Ortografia: «antitempestade»

Uma solução

      «O homem que manteve seis dias uma criança de cinco anos presa num abrigo anti-tempestade no estado do Alabama, nos EUA, foi morto pela polícia e a criança resgatada, noticiaram os media americanos na segunda-feira à tarde (noite em Lisboa)» («Polícia mata raptor e resgata criança», Público, 6.02.2013, p. 26).
      Seja qual for o acordo ortográfico — aquele que combatem ou aquele que afirmam defender —, é antitempestade que se escreve, sem hífen. Acabei de sugerir que o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora inclua a locução tornado shelter e a tradução, abrigo antitempestade. Talvez diminuam assim os erros.
[Texto 2568]

Obras do P. António Vieira

Promete

      «Pela primeira vez vai ser reunida a obra completa do Padre António Vieira, com cartas, sermões, profecias, política, teatro, incluindo textos inéditos — a edição dos 30 volumes pelo Círculo de Leitores tem o custo de 500 mil euros e a Santa Casa da Misericórdia (SCML) é o mecenas principal, associando-se à Universidade de Lisboa (UL)» («Santa Casa paga 500 mil euros para editar todo o Padre António Vieira», Alexandra Prado Coelho, Público, 6.02.2013, p. 30).
      O conjunto vai incluir um dicionário sobre António Vieira e 60 cartas inéditas, encontradas agora na Torre do Tombo.
[Texto 2567]

Léxico: «ismaelita»

Não só, não só

      «Nicolas Sarkozy regressou à advocacia e o seu primeiro cliente foi o bilionário Karim Aga Khan. Aos 76 anos, o imã dos ismailitas encontra-se enredado no segundo processo de divórcio e o jornal britânico The Times garante que requisitou os serviços do ex-presidente francês» («Sarkozy defende Aga Khan em divórcio», Diário de Notícias, 5.02.2013, p. 27).
      Claro que é ismaelita que se escreve. Mas consultemos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «Ismaelita», neste dicionário é, como substantivo, o «descendente de Ismael, filho de Abraão», e como adjectivo, «relativo à tribo de Ismael» e «árabe». Está incompleto. Onde pára a acepção do texto? Os ismaelitas são um dos três ramos dos muçulmanos xiitas.
[Texto 2566]

Léxico: «madrasto»

De madrasta

      «Depois, com o tempo, por vicissitudes da própria actividade e da vida, as coisas vão regredindo, portanto, e vai havendo aqui um certo desalento e abandono, por dificuldades de comercialização, por dificuldades de organização, por dificuldades, portanto, de baixo rendimento, porque nós realmente desenvolvemos a actividade num meio que nós não controlamos, dependemos do clima, e isso por vezes é muito madrasto e tem dificuldades e tem consequências, digamos, muito nefastas» (Luís Saldanha Miranda, presidente dos Confederação Nacional dos Jovens Agricultores, no programa Portugal em Directo, 4.01.2013).
      Vá lá, ainda a encontramos aí pelos dicionários: «hostil e ameaçador». Muita gente, comprovei nas últimas horas, desconhecia a palavra. Ora, estamos sempre a tempo de aprender e usar.

[Texto 2565]

Porque não «micro-hostal»?

Seria mais coerente

      «Abriu este fim-de-semana [sic] o primeiro micro-hostel do mundo, no centro de Moscovo, a capital da Rússia» («Rússia inaugura primeiro micro-hostel do mundo», M. A. B., Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 33).
      Se escrevem «hostal», como já vimos aqui (vocábulo que, por minha sugestão, passou a fazer parte, juntamente com «hostau», do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), porque não escrevem «micro-hostal»?
[Texto 2564]

Como se escreve nos jornais

Pobre hífen, pobres alunos

      «De acordo com o porta-voz do estado maior das tropas francesas, o coronel Thierry Burkhard, “importantes ataques aéreos” foram levados a cabo na noite de sábado para domingo na zona de Tessalit, 200 quilómetros a norte de Tidal» («Chefes islamitas do Mali refugiam-se nas montanhas», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 22).
      Então e eu não sei que já escrevi isto?! Os jornalistas do Diário de Notícias deixaram, vá lá saber-se porquê, de usar o hífen em palavras que não mudaram com o acordo. Já vi o mesmo fenómeno em professores de Português. Claro que há erros ainda mais graves. Ontem, mostraram-me um texto de uma professora de Português em que se lia que era docente «à pelo menos metade de uma vida». Não há vidas que cheguem para curar tamanha ignorância.
[Texto 2563]

Como se escreve nos jornais

Pelo menos isso

      «No livro lançado na sexta-feira em Itália, Ali Agca conta como fugiu de uma prisão turca, na qual cumpria pena pelo assassínio de um jornalista e fala da sua estadia em Teerão, onde foi “doutrinado” durante várias semanas, antes de um suposto encontro noturno com o Guia Supremo da Revolução Iraniana, o ayhatollah [sic] Khomeini» («Memórias de Ali Agca em novo livro», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 25).
      E as aspas são para quê, pode saber-se? O homem foi doutrinado ou não foi? E estadia não é o tempo que um navio gasta, no porto, para carga e descarga? Era, dizem-me aqui. «Alguns gramáticos acham que estadia pode ser usada no mesmo sentido de estada.» E ayatollah mal escrito e sem itálico nem aspas a marcá-lo como termo de língua estrangeira. Podem não gostar — e não sei porquê — do aportuguesamento aiatola, mas então escrevam correctamente o termo estrangeiro.
[Texto 2562]


Léxico: «pesqueira»

Lampreia no Alto Minho

      «As pesqueiras são estruturas consideradas como prédios rústicos» (jornalista Andrea Neves, Jornal da Tarde, 3.01.2013). O Sr. António Castro, pescador e dono de uma pesqueira, explica mais: «Nós pagamos uma contribuição como seja um prédio rústico, uma casa ou assim. E depois pagamos uma contribuição para poder armar. E há muitas pesqueiras aqui que chamam-lhes eles interditas, que paga-se a contribuição, mas não se pode armar. É o mesmo que uma pessoa tendo a casa não pode habitá-la. A pesqueira é de uma pessoa só, foi quem a fez, os antepassados já. E depois aquilo fica dividido pelos filhos, pelos netos, e tudo mais. Depois cada um tem o seu dia aqui.»
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pesqueira é o «lugar em que há aparelhos de pesca». Quem nunca viu uma pesqueira, como é o meu caso, não vai, pela simples leitura desta definição, poder imaginar sequer do que se trata. Para o Dicionário Houaiss, que não nos leva mais longe, é o «lugar em que se encontram armações de pesca», mais ou menos a definição que já encontramos em dicionários mais antigos. Tendo em conta o que se vê na imagem, a melhor definição é a da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 21, p. 468): «Construção de madeira ou alvenaria que se instala na margem ou leito do rio, para estabelecimento de aparelhos de pesca.»
       (Quanto à contribuição, Sr. António Castro, não há-de ser elevada, pois o IMI rústico representa menos de 1 % do IMI total no País.)
[Texto 2561]

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