Acordo Ortográfico

Não se percebe bem porquê

      «Focando, então, o Acordo actual, em primeiro lugar, deverei dizer que uma pessoa com formação linguística naturalmente que não estaria, à partida, contra um acordo ortográfico. E deverei dizer, ainda, que houve, neste acordo, tentativas (embora não totalmente eficazes) de resolver algumas questões ortográficas relativamente à grafia de novas palavras, concretamente no que diz respeito à utilização do hífen» («A falsa unidade ortográfica», Maria Regina Rocha, Público, 19.01.2013, p. 48).

[Texto 2520]

Léxico: «chispo»

Chispa daqui

      «Nos pés calçava uns chispos, sapatinhos muito delicados, altos e de longos bicos, de carneira vermelha com lavores a prêto» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 35).
      Outro nas mesmas condições de «rausar». Era o nome que se dava ao sapato de mulher muito alto e agudo, usado antigamente. Claro que, se soubermos que dantes se dava o nome de chispo ao que hoje é conhecido unicamente por chispe, a analogia salta à vista.
[Texto 2519]

Léxico: «rausar»

Desaparecido entre o pó

      «— Fernão Martins, Fernão Martins, acorrei-nos, que rausam Alda! Aqui d’el-rei! Aqui-d’el-rei! Força-nos Pero Anes, cabdel...» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 49).
      É antigo, logo vai para o lixo. E lá temos de ir aos dicionários antigos. «Rausar: raptar e violar a virgem ou mulher honesta.» Francisco Torrinha, contudo, defendeu que a grafia correcta é «rauzar».

[Texto 2518]

Quando não existia a nefanda

Agora seria impossível

      «Por esta armadura mais de cavaleiro do que de peão, e pelas maneiras com que era tratado pelos outros, via-se bem que aquêle homem era o cabeça dos demais» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 47).
      Se fosse um romance actual, escrito no nosso tempo, aquele homem só podia ser... líder! Já não há chefes, nem cabecilhas, nem cabeças, nem principais.
[Texto 2517]

Léxico: «ichacorvos»

Este também ninguém o vê

      É em vão que procuramos nos dicionários recentes da língua portuguesa o vocábulo «ichacorvos» ou «echacorvos». Vem directamente do castelhano, echacuervos, como bem se vê. O Aulete, que não rejeitou tudo o que é antigo, conserva-o: «leigo que os prelados autorizavam a pregar pelas praças públicas, para colher esmolas». E também «impostor, embusteiro», mas é na primeira acepção que o vemos empregado neste passo de Arnaldo Gama: «Depois seguiu-se o tirilintar das espadas e das achas de armas sôbre o gibanete do ichacorvos, e o martelar da bisarma dêle sôbre os escudos e sôbre os bacinetes dos contrários» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 50). Ah, sim, «tirilintar» também se sumiu dos dicionários. Vá lá, ainda conservam «terlintar» a par de «tilintar».

[Texto 2516]

«Quando muito», de novo

E por falar em erros

      É uma notícia de ontem: a pró-reitora da Universidade de Lisboa, Luísa Cerdeira, detectou erros no relatório do Fundo Monetário Internacional: «Por outro lado, por exemplo, naquilo que fala em relação à despesa do ensino superior, devem-se ter enganado, porque foi um trabalho à pressa, provavelmente, e fala de 1,6 mil milhões da despesa do ensino universitário público. É errado. Quanto muito, aquilo será o ensino superior: universidades e politécnicos.»
      Se até o cronista que abomina os indígenas se engana, quanto mais uma simples indígena, ainda que pró-reitora. É, já o vimos bastas vezes, quando muito que se diz, isto é, no máximo, se tanto.

[Texto 2515]

«Alguém» ou «ninguém»?

Será mesmo exigido pela língua?

      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213). Já tratei desta questão vai para sete anos. Outro Araújo, o excelso João de Araújo Correia, na obra Enfermaria do Idioma, afirma que uma das cismas de Camilo era, em certas frases, «substituir o alguém da sua cachimónia ao ninguém exigido pela sua e nossa língua» (p. 188). Se antes me pareceu que Araújo Correia tinha razão, hoje já tenho dúvidas.

[Texto 2514]

Plural de «Satanás»

Em português lídimo

      «— Basta, e ouve. Eu te direi em duas palavras e português lídimo ao que venho. De hoje por diante, mandarás cerrar e trancar muito bem tua porta. Andam os andaluzes na costa, e fortes como satanazes...» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 45).
      No Dom Quixote está «¡Válgate mil satanases», mas não me lembro como se tem traduzido para português. «Sesenta mil satanases te lleven», deseja o Cavaleiro da Triste Figura a Sancho Pança. É um plural duplo ou redundante, como «filhoses», por exemplo, ou «ilhoses», mas de natureza diferente do caso de «querubins», em que na língua do étimo o sufixo -im já indica plural. E claro que, na ortografia actual, o plural é satanases.
[Texto 2513]

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