Regência do verbo «tardar»

Não tarda

      «Não tardou para que aparecesse alguém a dizer que Bruni [no seu novo disco, Little French Songs] se referia a François Hollande, opositor de Sarkozy que venceu as eleições presidenciais no ano passado» («Carla Bruni está de regresso aos discos», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 47).
      Ao verbo «tardar» junta-se habitualmente um infinitivo com em ou com a. Logo, seria «não tardou a aparecer».

[Texto 2729]

Léxico: «escarépio»

Não venhas contar que fui eu

      «“Devem ter, devem!”, abanou ela a cabeça. “Olha mas é os escarépios, não venhas contar que fui eu. Limpinha como o Santo Sepulcro!”» (Walt ou o Quente e o Frio, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Livraria Bertrand, 2.ª edição, [1979], p. 48).
      O Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora diz que é o «termo popular para blenorreia», mas parece-me que seja antes, como se lê no Aulete, termo da gíria. E este dicionário não regista a variante «escrépio». Popular ou da gíria, ficaria melhor no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2728]

Léxico: «genotexto»

Mais um inventado

      «Pois o Frank maltratado Camiões, com umas saudades inconfessáveis de pinocar uma dama, fora-se alimentando, entre as habilidades das fufas do Of America e o desbaste do cabo com, com um genotexto em que se afirmava esperado por certa Mary num boudoir de seu conhecimento» (Walt ou o Quente e o Frio, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Livraria Bertrand, 2.ª edição, [1979], p. 70).
      Pois este podemos encontrá-lo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «conjunto das fases (rascunhos, notas, etc.) que contribuem para a forma final de um texto».
[Texto 2727]

Léxico: «laustíbia» e «chicuelina»

Em muito poucos

      «“Não quero!”, berrei, e ia para lhe dar uma laustíbia. [...] Depreende-se disto que fui leitor assíduo da folha, mas na primeira oportunidade fiz uma chicuelina ao Joe Louis: entrei na Casa do Soldado e paguei-lhe a conta do mês, que somava dois dólares e vinte e cinco cêntimos, dando ordens ao cabo para dizer ao Joe Louis que o pai enviara de Hampton uma certa quantia» (Walt ou o Quente e o Frio, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Livraria Bertrand, 2.ª edição, [1979], p. 66).
      Nenhuma delas está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E, se a primeira apenas a vi duas vezes na minha vida, a segunda é relativamente comum.
[Texto 2726]

Outra vez as aspas

Rodeados de água

      «Estes prédios devolutos integravam as “ilhas” da Tapada, Maria Vitorina, Capela e Olímpia, habitadas até ao inverno de 2000, quando ocorreram fortes derrocadas que ameaçaram a segurança das dezenas de famílias que ali residiam, entre os Guindais e as Fontainhas» («Derrocada nos Guindais obriga a demolir casas devolutas», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 24).
      Ficamos a saber: se for a porção de terra emersa rodeada de água, é sem aspas; se for o conjunto de casas pobres, é com aspas. Na lógica dos jornalistas.
[Texto 2725]

«Interarmas»?

Hum...

      «Nesse sentido, o acordo autoriza “represálias vigorosas” que levarão a Coreia do Norte a “lamentar amargamente” qualquer ação provocadora, como avisou o chefe do Estado-Maior Interarmas sul-coreano, general Jung Seung-Jo» («Pyongyang ameaça atacar terra natal de Obama», Albano Matos, Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 24).
      Creio que é a segunda vez que vejo o termo «interarmas», que até parece português, mas nunca se sabe. Bem, mas antes isto do que traduzirem à letra chief of the Joint Chiefs of Staff.
      Nos nomes chineses e coreanos em que haja um elemento composto, o segundo termo costuma ter inicial minúscula: Tsé-tung, Kai-chek, En-lai...
[Texto 2724]

«Bagos de borracha»

Chumbada de... borracha

      «A polícia garante que “foram emitidas ordens [de paragem] aos suspeitos” e que foram efetuados dois disparos de shot gun “para o ar, com recurso a munições menos letais”, ou seja, bagos de borracha» («Polícia sob ameaça atinge jovens a tiro», Luís Fontes, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 21). Se há bagos de chumbo, natural é que houvesse bagos de borracha.
      «Havia gente que gritava e depois deram outro tiro. À esquerda estralejaram ramos dilacerados, mas nenhum bago de chumbo o atingiu desta vez» (Objecto Quase, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1984, p. 123).
[Texto 2723]

«Quando são perguntados...»

Este não emendaria Vieira

      Deputado social-democrata Leitão Amaro, ontem na Assembleia da República: «Quando são perguntados sobre os vossos compromissos, não respondem. Ficou claro: vocês só têm um projecto: chegar ao poder. O Partido Socialista, senhoras e senhores deputados, o Partido Socialista só tem um projecto: chegar ao poder, fazer em cada segundo, mesmo que seja o contrário do que disseram ontem, mas o que lhe pareça mais popular e mais atractivo para os votos.»
      Infelizmente, cinca ali na troca de pronomes — «o maior escândalo da língua portuguesa», nas palavras de Montexto —, pois junta na mesmíssima curta frase «vossos» e «respondem». Enfim, ninguém é perfeito, e mesmo a muitos dos que se ocupam das letras «soa mal» o que está correcto. Já se habituaram e não sabem o que é certo e o que é errado.
[Texto 2722]

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