O desastre ortográfico

Último parágrafo da crónica de MST

      «Porque uma coisa é garantida: a arrogância dos poderosos não conhece arrependimento. Eles jamais voltarão atrás, reconhecendo que se enganaram, que se precipitaram, que foram atrás de vozes de sereias, que se esqueceram de que há coisas que nenhum país independente cede sem estremecer: o território, o património, a paisagem, a língua. Trataram isto como coisa menor, como facto herdado e consumado, de ministro em ministro, de governo em governo, de parlamento em parlamento, de Presidente em Presidente. Partiram do princípio de que os portugueses comem tudo, desde que bem embrulhado em frases grandiloquentes, com a assinatura dos influentes e a cumplicidade dos prudentes. Mas, dêem agora as voltas que quiserem dar aos acordos que assinaram e à língua que lhes cabia defender e não trair, cobriram-se de ridículo. Está escrito nos livros de História: um país que se humilha para agradar a terceiros, arrisca-se a nada recolher em troca, nem a gratidão dos outros nem o respeito dos seus. Apenas lhe resta o ridículo. Oxalá ele chegasse para matar de vez o triste Acordo Ortográfico!» («O desastre ortográfico», Miguel Sousa Tavares, Expresso, 19.01.2013, p. 7).
[Texto 2560]

«Município/concelho»

Que confusão?

      Há confusão entre os conceitos de município e de concelho? Juro que nunca tinha reparado. O primeiro é a instituição e o segundo o território, afirma categoricamente quem diz que há confusão. Consultemos um dicionário e uma enciclopédia. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, município é a «circunscrição [ou seja, divisão] territorial em que uma vereação exerce a sua jurisdição»; concelho, para este dicionário, é a «subdivisão do território sob administração de um presidente da câmara e das restantes entidades autárquicas». Parecem-me sinónimos. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, município é a «extensão territorial, em que se exerce a jurisdição de uma vereação» (Vol. 18, p. 169); concelho é a «circunscrição territorial em que se divide o distrito» (vol. 7, p. 345). Parecem-me sinónimos. Decerto: era preciso aprofundar mais a questão, consultar outras fontes, mas esta análise perfunctória demonstra que, a haver confusão, não é recente nem provém só de uma fonte.
[Texto 2559]

Como se escreve nos jornais

«Produtos»?

      «Segundo um estudo realizado pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil [APSI] abrangendo [sic] o período entre 2000 e 2009, as varandas e as janelas são os produtos que aparecem mais vezes envolvidos em quedas (38%)» («Menino caiu da varanda enquanto o pai foi ao pão», Alfredo Teixeira e Inês Banha, Diário de Notícias, 1.02.2013, p. 17).
[Texto 2558]

Gutural, pouco democrático

Não sei se percebo...

      «Já o historiador José Pacheco Pereira está preocupado com “a tendência para tornar a língua gutural” — com menos palavras, algo que considera “pouco democrático”, evocando George Orwell, fruto da “simplificação publicitária, do marketing” ou dos usos nos SMS ou no Twitter. Convidado a falar sobre o uso do Português nos media, inquieta-o “a substituição da complexidade do pensamento por mecanismos de comunicação guturais e reduzidos à sua essência, um problema em que a comunicação social colabora para ser ‘moderna’”» («Português vai desaparecer como língua de trabalho na UE, diz Seixas da Costa», Joana Amaral Cardoso, Público, 1.02.2013, p. 28).
[Texto 2557]

Os Rothschilds

Pois claro

      «Wilson disse ao Guardian e à BBC que o estudo da colecção — a que pretende dedicar-se — poderá trazer surpresas. O conservador não acredita que haja falsos entre os 500 objectos, mas admite que a investigação poderá vir a provar que alguns foram alterados ou melhorados no século XIX, quando os coleccionadores milionários, como os Rothschilds, os disputavam nos leilões e nos grandes antiquários europeus» («Jarro português do século XVI faz parte de tesouro doado ao Museu Ashmolean», Lucinda Canelas, Público, 1.02.2013, p. 28).
[Texto 2556]

Léxico: «carrinha celular»

Estamos sempre a tempo

      «A carrinha celular partiu do Estabelecimento Prisional de Braga, transportando reclusos que seriam julgados no Tribunal de Guimarães e foi já quase a chegar à cidade que, na descida da autoestrada, após o alto da Morreira, na freguesia de Brito, que [sic] o veículo entrou em despiste» («Reclusos e guardas prisionais feridos em acidente na A11», Diário de Notícias, 30.01.2013, p. 21).
      Só hoje, depois de eu ter feito a sugestão, é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passou a registar a locução carrinha celular.

[Texto 2555]

Outros em «-cídio»

Incompleto

      E, a propósito, fui ver como trata o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora os termos terminados em -cídio. Trata mal. Assim, se regista gaticídio, o acto ou efeito de matar gato(s), não regista avunculicídio, a morte do tio materno. Pior ainda: regista animicida, aquele ou aquilo que mata a alma, e não regista animicídio. Chega, como amostra. Para uma pequena lista de termos com este elemento, ver aqui no Assim Mesmo.
[Texto 2554]

Sobre «austericídio»

O contrário do que se pretende

      «“Este contexto de pressão coletiva, em resultado da política de ‘austericídio’ que o governo e a troika estão a levar à prática, afeta todas as famílias portuguesas. E as mulheres nas famílias são quem mais paga os custos”, afirmou [Ana Gomes], em Bruxelas, em declarações ao DN» («Ana Gomes acusa Governo de “austericídio”», J. F. G., Diário de Notícias, 30.01.2013, p. 12).
      Mau! Mas Ana Gomes não estará a dizer precisamente o contrário do que pretende? Austericídio só pode ser a morte da austeridade, como «homicídio» é a morte de uma pessoa praticada por outra. A eurodeputada socialista queria dizer talvez democídio, que é a morte do próprio povo às mãos do Estado.

[Texto 2553]

 

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