Como se escreve nos jornais

Esboços e arabescos

      «A frustração da Casa Branca esteve presente em cada palavra de Barack Obama. Como podia o Senado ter rejeitado uma proposta “defendida por 90% dos americanos”, baseada no “senso comum” e desenhada por dois senadores bem vistos pelo lobby das armas?» («Nem a lei mais branda foi aprovada no Senado, num “dia vergonhoso para Washington”», Alexandre Martins, Público, 19.04.2013, p. 21).
      Desenhar leis, liderar isto e aquilo, maturidades dos empréstimos — uma língua alternativa muito próxima da nossa.
[Texto 2769]

Léxico: «ricina»

Andam sempre a enganar-nos

      «A polícia federal dos EUA anunciou a detenção de um homem por suspeitas de ter enviado cartas ao Presidente Barack Obama e ao senador Roger Wicker com a presença de ricina, uma substância potencialmente mortal» («FBI detém suspeito, um imitador de Elvis», Alexandre Martins, Público, 19.04.2013, p. 21).
      Andamos há dias a ouvir e a ler nos meios de comunicação social «ricino», e logo suspeitei que estava errado. Se fosse algo semelhante, seria rícino, mas parece que este é o nome com que se designa somente o próprio arbusto e o óleo que dele se extrai, não a proteína altamente tóxica que se encontra nas sementes da mamona (outro nome do rícino). O termo ricina só o encontro no Dicionário Houaiss.

[Texto 2768]

Sobre «consultar»

A vingança

      Queria consultar de novo, disse ao telefone, a Dra. X. Risinho divertido do lado de lá. «A Sr. Dra. é que poderá consultar o Sr.» A mim? Para quê? Não tenho nenhum conselho, opinião ou instrução para lhe dar ou vender. E, ao contrário do que vai sendo habitual, não me atendeu um segurança ou uma simples assistente. Não. «Bom dia, fala a enfermeira Y.»
      «O barão ouviu-o com semblante alegre. Interessavam-lhe as miudezas daquela metamorfose. Queria saber se os médicos julgavam curável a paralisia de Leonor. Se o cego tio de Soares queria ir a França consultar os oculistas célebres» (Vingança, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Livros Horizonte, 1981, p. 126).
[Texto 2767]

Como se escreve nos jornais

Comentários para quê?

      «As especialidades de reumatologia, hemodiálise e cirurgia maxilo-facial não têm aparente relação entre si, mas, no hospital de Braga, é o mesmo médico quem as dirige. [...] O clínico em causa é Fernando Pardal, que está inscrito na Ordem dos Médicos como especialista em Anatomia Patológica. Por isso, o director clínico é há vários anos o responsável pela direcção deste serviço médico no hospital. Mas a esta competência o médico acrescenta responsabilidades sobre os serviços de cirurgia-maxilofacial, genética médica, imuno-alergologia, nefrologia (hemodiálise), reumatologia e doenças infecciosas. [...] No caso de cirurgia maxilofacial, por exemplo, o serviço está subcontratado a outros médicos de unidades do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente do Hospital de Santo António, no Porto, face à dificuldade da unidade bracarense em encontrar especialistas para estas áreas no mercado» («Médico acumula direcção de sete especialidades no hospital de Braga», Samuel Silva, Público, 17.04.2013, p. 14).
[Texto 2766]


«Na qualidade de»

«Não há remédio senão usá-la»?

      «NA QUALIDADE DE. Tal modo de dizer recebêmo-lo de França. Mais natural é o emprêgo de como, nas funções de, ou, com circunlóquio, exercendo (eu, êle, etc.) o cargo de, etc. Camilo lançou mão da locução pouco ou nada vernácula:

    na qualidade de conselheiro de estado e guerra...”
                                                (Luta de Gigantes, 168).

    na qualidade de capitão-geral do reino...”
                                                (Luta de Gigantes, 220).


      Claro que, se a imprópria expressão ganhar raízes, não há remédio senão usá-la. Mas cumpre não esquecer ou não postergar as equivalentes portuguesas» (Estudos Vernáculos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editora Educação Nacional, 1938, p. 43).
[Texto 2765]

«Exit Talks»

Em inglês nos desentendemos

      «Vital Morgado, da Agência para o Desenvolvimento e Comércio Externo, que participa na iniciativa da Universidade de Aveiro, as “Exit Talks”, “Conversas de Sucesso para a Exportação”, que reúnem vários agentes económicos» (Maria de São José, noticiário das 3 da tarde, Antena 1, 15.04.2013).
      «“As Conversas sobre Exportações” trouxeram à Universidade de Aveiro Gilles Lipovetsky, um filósofo francês que nos últimos tempos tem olhado para a tendência dos consumidores, e garante que a crise económica não afectou o desejo do consumo, sobretudo nos produtos de gama alta» (Paulo Moreira, Jornal da Tarde, RTP1, 15.04.2013). Bem, está mais próximo, mas o que se podia ler por detrás dos entrevistados era «“Exit Talks”/Conversas sobre exportação».
[Texto 2764]

«Ater-se a»

Casa de ferreiro

      «Não nos vamos ater na argumentação nem no descritivo das muitas peripécias da saga. Qualquer leitor interessado poderá ler o artigo e interpretá-lo como melhor entender.
      À míngua de tudo e sem cotação na bolsa — lá está a dependência! —, ressalvamos o penúltimo parágrafo. Nele se refere o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, classificado como “subsidiadíssimo”, em meio da listagem de editoras, personalidades políticas, instituições de toda a ordem que, qual enxame, se orienta ou desorienta na colmeia da língua» («Sobre o Ciberdúvidas», Público, José Manuel Matias e José Mário Costa, Público, 15.04.2013, p. 47).
      Mas não é ater-se a, isto é, limitar-se, restringir-se? Então?... E como é possível que os autores, coordenadores do Ciberdúvidas, prefiram «listagem» a «lista»?
[Texto 2763]

«Maturidade», um anglicismo

Maturidades e madurezas

      «Vítor Gaspar, ministro das Finanças português, que esperava um prolongamento das maturidades dos empréstimos europeus de dez anos, não terá grande margem para convencer os parceiros a aumentar os prazos desde que o Tribunal Constitucional (TC) rejeitou várias medidas do Orçamento do Estado que deveriam gerar economias de 1326 milhões de euros. Esta decisão significa que o país não conseguirá cumprir a meta de redução do défice orçamental com que se comprometeu com os parceiros europeus em troca da continuação da ajuda externa» («Prazo de reembolso será de cinco anos», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 10.04.2013, p. 2).
      Será em vão que procuraremos nos dicionários da língua portuguesa a acepção usada no artigo. Na edição do mesmo dia do Público, das cinco vezes que o termo é usado, apenas numa se trata do estado de espírito no seu auge. É mais um anglicismo semântico, agora usado todos os dias, sobretudo por políticos e, sem reflexão, acriticamente, pelos jornalistas. Basta consultar o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora para se saber que maturity é o vencimento, termo de pagamento.
[Texto 2762]

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