«Canada real»

Está explicado

      «São romeiros às centenas, que se propõem ligar a Moita a Viana do Alentejo através dos trilhos da antiga canada real. Estradas de terra batida, por entre campos agrícolas» («A romaria a cavalo que faz lembrar o faroeste», Roberto Dores, Diário de Notícias, 25.04.2013, p. 26).
[Texto 2777]

«À custa de»

Quais oficiais de justiça

      «Mais tarde, Ari Behn, que tem sido criticado pela família real norueguesa — acusando-o de viver às custas de Martha Louise —, disse à revista ¡Hola! que a sua intenção passou por promover um novo vinho» («Princesa vê marido pedir esmola na rua», Diário de Notícias, 24.04.2013, p. 53).
      Se ninguém lhes disser nada, pensam que é assim que se escreve. Não é, digo-vos eu.
[Texto 2776]

«Tratar-se de»

Estão doentes

      Do comunicado do Governo sobre os contratos swap: «Obtidos os resultados dessa análise, concluiu-se que vários destes contratos têm características problemáticas por não se tratarem de meros instrumentos de cobertura de risco e incorporarem estruturas altamente especulativas» (in Jornal de Tarde, 23.04.2013).
      Eu não me sinto nada bem, mas o País não está melhor. Quando é que entra na cabecinha destes semianalfabetos que a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular?
[Texto 2775]

Sobre «inválido»

Deficiente, doente...

      «Silvano Toniolo, de 80 anos, ex-enfermeiro, foi despejado há oito meses do seu apartamento em Turim e, desde então, vive nos comboios de Itália. Não os que estão parados. Os que estão em movimento. Para isso, usa um passe de inválido, que permite viajar gratuitamente» («Italiano de 80 anos vive em comboios», Diário de Notícias, 23.04.2013, p. 24).
      Que significa exactamente «inválido»? Os dicionários dizem que é o que não pode levar uma vida activa; enfermo. Mas, com 80 anos, se não se é doente, talvez não possa levar-se uma vida activa. A palavra há-de ter vindo da língua de origem, é o habitual. «Lui, infatti, ha la tessera per viaggiare gratis da quando un ictus lo ha reso parzialmente invalido.»
[Texto 2774]

Léxico: «supercazzola»

Para confundir o interlocutor

      Mascetti, interpretado pelo Ugo Tognazzi, é personagem do Amici Miei (Oh! Amigos Meus), um dos grandes filmes da comédia italiana (1975). Mascetti introduziu na língua italiana o neologismo “supercazzola”, que é um falar sem dizer nada. Mascetti só teve um voto e, na votação seguinte, Napolitano aceitou candidatar-se e ganhou. Ainda bem. Já por cá, mesmo só em memória, António Silva seria melhor presidente do que qualquer outro Silva. Cada povo é um caso» («O Silva seria um grande candidato», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 22.04.2013, p. 56).
      Parece que se usa, sim, mas nos dicionários não o encontrei. Não é, tanto quanto percebi, exactamente falar sem dizer nada, mas falar para confundir. Cá, pode não ter nome, mas é técnica conhecidíssima.

[Texto 2773]


Léxico: «arquitecto-paisagístico»

Outra reduzida

      «A autarquia promete que serão plantadas novas árvores no lugar das antigas e que uma parte do projecto foi alvo de alterações de modo a evitar o corte de um plátano. “Não serão criados mais lugares de estacionamento”, diz a câmara, que assume considerar os plátanos “de vital importância no conjunto arquitecto-paisagístico da zona”» («Abate de plátanos motiva protestos», João Pedro Pincha, Público, 19.04.2013, p. 14).
[Texto 2772]

Léxico: «vazar-se»

Ainda cá anda

      «A esta corajosa e inesperada resistência, a populaça apavorou-se. Os gritos dos feridos pelos chicotes e pelas patas dos cavalos ainda deram mais fôrças ao espanto. A multidão começou a abalar em retirada, e a vasar-se pelas ruas transversais» (Um Motim Há Cem Anos, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Tavares Martins, 1935, p. 234).
      Curiosa forma de dizer: vazar-se. Para meu espanto, é acepção que ainda consta do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: escoar-se.
[Texto 2771]

Como se fala com os médicos

A pergunta certa

      «O senhor gosta de beber?» Gosto, sim. «É que estou aqui a ver uma alteração no seu fígado...» Espere, eu não disse que bebia, eu disse que gostava de beber. Não foi o que me perguntou? Na realidade, gosto, gosto muito, mas não bebo. Vejo que tenho feito mal em abster-me.
[Texto 2770]

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