«Ênfase» é feminino

Eu tenho um sonho

      A 28 de Agosto de 1963, faz hoje precisamente cinquenta anos, em Washington, Martin Luther King falava sobre o sonho americano e a igualdade de direitos dos negros. O Jornal da Tarde de hoje foi ouvir um jornalista, José Alberto Lemos, a propósito deste discurso: «Aquilo que se tornou célebre, que é a parte do “eu tenho um sonho, eu tenho um sonho”, são apenas os últimos quatro ou cinco minutos de discurso de 17 minutos em que Luther King improvisou. Portanto, isto não estava preparado, ele decidiu dar, digamos, um ênfase mais importante ao seu discurso no final justamente para sublinhar que aquilo que ele sonha é aquilo que a América ainda não concretizou.»
      Eu tenho um sonho: que um dia, em vez de nove em cada dez falantes que erram no género de «ênfase», ninguém erre ou erre apenas um em cada dez.
[Texto 3247]

«Tanto a Oriente como a Ocidente»

Ou não

      «Figura grada e prestigiosa do terceiro mundo, Hailé Selassié I tem influência junto dos chefes que contam na paisagem política africana e, do mesmo passo, é acolhido e cultivado pelas grandes potências, tanto a Oriente como a Ocidente; e por estes títulos tem interesse para Portugal e sua política a visita do imperador» (Salazar: A Resistência (1958-1964), Franco Nogueira. Coimbra: Atlântida Editora, 1984, p. 87).
       Não devia ser antes «tanto a oriente como a ocidente», tal como «de norte a sul»?
[Texto 3246]

Léxico: «guanche»

Queremos melhor

      «“Encontramos estruturas proto-históricas [período que se segue à pré-história mas que é anterior ao da história documentada] semelhantes no Norte de África e noutras culturas aborígenes como a guanche, nas ilhas Canárias. Mas ainda é muito cedo para dizermos exactamente o que são e quando foram construídas, precisamos de estudar mais os materiais e de fazer datações precisas”, admite o arqueólogo» («As “pirâmides” da vinha do Pico já lá estavam quando os portugueses chegaram?», Lucinda Canelas, Público, 28.08.2013, p. 30).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, está registado «Guanches», mas, incoerentemente, não «guanche», o que é equivalente a estar «Portugueses» e não estar «português». Os Guanches eram os antigos habitantes das ilhas Canárias.
[Texto 3245]

Léxico: «maroiço»

E outras coisas mais

      «Desde Janeiro que estes arqueólogos [Nuno Ribeiro, da APIA, e sua equipa] visitam o local [ilha do Pico] marcado por estes montes de rocha [vulcânica] que ali se conhecem por maroiços, fazendo levantamentos e prospecção» («As “pirâmides” da vinha do Pico já lá estavam quando os portugueses chegaram?», Lucinda Canelas, Público, 28.08.2013, p. 30).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «maroiço» remete para «marouço» e neste podemos ler: «onda encapelada; maré viva». No Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, é algo mais do que isso: nos Açores, é outra designação para tumor, o paredão para arrumar pedra e, em São Miguel, o nó da madeira.
[Texto 3244]

«Esquirro»?

Daí as aspas

      «No exílio desde 1815, nesta pequena ilha vulcânica no meio do Atlântico Sul que é Santa Helena, o imperador, que se queixava frequentemente de dores no aparelho digestivo, vivia obcecado com a hipótese de um mal de família. O seu pai morrera com menos de 40 anos, vítima de um “esquirro” (um tumor) do piloro» («Napoleão. Os mistérios de um tumor imperial», Sandrine Cabut, Público, 27.08.2013, p. 26).
      O que não sabemos é se as aspas são da jornalista francesa, se, mais provavelmente, são do tradutor português. No original estará squirre ou squirrhe. E é isso: um tumor duro, de tecido fibroso, renitente. Vem do grego através do latim. Nos dicionários gerais, não o encontro. Comecei a suspeitar que a ortografia em português seria «escirro», que não encontrei, mas apenas cirro: «tumor maligno, de consistência muito dura à palpação». E lembrei-me, era inevitável, de «cirrose». Portanto, se existisse seria «escirro». Embora, ao longo do tempo («no plano diacrónico», diriam os da glote, como Montexto gosta de lhes chamar), na língua francesa, tenha passado de schirre para squirrhe, só esta se usa, e em castelhano, por exemplo, só está dicionarizado «escirro».
[Texto 3243]

Léxico: «ingesta»

A toma, a ingesta...

      «E eis que no mesmo dia iam dois deles para uma aldeia, que distava de Jerusalém sessenta estádios, cujo nome era Emaús.» Assim escreveu um médico, São Lucas, o evangelista. Estádio, não estadio. Outro médico — como todos os médicos, actualmente —, o nefrologista Aníbal Ferreira, que ontem estava no Bom Dia Portugal para falar de doença renal crónica, disse «estadio».
      Este médico também usou um termo que só os médicos usam: «Os cálculos renais, a lítiase renal aumenta, associada regra geral a um componente de desidratação ou de menor ingesta hídrica, nos doentes que têm mais tendência a desenvolver esta complicação.» Ingesta é o que o organismo consumiu e absorveu.
[Texto 3242]

Léxico: «criptobiose»

Pouco científicos

      Mais de 90 investigadores estiveram reunidos num congresso mundial, em Vila Nova de Gaia, a falar de seres microscópicos. Concretamente, dos tardígrados — animais que marcham com lentidão. São animais de reduzidíssimas dimensões, de que há pelo menos 1000 espécies, de corpo não segmentado, com quatro pares de patas locomotoras, que vivem nas águas, sobre as plantas aquáticas ou no lodo. Numa reportagem de ontem do Jornal da Tarde, falou, a propósito destes seres, Paulo Fontoura, investigador do Departamento de Biologia da Universidade do Porto: «Eles são capazes de entrar no processo chamado criptobiose, portanto, vidas escondidas, reduzem fortemente o metabolismo, inclusivamente chegam a ter cadeias de ADN destruídas e que conseguem depois recompor.» Esta «criptobiose», redução extrema do metabolismo, não está nos dicionários gerais.
[Texto 3241]

Léxico: «cante»

Exagero

      «Completam-se na terça-feira cinco meses sobre a entrega, no comité internacional da UNESCO, da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade» («Um canto pelo cante», Nuno Pacheco, «2»/Público, 25.08.2013, p. 32).
      Já mais de uma vez me ocupei deste vocábulo. Aqui, aventei a hipótese, pouco arriscada, de o étimo estar no castelhano cante, e lamentei, do mesmo passo, que não estivesse dicionarizado. Como ainda não está, decorridos quatro anos. Seja como for, é manifesto exagero grafá-lo em itálico. Desconfio muito mais ali daquela construção — «cinco meses sobre a entrega». Hum...
[Texto 3240]

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