Substantivo usado como adjectivo

Erra quem escreve

      «Era o dia de Santa Bárbara. Nessa data, os alunos que se preparavam para as altas escolas de ciências organizavam uma manifestação monstra, quase tolerada pelos professores» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 32). «Manifestação monstra», quando o original fala em tapage...
      Já aqui falámos de outro substantivo adjectivado, «benjamim». Veja-se o que escreveu Vasco Botelho de Amaral no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português: «Patriota. Esta palavra, sendo como é um substantivo, não deve usar-se como adjectivo. Portanto, erra quem escreve: “manifestação patriota”. A emenda está em “manifestação patriótica”. Mas há correcção em: “os patriotas de Portugal”. (D. D.)» (vol. 2, p. 627).
[Texto 2657]

Léxico: «tetraparésico»

Outra desconhecida

      «O ex-motorista de pesados ficou tetraparésico (perda parcial das funções motoras dos braços e pernas) depois de ter sofrido um traumatismo cranioencefálico num acidente há dois anos» («E de repente, a meio da vida, tiveram de reaprender a falar», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 6.03.2013, p. 22).
      Desconhecia este termo, tal como os dicionários. Claro que a definição parentética é a da doença, tetraparesia, mas a jornalista não terá tido tempo para pensar nessas minudências.
[Texto 2656]

Léxico: «popia»

Recomendo

      Hoje comi um bocado de uma popia de espécie. Sabem o que é? Não? Deixem lá, os dicionários também não. São uns bolos secos, em forma de argola, típicos do Alentejo. «Espécie», aqui, está por «especiaria» (é a 6.ª acepção do verbete do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Não é, contudo, inteiramente desconhecido dos livros: «Querem popias? São frescas, comprei-as esta manhã a uma mulherzinha» (Adeus, Princesa, Clara Pinto Correia. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1986, p. 98).

[Texto 2655]

Como se traduz

Depende dos dias

      «Por mais que o comerciante jurasse que a faca lhe desaparecera alguns dias antes, não pôde prová-lo; foi suspeitado, interrogado, guardado à vista; e, se não o prenderam imediatamente, foi porque o cadáver parecia ter sido arrastado e colocado diante da sua casa, como se se tratasse de uma vingança» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 178).
      Não podemos trazer para aqui apenas bons exemplos — com os maus exemplos também se aprende. No caso, dois erros crassíssimos: suspeita-se de alguém ou de algo, não se suspeita alguém ou algo. E também não guardamos ninguém à vista. Garder qqn à vue é, segundo o Trèsor, «retenir quelqu’un pendant un court délai à la disposition de la police ou d’un tribunal».
[Texto 2654]

«Revogação/revocação»

Como um íman

      «Ah! Estes sentimentos insensatos provocaram a minha indignação. Comparei-os aos que haviam preparado outrora a revocação do édito de Nantes e feito perder à França — quantas vezes o ouvira! — os mais dignos e os mais trabalhadores dos seus habitantes» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 75).
      Isto também não é raro nas traduções: entre dois ou mais vocábulos, escolher-se o que está mais próximo da língua de partida (révocation) e mais afastado da língua de chegada. Quem é que aí diz «revocação» em vez de «revogação»?
[Texto 2653]

Tradução: «je me demandais»

Pergunto a mim próprio

      Ersílio Cardoso na tradução de Silbermann, de Jacques de Lacretelle (Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d).
  1. «Mas esse sopro, perguntava eu a mim próprio, não seria antes a alma dum génio misterioso que habitava nele?» (p. 21) («me demandai-je»).
  2. «E, com infinita inquietação, perguntava a mim próprio se a escolha, pelo poder divino, desta igreja católica como lugar de punição não era um sinal que devia fazer-me abjurar...» (p. 64) («je me demandais»).
  3. «E eu perguntava a mim próprio se os sentimentos de minha mãe não se tinham sempre assim dissimulado sob roupagens austeras» (p. 99) («et je me demandais»).
[Texto 2652]

«A fim de/afim»

Não faz mal lembrar

      «Também, em Aiguesbelles, o meu avô dava ordem, na primavera, para que algumas videiras não fossem podadas, afim de que ele próprio, passeando nos seus domínios, pudesse ter o prazer de lhes aplicar o podão» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, pp. 15-16).
      Continuo a ver este erro com alguma frequência, por vezes na pena de quem julga escrever bem. Ersílio Cardoso continua a ter um pouco, só um pouco, de desculpa, pois no original está «afin que lui-même». Na língua francesa, a locução é afin que.

[Texto 2651]

Tradução: «à l’abri de»

Evite-se a cópia

      «Que êxito, quando (muitas vezes graças a uma hábil dissimulação) eu me sentia ao abrigo de toda a curiosidade» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 15).
      Tem a desculpa, acho eu, de estar a traduzir do francês, no qual se lê: «Quel succès, lorsque (souvent grâce à une habile dissimulation) je me sentais à l’abri de toute curiosité!» Sem o galicismo e dislate anfibológico da locução prepositiva, como disse Mário Barreto, seria protegido contra, protegido de.
      Vasco Botelho de Amaral no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português (Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 17): «Abrigo. Evite-se a cópia do francês à l’abri de. Em vez de “ao abrigo dessa disposição”, por exemplo, dir-se-á: graças a essa disposição, por meio dessa disposição. (D. D.). Aliás, ao abrigo da lei (e ditos semelhantes) veio do italiano, por via francesa. A dição está muito vulgarizada.»
[Texto 2650]

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