Sobre «capô»

Umas décadas antes

      «– Mas... mas... a culpa não foi dele?, ­– protestou Pamela. – Com certeza que tinha de pagar tudo o que fez!, – ajuntou, apontando para o capô amolgado e para o pára-brisas encaixado no meio das ortigas da vala» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, pp. 22-23).
      Alguns hão-de pensar que só com o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, é que passámos a ter estes aportuguesamentos. Pois lamento desiludi-los, mas não.

[Texto 3193]

«Marinhagem», uma acepção

Arte de navegar

      «“Começa a ser complicado arranjarmos maneira de nos organizarmos todos”, diz Luís Bento, tripulante de um dos moliceiros da empresa Onda Colossal. “As pessoas que andam nas bicicletas não percebem de marinhagem e atravessam-se à nossa frente”, observa o tripulante» («Bicicletas aquáticas tentam coexistir com os tradicionais moliceiros nos canais de Aveiro», Maria José Santana, Público, 18.08.2013, p. 25).
      Na maioria dos casos, marinhagem é usado na acepção de conjunto de marinheiros; pessoal empregado na manobra de um navio. Aqui, porém, é o conhecimento das manobras náuticas.

[Texto 3192]

O discurso do PM

Ordem, clareza e gramática

      «O dr. Pedro Passos Coelho foi ao Pontal, lugar sagrado da sua seita, onde se aliviou de um emaranhado de frases sem ordem, sem clareza e sem gramática. Parece que o nosso querido primeiro-ministro confia nas suas qualidades de improvisador e não se dá ao trabalho de escrever os discursos com que pretende informar os portugueses. Os portugueses ficam na mesma; e os comentadores de jornal ou de televisão tentam depois (e nem sempre conseguem) extrair algum sentido do que o cavalheiro disse. Anteontem, pareciam bruxas à volta de um endemoninhado. Nem o próprio público jantante o percebeu» («Portugal descansado», Vasco Pulido Valente, Público, 18.08.2013, p. 56).
[Texto 3191]

Ortografia: «entorse»

Imperdoável, Meritíssimo

      «O tribunal considerou que a “limitação de mandatos apenas tem aplicação territorial e não funcional”, abrindo caminho para que Menezes, presidente da Câmara de Gaia desde 1997, possa ser candidato no Porto. “Entender que a referida limitação é de cariz funcional aplicando-se a todo e qualquer município envolve, a meu ver, um entorce injustificado e de duvidosa constitucionalidade no livre acesso aos cargos políticos”, refere o juiz no despacho» («Tribunal alega que lei deixa dúvidas e recusa travar candidatura de Menezes», Pedro Sales Dias e Abel Coentrão, Público, 17.08.2013, p. 4).
      Esperemos que o magistrado conheça melhor a lei do que a ortografia. Deslizes quanto ao género, já aqui os vimos. Vasco Graça Moura, por exemplo, também se esqueceu de ir comprovar num dicionário — antes do Acordo Ortográfico ou depois do Acordo Ortográfico. Mas neste caso é pior: o s transmuta-se, por ignorância da ortografia, em c. Como a origem das entorses é quase sempre uma torcedura, eis que o s desaparece.

[Texto 3190]

Léxico: «olinguito»

Por esse vasto mundo

      O mundo está longe de estar todo descoberto. Pela primeira vez em 35 anos, a comunidade científica anunciou a descoberta de uma nova espécie de mamífero — o olinguito (Bassaricyon neblina). Este pequeno carnívoro já andava aí pelos jardins zoológicos, mas pensava-se que se tratava do olingo, aparentado. Ora, nem o olingo está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, quanto mais o olinguito.
[Texto 3189]

Léxico: «laça»

A atracção do ouro

      Ontem, no Telejornal, passou uma reportagem sobre o desfile das mordomas nas Festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Uma das peças de ouro tradicionais é a laça, que é constituída por uma laçada dupla, actualmente em forma de coração invertido. Ao que parece, o nome provém, não desta dupla laçada, mas da argola que tem por trás para poder ser usada com uma fita de seda. Laça vem de laço, decerto, mas nesta acepção não a vejo em nenhum dicionário. Aparece no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas apenas as acepções «laçada; aselha [pequena asa; laçada; presilha]».

[Texto 3188]

Como o indígena ignorante

A atracção das aspas

      Já por duas ou três vezes critiquei o uso excessivo das aspas nos textos de Vasco Pulido Valente. Com algumas intermitências, nada melhorou. A intenção, a ideia (tratando-se de Vasco Pulido Valente, tinha de haver uma ideia) é dar a entender que o indígena é que se exprime daquela maneira — que ele usa apenas para se fazer compreender, porque afinal está a escrever para o indígena ignorante. Por vezes, porém, como na crónica publicada hoje, a intenção não é essa, simplesmente escreve como o indígena ignorante. «O jornal Expresso, em homenagem ao seu proprietário, resolveu este mês publicar uma sequela de Os Maias, que, como o nome indica, é uma continuação da história de Carlos da Maia e de João da Ega, a partir do momento que eles correm atrás do “americano” para não chegarem tarde a um jantar de amigos» («A atracção da asneira», Público, 17.08.2013, p. 44).
[Texto 3187]

Léxico: «desnatural»

Também gosto

      Desnatural. Ora aqui está um formidável adjectivo, que ainda hoje me lembraram que foi usado por Oliveira Martins: «Esse tipo que nós receamos não acentuar devidamente, temendo a escassez dos recursos da nossa pena, era desnatural por assentar, senão no desprezo universal das coisas como Sila, no desdém universal dos homens» (História da República Romana, II, Oliveira Martins. Lisboa: Guimarães Editores, 1965, p. 381).
      Desnatural: não natural; contra a Natureza; desconforme; inverosímil; extraordinário.

[Texto 3186]

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