«Cascos de Rolha»

Indeterminado, mas topónimo

      «O caso individual do aventureiro inconformado de outrora, que saltava o risco nacional, ou a transumância do rebanho penitente, que em fila indiana e com vieiras no chapéu vinha de Cascos de Rolha a Compostela, deram lugar a um excursionismo oficial e maciço por conta da unidade do mundo, de que já todos nos sentimos, pelo menos, cidadãos honorários» (Diários, Vols. IX a XII, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 2011, p. 52).
      É assim (e também no plural — Cascos de Rolhas) que Rebelo Gonçalves regista na página 223 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «cascos de rolha» e «Cascos de Rolha» — mas não regista, por exemplo, «cu-de-judas» e «Cu de Judas». Todos locais afastados e/ou indeterminados. (E por isso ainda hoje rio com vontade quando relembro esta frase de Nuno Pacheco, do Público, sobre o Acordo Ortográfico: «Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.»)
[Texto 3210]

«Que compara com», «face à», etc.

Quase português

      «As previsões do INE apontam para uma produtividade de 19.150 quilos por hectare, que comparam com os pouco mais de 10 mil de 2012. [...] A produção de maçã também regressou aos níveis de 2011, depois de no ano passado ter rondado os 17 mil quilos por hectare. Espera-se, agora, um aumento de 15% face à campanha anterior, muito prejudicada pela seca extrema registada nas principais regiões produtoras» («Um ano depois da seca, a produção agrícola recupera», Ana Rute Silva, Público, 21.08.2013, p. 18).
      E mais: «Depois de um ano marcado pela seca extrema, a produção de pêras e maçãs deverá aumentar em 2013, tal como a da uva para vinho.» Cara Ana Rute Silva, tem obrigação de saber que o plural de «pêra» não tem acento gráfico, pois não está em homografia com palavra proclítica. Digam-lhe, mostrem lá que o Facebook serve para alguma coisa.
[Texto 3209]

«Tratar-se de», também

E na outra página...

      «Vestígios de fluidos corporais ao redor da boca e do nariz fariam supor à população, imbuída de uma superstição demoníaca, de que se tratariam de vampiros que se teriam alimentado de sangue recentemente» («Na Polónia, os arqueólogos andam às voltas com os vampiros», Catarina Durão Machado, Público, 20.08.2013, p. 23).
      Bem nos parecia que o Sr. Pierzak não tinha culpa de nada. Ele há-de perceber mais de vampiros, estacas, morcegos, etc. Foi Catarina Durão Machado que se distraiu. Agora já fica a saber: a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Digam-lhe, mostrem lá que o Facebook serve para alguma coisa.
[Texto 3208]

A boa escrita

Disse e morreu

      «Em 2001, o NYT pediu-lhe [ao escritor norte-americano Elmore Leonard, que morreu ontem] as dez regras da boa escrita e ele aconselhou: nunca começar um livro a falar do tempo, evitar prólogos, nunca usar outro verbo além de “disse” para terminar um diálogo e ter sempre os pontos de exclamação debaixo de olho (só são permitidos dois ou três em cem mil palavras)» («Morreu o escritor de policiais Elmore Leonard, “o Dickens de Detroit”», Isabel Coutinho, Público, 21.08.2013, p. 30).
[Texto 3206]

Sobre «servente»

Vá lá

      «Paul Kengor e Kiron Skinner referem que o casal de empregados é retratado como se estivesse desconfortável neste jantar, passando a imagem de que os convidados do presidente seriam brancos e os negros apenas poderiam ser seus serventes» («Biógrafos de Ronald Reagan criticam retrato no filme O Mordomo», Cláudia Carvalho, Público, 20.08.2013, p. 28).
      Ah, claro que em português «servente» não é somente o operário não especializado da construção civil que desempenha tarefas secundárias, mas, neste preciso caso, a jornalista não terá usado a palavra porque o texto daqueles autores, em inglês, tinha o termo «servant»? Mérito relativo. Ou não: acaso.
[Texto 3205]

Pronúncia: «Garrett»

Ninguém se mete com Garrett

      Na Antena 1, estão hoje a recordar o incêndio do Chiado, ocorrido em 1988. E como pronunciam o nome Garrett? Pois *Garré. Já aqui lembrámos que Garrett dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.
      Escreveu Gonçalves Viana: «Se o nome fosse francês, que não é, nenhum francês, ao vê-lo escrito com dois tt finais, deixaria de pronunciá-lo gàréte [garréte]. A extravagante pronunciação garré é que não pertence a língua nenhuma conhecida, e só prima pelo ridícula que é.» E mais, acrescenta Gonçalves Viana, «o próprio poeta sempre pronunciou o seu apelido como se em português se escrevesse garréte, com a surdo na primeira sílaba, o acento tónico na 2.ª, e o t perfeitamente proferido. Assim lho ouvi eu várias vezes, assim o pronunciavam todos os seus contemporâneos».
[Texto 3204]

«Magrizela/magricela»

Da magreira

      «– Onde pára esse vosso amigo magrizela?, – perguntou Reuben Hearne, dando um puxão ao cinto, ao mesmo tempo que fazia a pergunta com voz resmungona. – Não me serve de nada perder palavras com um par de miúdos...» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 152).
      Hoje em dia, quase só ouço e leio «magricela». Terá contribuído para tal que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de «magrizela» remeta para «magricela»? Castilho usou magriz (de onde provém «magrizela») e magrizel, mas isso já seria pedir demasiado aos dicionários.
[Texto 3203]

«Bordar considerações»

Bordar ou tecer

      «Bordou ainda outras considerações, a respeito da presença de espírito, as quais fizeram Diana corar novamente, mas, desta vez, por um motivo muito diverso» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 187).

[Texto 3202]

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