Como se fala por aí

FEDER

      Tantos sistemas de segurança, «redundantes», dizem os especialistas, mas afinal os comboios continuam a chocar uns contra os outros. Desta vez, em Alfarelos. Um dos passageiros disse ontem no Telejornal o que sentiu: «uma trepilação enorme; quando dou por ela, estou com a cabeça quase debaixo do banco». Talvez haja pior. Conheço uma professora de Português já aposentada que diz, vezes seguidas e com toda a certeza do mundo, que isto e aquilo está a «fedar». Pobres alunos...
[Texto 2528]

Como se fala por aí

A res

      Lima Coelho, presidente da Associação Nacional de Sargentos (ANS), na Antena 1, hoje: «Nós, militares, estamos ao serviço do povo português, não podemos ser tratados com esta menorização, como se não houvesse no seio dos militares a capacidade de gerir a sua própria coisa.» Um vizinho meu também está sempre, a propósito e a despropósito, a falar na coisa. No caso, é outra coisa. Pior ainda, só o comentador político Luís Delgado, que recorre com uma frequência desusada, e antes nunca ouvida nos meios de comunicação, a «coiso». Como também diz «não sei quê, não sei que mais», «frito e cozido», etc.
[Texto 2527]

Léxico: «tenta»

Vá lá

      «Eleazar abriu os lábios da ferida, que o armeiro tinha na ilharga direita na direcção do fígado, tenteou-a com uma espécie de tenta de prata, que tomou de um estôjo que tirara do peito da garnacha, e depois de examinar cuidadosamente, pôs-se de pé, e exclamou com verdadeiro júbilo» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 83).
      Desta ainda os modernos dicionários não se desfizeram. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lá está: «instrumento médico para sondar feridas e dilatar aberturas».
[Texto 2526]

Mudar por mudar

Pluma caprichosa

      «Maria», acabei de ler num texto, «parece ser mais jovem, mais terna e introversa. A etimologia do nome é incerta: “rebelde”, “amada”, “excelsa”...» Só por não ser vulgar, não vou alterar para «introvertida». Há, porém, quem altere tudo e mais alguma coisa, só porque lhe apetece. Ouvi recentemente o caso de um revisor que não gostou da palavra «necrológio» e a substituiu por «obituário». São uma e a mesma coisa? Sim? Então leiam este excerto: «Morre Roberto Alvim Corrêa. Leio-lhe curto necrológio no obituário do Jornal do Brasil» (O Jogo das Ilusões, Ascendino Leite. Rio de Janeiro: EdA Editora, 1985, p. 33).
[Texto 2525]

Léxico: «mentar»

Não é, não

      «— Andai, pois, ieramá, andai; e vós com êle, D. Eleazar. Ide ver se guareceis Fernão Martins de sua dor. Quant’á vós, ichacorvos, olhai que se cuidais poder ser volteiro a vosso sabor, por já não terdes a orelha esquerda... mentai bem isto que vos digo... tendes ainda a orelha direita, que, jurami, vos não será muito tempo na cabeça, se assim continuais a resistir à justiça da cidade» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 79).
       No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, podemos ver que «mentar» é termo usado em Cabo Verde e que significa mencionar, nomear. Mais: «Do crioulo cabo-verdiano mentâ(r), a partir do termo arcaico mentar, “idem”).» Corpo de Deus consagrado! Qual idem, qual quê! Mentar, em português arcaico, significa fazer lembrar.
[Texto 2524]

Léxico: «camalhão»

Para não a esquecermos

      «À sua frente esvoaçam quilómetros de plásticos presos às armações das estufas, depois de terem sido arrancados pelo temporal. Os morangos, ordeiramente plantados em camalhões (porção de terra entre dois sulcos), ficaram assim a descoberto e estragaram-se com a chuva e o vento. Os agricultores dizem que ficaram “queimados”. E comparam as poucas plantas que têm as folhas viçosas com a maioria que o vento queimou» («Vinte horas de vento forte destruíram plantações de morango do Oeste», Carlos Cipriano, Público, 21.01.2013, p. 8).
[Texto 2523]

Por vontade expressa

À nossa medida

      Mário Zambujal continua com os seus aportuguesamentos, nem todos para rir: «As notícias não chegavam tão frescas como se as mandassem por telefone ou internete, mas cá se ia sabendo como Napoleão engolia cidades e nações. Elevaram-no os franceses a nível de super-herói, enquanto tirano e cão raivoso lhe chamavam os maltratados. Que se cuidasse Portugal, não tanto por embirração do conquistador, mas por ser um pernas abertas para os ingleses» (Cafuné, Mário Zambujal. Lisboa: Clube do Autor, 2012, pp. 27-28. Revisão Henrique Tavares e Castro).
      E mais: «Por vontade expressa do autor, a presente edição não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.»
[Texto 2522]

Acordo Ortográfico, de novo

AOLP — as contas

      «E, considerando a informação aí veiculada, a resposta é a seguinte (contagem feita manualmente): antes do Acordo – e exceptuando as palavras com alteração do hífen, as palavras graves acentuadas no Brasil e não em Portugal (como idéiaideia) e as palavras com trema (pelo seu número residual e por tais situações afectarem sobretudo a ortografia brasileira) —, havia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, factofato), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, abstracto e abstrato resultam em abstrato), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes.
      Está a ler bem: com o Acordo Ortográfico, aumenta o número de palavras que se escrevem de forma diferente!!!» («A falsa unidade ortográfica», Maria Regina Rocha, Público, 19.01.2013, p. 48).

[Texto 2521]

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