrar que se fosse cá e se dissesse respeito a uma igreja católica, lhe daríamos o nome de comissão fabriqueira, curiosa designação legal usada desde 1926.
[Texto 3373]

Extremo Oeste e Médio Oeste

De Middle West não escaparíamos

      Já que andamos um pouco engalfinhados por causa da maviosa Lípsia, aqui fica: «Perto de setenta milhas a leste da fronteira do Colorado, com um céu azul intense e um ar transparente, de deserto, possui uma atmosfera que lembra mais o Extremo Oeste do que o Médio Oeste» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 13).
      No original lê-se, lembro, o seguinte: «Some seventy miles east of the Colorado border, the countryside, with its hard blue skies and desert-clear air, has an atmosphere that is rather more Far West than Middle West.» Palpita-me que hoje em dia não se traduziria da mesma maneira.
[Texto 3372]

«Shutdown», de novo

Em Angola sabem

      «“Façam a votação. Parem com esta farsa e acabem com a “paralisação” (shutdown em inglês) agora”, disse o Presidente aos representantes republicanos no seu programa semanal de rádio» («Obama aumenta pressão sobre os republicanos», Jornal de Angola, 9.10.2013, p. 10).
[Texto 3371]

Ortografia: «auto-emprego»

Não pode ser

      «A associação “Dar Vida à Vida” é uma organização filantrópica, cujo objectivo principal é combater o desemprego da juventude e promover o auto emprego, mediante a concessão de microcrédito» («Jovens e ex-militares recebem microcrédito», Valentim Cavindi, Jornal de Angola, 10.10.2013, p. 38).
      Caro Valentim Cavindi, deixa assim à solta, sem mais, um elemento de formação de palavras? Veja lá ele não caia ou desapareça. Auto-emprego como «auto-educação» ou «auto-escada». E claro que o nome da associação não precisa das aspas para nada.
[Texto 3370]

Ortografia: «Cuíto»

Está quase

      «No quadro do programa do Governo de construção de mais infra-estruturas escolares, oito salas estão a ser acrescidas na Escola de Formação de Professores (Marista São José) no Cuito, província do Bié» («Cidade do Cuito com mais salas», Jornal de Angola, 10.10.2013, p. 39).
      Ah, mas até nos jornais angolanos escrevem este topónimo com c, e não com k. (Vejam aqui.) Só falta o acento.
[Texto 3369]

«Situação», uma acepção

As aspas são mesmo uma doença

      «A segunda fase (1945-1961), que se caracteriza por um táctico abrandamento do regime e pela admissão de algum pluralismo limitado, em que a Assembleia Nacional passa a ser presidida por um dos mais “liberais” líderes políticos da situação, que na tradição republicana de que era oriundo mantinha uma postura de franco apoio e empenho, mas sem subserviência» (Os Deputados da Assembleia Nacional 1935-1974, J. M. Tavares Castilho. Lisboa: Texto Editores, 2009, p. 141).
      O autor — não este, outro — quer forçosamente aspas em «situação», na mesma acepção. Porque o pobre leitor pode julgar que é literalmente o acto ou efeito de situar. Isto é que é confiança na inteligência do leitor.
[Texto 3368]

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