Plural das siglas

Mais do que desaconselhável

      «No passado dia 30 de Março decorreu em Luanda a VII Reunião de Ministros da Educação [ME’s] da CPLP para, entre outros assuntos, discutirem a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 [AO]» («A CPLP e a consagração do desacordo ortográfico», António Emiliano, Público, 19.04.2012, p. 51).
      Sigla pluralizada? Alguns querem... Mas com apóstrofo, sinal de elisão, a elidir o quê? E os parênteses rectos?
[Texto 1394]

«Valores-recorde»!

Só neste jornal

      «Pode uma campanha política ser mais do que uma marcha infrene de “paixões tristes”? Duvido. E em 2012, à beira do abismo, ainda mais. Um facto certo em França e por toda a Europa, no momento em que as sondagens prenunciam valores-recorde de abstenção, é a extraordinária incapacidade de uma imensa parcela do eleitorado se sentir representada no actual “jogo” político» («Paixões tristes», Pedro Lomba, Público, 19.04.2012, p. 52).
      Isto, se não for, e quase de certeza não é, alteração feita pela revisão, desaprendeu Pedro Lomba com a leitura do mesmíssimo Público, único jornal que escreve desta forma.
[Texto 1393]

Desgraçadíssimo verbo «haver»

Pois parece mentira

      No noticiário das 5 da tarde da Antena 1, Rui Cardoso, recém-eleito presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público: «Podem haver brilhantes juristas, quer em termos de qualidade técnico-científica, quer em termos de probidade, de integridade das pessoas que são nomeadas, à prova de qualquer suspeita, à prova de tudo, de todo o juízo crítico de qualquer português.» Já não pode garantir — como fica provadíssimo — o mesmo em relação ao conhecimento que têm da gramática.

[Texto 1392]

«De requitó»

Reincidente

      «“Virá a ambulância, não virá?”, perguntou-se. “Que é que eu terei para ir assim de requitó para o hospital?”» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 121).
      Já conhecia a expressão... de outra obra de Alexandre Pinheiro Torres, O Adeus às Virgens. Alguém já a leu noutra obra?

[Texto 1391]

«Meter/pôr/colocar»

Derrancaram o bom povo

      Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. O repórter Virgílio Cavaco, da Antena 1, foi em demanda da Capela de Nossa Senhora do Campo, lá no cabeço do Facho, Macedo de Cavaleiros. Pôde assim ouvir o bom povo, que já está todo atrapalhado, a julgar por esta senhora, habitante da aldeia de Lamas: «Falou-se portanto com o senhor presidente da câmara para meter o santuário, ou pôr, colocar, o santuário no roteiro turístico, porque sempre teria mais pessoas que visitavam isso.»
      Ah, e sabiam que em português antigo «macedo» era a terra boa para mançaneiras? Não, não foi o repórter que o disse. Mançaneiras não, carago, que é quase castelhano, manzaneras. Macieiras. No português arcaico, a palavra era mançã, semelhante, pois, ao castelhano manzana. Se hoje dizemos «maçã», é por dissimilação das nasais.
[Texto 1390]

Léxico: «aiar»

Ai, ai

      «Povo sentimental, como é o Português, não admira que esteja sempre aos ais, do que até se fez o substantivo ai ai “lamento” e o verbo aiar, “dar ais”, arquivados no Diccionario Contemporaneo e no Novo Diccionario» (Estudos de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1961, p. 184).
      «Quando chegou ao Ninho o chofer teve de o ajudar. Sacatrapo aiava desesperado, o que fez com que a Fagueiro e o Gurmesindo logo acorressem» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 103).
[Texto 1389]

Desgraçado verbo «haver»

Haviam de ver

      Ontem foi Dia Mundial da Hemofilia. A Dra. Alice Tavares, imuno-hemoterapeuta, foi ao Bom Dia Portugal explicar este distúrbio hereditário que dificulta a coagulação do sangue. O jornalista quis saber se se deve fazer prevenção. «Deve começar antes de haverem as hemartroses, portanto as hemorragias intra-articulares, porque são essas hemorragias de repetição que vão causar as alterações musculoesqueléticas graves e incapacitantes.»
      Não é nada raro ver os vocábulos «imuno-hemoterapia» e «imuno-hemoteraupeuta» incorrectamente escritos, como, por exemplo, na página da Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches, que publicita o Curso de Aperfeiçoamento em Imunhohemoterapia». Estavam a precisar mais de um Curso Básico de Ortografia. Nas páginas da Ordem dos Médicos, do Hospital de São José, do Hospital de Santa Maria, do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio e em muitas outras lê-se essa grossa calinada. «Falar é fácil porque não há palavra que não se deixe dizer», já sentenciava Sacatrapo. O pior é escrever.

[Texto 1388]

Consoante muda

Uma nova política

      «Há uma nova esquerda», é o título da crónica, que se lê com gosto e proveito, do historiador e eurodeputado Rui Tavares. «Historiador e eurodeputado» é mesmo o que se lê agora no fim da crónica, já sem o ferrete «a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico». Podemos vislumbrar aqui uma nova atitude do Público?
[Texto 1387]

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