Léxico: «truca»

Ora, ora

      «Sebastião Guerreiro ele próprio às voltas com a máquina flymo a trambuzar uns estampidos de gafanhoto eléctrico, truca truca pela paisagem. Mas de resto todos estávamos em paz e Sebastianito mais do que todos» (O Cais das Merendas, Lídia Jorge. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, 6.ª ed, p. 50).
      Não acreditei logo, como noutras vezes, mas é verdade: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista a interjeição «truca». E, no entanto, regista outra acepção desta palavra.

[Texto 2753]

Tradução: «checker»

Um pequeno problema

      Estados Unidos, década de 1950. A personagem principal recebe duas ofertas de emprego: uma como copy editor numa editora de livros e outra como checker numa revista. Ora, se em Portugal não temos esta função — checker ou fact checker — autonomizada, como traduzir? Aceitam-se sugestões.
[Texto 2752]

Alcavalas da Comissão Europeia

É o que sai

      Esta ia-me passando. Luís Ochoa na Antena 1: «Não falando de algumas alcavalas, o presidente da Comissão Europeia ganha por mês 25 300 euros. As alcavalas chegam a 20 % mais. O vice-presidente leva todos os meses de base 22 900, e um comissário 19 900 euros. Todos, como o presidente, com o direito a outras verbas que rondam mais 20 % do salário-base» («Barroso e seus comissários não têm poderes para baixar os respectivos salários», 4.04.2013).
     Mas afinal são alcavalas ou remunerações a que têm direito? Podemos ficar pelo que diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora sobre «alcavala»: antigo imposto; no plural, quantias cobradas indevidamente; traficância; alvíssaras. Em resumo: o jornalista não sabe o que diz.
[Texto 2751]

«Haver que», de novo

Temos de ver mais

      «Ora, o Hyde Park é uma espécie de Parlamento de algibeira, um Parlamento portátil. Só há que ter cuidado com os carteiristas das ideias» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 66).
      Não podia escamotear isto. Convicção ou inadvertência, certo é que Vasco Botelho de Amaral usou aqui a construção «haver que», o que não altera em nada, pelo menos para já, a minha opinião.

[Texto 2750]

Léxico: «fadaria»

É só querermos

      «De noite, com a fantasmagoria luminosa das paredes, numa fadaria de cor que encanta os olhos» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 18).
      Já lá vai o tempo em que se usava a torto e a direito feérico e feeria. A primeira destas leio-a agora a cada cinco anos, a segunda é muitíssimo raro encontrá-la. Vêm, é claro, do francês féerique e féerie. Como não tínhamos nenhum derivado de «fada» que substituísse féerie, a determinada altura forjou-se este «fadaria». Mas não foi Vasco Botelho de Amaral a fazê-lo. Já num dicionário de francês-português publicado em 1847 o podemos ver. Por outro lado, em provençal, língua de que nos vieram várias palavras, ao poder mágico das fadas dava-se o nome de fadaria.
[Texto 2749]

«Ripanço ou ripanso»

Cada vez mais pobre

      «Cadeiras de braços chamadas armchairs ou easychairs convidam à relaxation, ao ripanso do corpo e do espírito, ao descanso de cérebro e de nervos. Quase sempre há um settee ou sofá bem estofado» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 13).
      Pois dicionários mais antigos ainda registam ripanso como variante de ripanço. Agora, «ripanso» evaporou-se. Vamos ver se para sempre.
[Texto 2748]

«A decisão não era nossa»

Mas como foi só porteiro...

      Francisco José Viegas, entrevistado por Isabel Coutinho para o Público: «Para ser sincero, faz-me impressão tirarem o C de coleccionador. Não é que tenha nostalgia das consoantes mudas, mas faz-me impressão a perda do P de Egipto. Provavelmente por ter feito linguística na faculdade e irritar-me com o predomínio da linguística oral sobre a filologia. Disse sempre que havia coisas erradas no Acordo Ortográfico (AO) e que era preciso revê-lo e continuo a dizê-lo» («“Não podemos transformar a língua num monstro”», 8.03.2013, p. 26). E o c e o p maiúsculos são para quê?
[Texto 2747]

«Ter ganho/ter ganhado»?

Um contributo

      «A 6 de junho de 2011, dia seguinte a Passos ter ganho as eleições, escrevi aqui que, dada a crise, era este o caminho: “as obrigações de hoje (e do resto dos dias da nossa dívida) exigem uma larga maioria”, um Governo comprometendo todos, PSD, CDS e PS, numa responsabilidade comum» («Tudo é tarde para Passos Coelho», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 8.04.2013, p. 56).
      Pode estar a cair em desuso, como vimos aqui, a forma «ter ganhado», mas ainda é a que tem a minha preferência. Para contribuir para que os duplos particípios não se deixem de usar.
[Texto 2746]

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