«Alvéolo», «gavetão»...

São necrofóbicos

      A avó ficou «dans l’alvéole» n.º X no cemitério de ***. Alvéolo, pois claro. Nos dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, esta acepção não aparece. Há alvéolos dentários, há alvéolos pulmonares, mas os alvéolos dos cemitérios foram esquecidos. Como se esqueceram dos gavetões dos cemitérios. Mesmo o columbário é, para aquele dicionário, o «sepulcro subterrâneo, entre os Romanos». E entre os Portugueses? Creio — e não tenho à mão um coveiro que mo confirme — que aos alvéolos também se dá o nome de «nicho». De qualquer maneira, a acepção também não está dicionarizada. Têm muito por onde melhorar, os nossos dicionários.
[Texto 3218]

Tradução: «chinetoque»

Olha quem fala

      Povos racistas como os Franceses e os Portugueses (ah, nós não o somos? Pronto, fica assim) tinham de ter nas suas línguas termos para designar de forma ofensiva outros povos. Assim, o termo injurioso e racista francês para designar um chinês é chinetoque. Está no Larousse, caramba. E está registado no Dicionário Francês-Português da Porto Editora? Não está. Mas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encontramos «chinoca».
[Texto 3217]

Léxico: «suputação»

Quase só eles

      «Ignoramos — e não vale a pena tentar a suputação provável — o que seria uma civilização hispânica caldeada com a líbio-fenícia. Seria tão absurdo julgar que todas as coisas vêm por bem, como julgar que todas vêm por mal» (Os Avós dos Nossos Avós, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1942, p. 205).
       Tirando Heitor Pinto e Aquilino, quem é que usa os termos «suputação» e «suputar», quem? Só os vejo, em abundância, em traduções de obras francesas. Eles é que gostam muito. Suputar é avaliar por meio de cálculo, computar; suputação é o acto ou efeito de suputar; cálculo.
[Texto 3216]

Tradução: «baisable»

Novas e velhas

      Esta quarentona é baisable — «fodível», verte o tradutor. «Desejável; sexualmente muito atraente», regista o Dicionário Francês-Português da Porto Editora. Mas désirables são aquelas adolescentes — françaises, beurettes, asiatiques — que ali estão junto da máquina de distribuição de preservativos.

[Texto 3215]

Vulgarismos

Vulgar, mas desconhecido

      Não será porque gostem ou deixem de gostar, mas os Franceses também têm branlettes espagnoles. O tradutor verteu para «punhetas espanholas». Pode ser, mas, mais habitualmente, entre nós são conhecidas por espanholadas. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, contudo, «espanholada» é o «dito, frase, música, etc., próprio de espanhóis; fanfarronada; hipérbole». Está mal, os vulgarismos (ah!) também têm de estar nos dicionários. E o Dicionário Francês-Português da Porto Editora, se regista branlette, quanto à espagnole, nada.
[Texto 3214]

Léxico: «tantrista»

Essa é a verdade

      Antes do almoço, a minha filha perguntou-me se quando for crescida pode ganhar a vida a fazer construções com peças de dominó, porque acha que as sabe fazer fantásticas. Porque não? Só esta tarde é que eu soube que também há tantristas (todos adolescentes em Maio de 68?). Por isso...
[Texto 3213]

Tradução: «glissière de sécurité»

Mais um esquecimento

      O carro do rapaz despistou-se na auto-estrada e «heurta légèrement la glissière de sécurité». A mim, no dia 29 de Julho, aconteceu-me quase o mesmo: ia contornar uma rotunda, a menos de 20 km/h, mas tinha começado a chover intensamente e todo o lado esquerdo do carro, pesado, um Mercedes-Benz 220 CDI, deslizou para cima do lancil da rotunda, qual frágil folha batida pelo vento. Ah, sim: o tradutor verteu assim: «embateu ligeiramente na barreira de segurança». Estivesse no original «rail», e provavelmente seria «rail» (ou «raile», como já uma vez vimos) que passaria para a tradução. O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista «glissière», «corrediça», e quanto a expressões, nada.
[Texto 3212]

«Alta Provença»

Mas as palavras perduram

      Aqui o nosso tradutor acha bem que o topónimo Haute-Provence fique por traduzir, talvez pense mesmo que nunca ninguém em centenas de anos da língua portuguesa se lembrou de o afeiçoar à nossa língua.
      «Só os olhos de ambos se devoravam, numa tensão tão violenta que ambos gritaram, por fim, nem sabiam já se de prazer ou dor, e ele caiu, prostrado, sobre o peito dela e assim ficaram, ainda abraçados, Manuel quase a adormecer, ela entoando, num sussurro, como a embalá-lo, uma velha canção dos pastores da Alta Provença, de uma tão bela e inquietante placidez que dir-se-ia brotar-lhe, estranha à sua natureza crispada, dos longes da retentiva, senão de uma memória anterior» (Exílio Perturbado, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Publicações Europa-América, 1982, p. 98).
[Texto 3211]

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