«Cor de rosa»

Nem isto resolveram

      «Vê pink elephants, e com esta expressão humorística de ver elefantes cor de rosa expressa-se na Inglaterra a visão confusa produzida pelo álcool» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 173).
      Como em relação a muitos outros vocábulos, Vasco Botelho de Amaral, quando não concordava com a ortografia em vigor, escrevia como lhe parecia melhor. Não era, porém, uma heterografia, como Isabel Pires de Lima afirmou em relação ao que o Acordo Ortográfico de 1990 amplamente permite. Graças, é preciso que se diga, ao princípio antiacordo por excelência: as negregadas facultatividades.

[Texto 2761]

Sobre «inaugurar»

Mais um motivo para emigrar

      «Museu dedicado aos Abba [em Estocolmo] vai inaugurar em Maio» (Público, 13.04.2013, p. 31). Vai inaugurar o quê esse museu antropomorfizado? Ah, já percebi: o museu vai inaugurar-se a si mesmo. É em Estocolmo, e em sociedades avançadas é assim que tudo funciona, sem intervenção humana.

[Texto 2760]

«Preferir uma coisa a outra»

Se até Camilo...

      Às 22h12 de ontem, escrevia-me um leitor: «Decorre na RTP (não sei se só aí) uma campanha de divulgação de uma iniciativa da Universidade de Aveiro em que vários intervenientes terminam os seus depoimentos com a seguinte frase: “Eu prefiro mudar o país DO QUE mudar de país.” Isto diz-se assim?» É claro que não diz, mas como são, imagino, catedráticos, reitores, investigadores a falar, pode haver quem duvide dos seus próprios conhecimentos. Não se diz que são os melhores cérebros que estão a emigrar?
[Texto 2759]

Pronúncia

Moro numa aldeia

      Moro numa aldeia, outrora conhecida pelo número excessivo de cabeleireiras e dentro em breve pelos passeios rebaixados, perto de Lisboa — em Benfica. Às vezes, das editoras perguntam-me: «Vem cá a Lejboa esta s’mana?» Ida e volta são 15 quilómetros. Nas sextas-feiras, se coincidir com um dia 13 («treuze», dizem eles), evito ir.
[Texto 2758]

«NATO/OTAN»

NATO

      OTAN na sigla portuguesa, pois, mas vejam como Botelho de Amaral se esqueceu ou lhe era indiferente: «Um speaker fez, por exemplo, referência aos países da NATO. Não mencionou Portugal. Advertido por mim, disse-me que a Espanha nada tinha que ver com a NATO. Ensinei-lhe História e Geografia» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, pp. 66-67). Ter o autor escrito este livro lá pelos Royal Parks londrinos, enquanto apanhava sol, há-de ter tido a sua influência...
[Texto 2757]

«Tratar-se de»

Não entra

      Informações apuradas pelo nosso correspondente em Bruxelas, Luís Ochoa: «Passos Coelho adianta que essas medidas para 2014 e 2015 estarão em linha com o acordado na 7.ª revisão e que não se tratam de medidas adicionais» (Antena 1, 11.04.2013, noticiário das 9 da noite).
      Quando é que aprendem? No sentido de estar em causa, ser o caso de, tratar-se é impessoal e rege a preposição de. E é impessoal porque nas frases em que é predicador não há nenhuma expressão lexical com função de sujeito.
[Texto 2756]

«Sarauí, saráui...»

Ainda não conhecem

      «Destaca-se a situação peculiar do Sara Ocidental. Colónia espanhola, a ONU recomendou, em 1966, a descolonização. Em Novembro de 1975, foram celebrados os acordos tripartidos de Madrid, pelos quais a Espanha cedeu o território a Marrocos e à Mauritânia. Só que esta solução não tinha em conta a vontade do povo sarauí, representado pela Frente Polisário. Esta, com o apoio de vários países africanos, anunciou em 1976 a criação da República Árabe Sarauí Democrática e a luta por uma verdadeira independência» (Angola 61, Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus. Lisboa: Texto Editores, 2011, 2.ª ed., p. 67).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora limita-se a registar «saariano», que remete para «sariano». O Dicionário Houaiss, por seu lado, acolhe tanto sarauíta como saaráui (com a variante saráui).

[Texto 2755]

O AOLP90 no seu melhor

Estamos fodidos lixados

      Em verdade vos digo: isto nunca mais se endireita. Dizem que, com o Acordo Ortográfico de 1990, ficámos com três ortografias. Sei lá se são três. Se calhar são mais. Acabo de ler um texto, escrito por um jornalista, e lá estavam dois abortos já meus conhecidos: «contato» e «convito». Impuseram-nos a teratologia como norma.
[Texto 2754]

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