Sobre o verbo «explodir»

Quão moderno?

      «Quinze minutos antes, aparentemente os mesmos dois assaltantes chegaram de moto à estação de serviço da Galp na Estrada da Torre, em Cascais, e explodiram com a ATM» («Explodiram ATM e fugiram de moto», R. C., Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 26).
      Embora haja dicionários, e não são poucos, a dizerem o contrário, para mim o verbo «explodir» é apenas intransitivo, pelo que diria «fizeram explodir a ATM». (Anota Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «Inexacta a forma explosir, empregada por Camilo.» Mas explosir é de etimologia popular, e alguns estudiosos da língua não condenaram o seu uso. Agora, porém, nada disto interessa, porque já ninguém conhece esta variante.)
[Texto 2697]

«Léxico cinco vezes inferior»

Vamos ler para confirmar

      «Este livro está muito bem escrito. Porque é tão raro ler-se esta qualidade atualmente?», pergunta, na entrevista hoje publicada no Diário de Notícias, João Céu e Silva a Francisco José Viegas, que responde: «Tal como o cinema busca a imagem certa em cada fotograma, também na literatura deveria haver mais preocupação com a língua e com as possibilidades que dá. Assusta-me comparar o Mau Tempo no Canal com um romance contemporâneo, onde o léxico é cinco vezes inferior. Nemésio não diz árvores, refere que são pinheiros ou plátanos. Perdeu-se vocabulário e até a noção do que é um romance clássico português. Parece que a nossa literatura não tem história e que vem diretamente de Faulkner ou de Gogol» («“É o diabo quando acordamos o moralista que existe em nós”», Francisco José Viegas entrevistado por João Céu e Silva, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 49).
     Numa caixa, ainda se lê: «Para o autor, O Colecionador de Erva (Porto Editora) pode ser uma paródia ao policial, mas é um livro em que o leitor vai reencontrar a arte de escrever bem a língua portuguesa e a exigência de ler 305 páginas de uma só vez.»
[Texto 2696]

AOLP90 à força

Distracções inoportunas

      «Por razões que não vêm muito ao caso, nem têm qualquer importância especial, tive de passar o fim de semana em regime de internamento hospitalar. Isso permitiu-me ler de fio a pavio uma série de jornais, revistas e suplementos e pensar com um pouco mais de antecedência no meu artigo habitual para esta coluna. Na verdade, só me costumo premeditar de indignação quanto se trata do Acordo Ortográfico...» («‘De amicitia’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 54).
      No fim da crónica, pode ler-se: «Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico». Mas não foi suficiente para o malvado do revisor deixar de aspar os hífenes. Agora outra coisa: não é estranha aquela construção ali: «só me costumo premeditar de indignação»?

[Texto 2695]

Sr. Vírgulas

Malogrou-se-me a oportunidade

      «Segundo a edição digital do próprio diário, a entrevista do jovem André Fontaine, na altura com 26 anos, foi feita pelo rigoroso chefe de redação Robert Gauthier, conhecido como “Sr. Vírgulas”» («O diretor que salvou o ‘Le Monde’ da crise financeira», M. R., Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 43).
      Gostava de ter trabalhado com o Sr. Vírgulas («redoutable “Monsieur virgules”», lê-se no Le Monde). Trabalhou com ele o malogrado jornalista. Eu só trabalhei com o revisor antibrasileiro.
[Texto 2694] 

«Malogrado jornalista»

Infeliz jornalista

      Sobre André Fontaine: «Ligado à publicação durante 60 anos da sua vida, o malogrado jornalista, que morreu este domingo em Paris, com 91 anos, desempenhou as mais variadas funções no jornal, desde os cargos de repórter, chefe de redação e até... diretor» («O diretor que salvou o ‘Le Monde’ da crise financeira», M. R., Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 43).
      «O malogrado jornalista»... Era para escrever «foda-se», mas vá: c’um caraças! Morreu com 91 anos e é «o malogrado jornalista»? «Malogrado» é para os que morrem jovens, não para os que partem com quase um século. Haja decoro.
[Texto 2693]

Sobre «pálio»

Como é?

      «O cardeal protodiácono Jean-Louis Tauran traz o pálio — usado por cima das vestes em redor do pescoço — e o anel do Pescador, símbolos do líder da Igreja Católica» (Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 27).
      Enganam-se: não vou desancar no «líder». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista para pálio «distintivo eclesiástico (faixa branca de lã com cruzes pretas) que o papa concede aos arcebispos e a alguns bispos». Mas o pálio é o distintivo litúrgico típico do sumo pontífice. Que avancem os vaticanistas e nos expliquem.
[Texto 2692]

«Electrão livre», versão escatológica

Com a verdade m’enganas

      Não sei se vos chegou algum eco do lapso — ou da ignorância ou que merda foi — da actriz francesa Véronique Genest, agora lançada na política, que num programa de televisão em directo, o C à Vous, declarou que era «une sorte d’étron libre» — em português, «uma espécie de cagalhão livre».

[Texto 2691]

«Associé», de novo

Subtilezas ou a sua ausência

      «“Ele tinha a paixão de defender, era um dos melhores para defender os outros, mas não para se defender dos seus próprios demónios. É triste que alguém tão talentoso como ele não tenha conseguido encontrar os recursos para se defender a si próprio de si próprio”, afirmou ao Le Monde Emmanuel Marsigny, sócio de Metzner» («‘Advogado dos gangsters’ encontrado morto na sua ilha», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 23).
      Ainda se lembram de aqui termos falado de sócios e de associados dos escritórios de advogados? Pois, desta vez, é por «sócio» que o termo francês foi traduzido. Emmanuel Marsigny é «avocat associé co-fundateur» da Metzner Associés.
[Texto 2690]

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