Léxico: «ciclogénese»

Talvez não seja assim

      «Mas o que marcou janeiro foram os ventos que por todo o País arrancaram milhares de árvores. A tempestade ocorreu “devido a uma depressão centrada a oeste da Corunha, que sofreu um processo de ciclogénese explosiva”, explica o IPMA no boletim climatológico sobre o inverno, sendo que ocorreram rajadas superiores a 100 km/hora em quase todo o território e 140 km/hora no Cabo Carvoeiro» («Inverno que acaba hoje foi mais frio do que o normal», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 16).
      De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «ciclogénese» — que é o «processo de desenvolvimento ou intensificação de um ciclone» — é termo usado no Brasil. Talvez não seja. E, curiosamente, não está no Dicionário Houaiss.
[Texto 2705]

«Amigo comum»

Jamais li ou ouvi

      «O alegado agressor e a vítima conheceram-se no verão passado através de uma amiga em comum e começaram a contactar-se através de mensagens de telemóvel, mas, apesar das investidas dele para que se tornassem mais próximos, a menor não terá acedido, contou ao DN fonte da PJ» («PJ deteve jovem de 20 anos suspeito de violar adolescente», J. B., Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 19).
      Sempre li e ouvi «amigo comum», não «amigo em comum». Para que serve aqui a preposição?

[Texto 2704]

Como se escreve nos jornais

Era muito difícil

      «Em maio de 2011, o então cardeal Mario Bergoglio validou o dossier que seguiu para o Vaticano, onde deverá ser avaliado em “junho ou julho de 2013”, segundo referiu à AFP Horacio Zavala, vicário dos franciscanos para a Argentina e o Uruguai» («Padre argentino morto pela ditadura pode ser 1.º beatificado por Francisco», Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 29).
      Facilmente se pode confirmar que o apelido é Zabala e não Zavala. Horacio Zabala, OFMconv. (da Ordem dos Frades Menores Conventuais), é vigário provincial dos Franciscanos. «Vicário» também existe, é certo, mas é adjectivo. Em castelhano é que adjectivo e substantivo se escrevem da mesma maneira, vicario.
[Texto 2703]

Mais marechais italianos

E no mesmo sítio

      «“Somos muitos, muitíssimos, alguns fardados e armados, mais tantos a paisana [sic]. Não houve sequer um distúrbio, os jovens, italianos ou estrangeiros, viveram com alegria e interioridade este momento mágico. Este Papa é único, justo [sic] para este país, que precisava de um líder como Francisco. Era deste Papa que estávamos a precisar...”, disse-me o “marechal” que comanda mais de dez grupos de 12 guardas, treinados para “atentados terroristas”...» («Uma só estrada para 150 mil», Manuela Paixão, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 29).
      Já aqui tínhamos visto, colhido também no Diário de Notícias, o termo italiano maresciallo mal traduzido por «marechal». É claro que as aspas — com que a jornalista julga desresponsabilizar-se, como quem diz não é isto, mas agora não tenho tempo para ver o que é — não atenuam o erro. Pelo contrário.

[Texto 2702]

«Pau de dois gumes»!

Sem gume

      «Ter um ex-primeiro ministro [sic] como colaborador de uma estação de televisão é sempre um ponto a favor e, no caso de Sócrates, personalidade nada consensual, muito mais. Acontece, porém, que este convite é também um pau de dois gumes» («Contexto explosivo», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 52).
      Não anda longe da «faca de dois legumes» de Jaime Pacheco, e Nuno Azinheira tem muito — muitíssimo — menos desculpa por este disparate.
[Texto 2701]

Ortografia: «chá-mate»

Mas é assim

      «Um grupo de adolescentes com enormes bandeiras brancas, amarelas e azuis (as cores nacionais da Argentina e do Vaticano), todos com termos enormes de chá mate, dobravam as mantas em que tinham dormido» («Uma só estrada para 150 mil», Manuela Paixão, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 29).
      O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves regista (p. 242) com hífen, «chá-mate», tal como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2700]

Como se escreve nos jornais

Apesar do título

      «A notícia segundo a qual o jovem “baleado” na Bela Vista (Setúbal) não foi afinal baleado, confirmada em comunicado pela Procuradoria-Geral da República, é um twist interessante, que aproxima o caso de uma narrativa de ficção. O problema é que, com as narrativas de ficção, nunca está definitivamente esgotada a possibilidade de novo twist» («‘Come on, let’s twist again’», Joel Neto, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 52).
     Qual é o objectivo — não ser compreendido pela maioria dos leitores? Força, está no caminho certo.

[Texto 2699]

Como se escreve nos jornais

O culminar

      «Falhas só mesmo as palavras que o jogo [Apalavrados] não reconhece e que se espera que o concurso de TV admita. “Não assume interjeições e há expressões que aceita e não sei bem porquê. Nesse aspeto não é perfeito”, colmata a jornalista [Rita Marrafa de Carvalho]» («Da Internet à televisão: acorrentados às palavras», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 51).
      Se a primeira jornalista, a entrevistada, errou ao dizer que o jogo «não assume interjeições», a segunda, a entrevistadora, não acertou quando confundiu «colmatar» com «rematar».
[Texto 2698]

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