Quais estrangeirismos?

Este é que era sensato

      «Rui Barbosa, no lugar indicado da sua Réplica que eu cito sempre que posso e com loa pela muita erudição que encerra e pela fadiga e trabalho que deve ter custado a seu autor, salvou palavras e construções do injusto ferrete de galicanas, e mostrou o quanto é delicada e exposta a equivocações a divisão exacta dos vocábulos em estranhos e castiços, pois pululam grande número de vozes, que, ainda que parecem novas e de fisionomia tirante ao francês, são de mui antiga e acrisolada ascendência. É preciso, pois, que se ponha suma atenção ao qualificar as palavras e frases que se supõem suspeitosas do pecado de estrangeirismo, para que não suceda que, por excluir as forasteiras, vindas de França, arrojemos tambêm do seu próprio solar palavras lusitaníssimas» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 117).
      Faz lembrar o provérbio (alemão?) que diz que não se deve deitar fora o bebé com a água do banho, que ainda ontem ouvi na rádio. Como a pessoa que estava ao meu lado elevou para mim um olhar interrogador, posso supor que é menos universal do que eu pensava? Não. Se estivéssemos a ouvir a BBC Radio 4 — Throw out the baby with the bath water either —, o olhar já teria sido de entendimento.

[Texto 1141]

De como a revisão faz falta

Estas contas

      Eu não dava mais de 70 anos a Almeida Faria, mas, pelo que leio na Ípsilon, tem 88! «Muito novo, Almeida Faria deu sinais de não jogar de acordo com as regras habituais da carreira literária: surgiu cedo e com brado, publicando “Rumor Branco” em 1943, com 19 anos – uma raridade, face à maturidade do livro» («O regresso do estilista esquivo», João Bonifácio, p. 20). A falta de revisão nota-se sempre: «Em termos estilísticos, o livro representa um salto na sua obra – é mais narrativo e mais ensaístico do que toda a sua produção, mas acima de tudo menos barroco, mais limpo e as longas elipses que usava.» As longas elipses que usava... desapareceram.

[Texto 1140]

Inanidades em vez de notícias

Ah! Je suis fadé!...

      «As mulheres que participavam nestas festas eram prostitutas que trabalhavam para Dodo La Saumure (a Salmoura), proprietário de vários bordéis na Bélgica, junto à fronteira» («Strauss-Kahn será arguido por suspeita de cumplicidade em proxenetismo e receptação», Clara Barata, Público, 23.02.2012, p. 18).
Sim, saumure significa «salmoura», como dodo quer dizer «caminha» e «oó» — e depois, cara Clara Barata, que acrescenta isso à notícia senão caracteres? Está aqui a escapar-me alguma coisa? Se se chamasse Dodo le Branleur, ainda vá que não vá.
[Texto 1139]

Como se fala na rádio

Filosofices

      «Uma semana depois de terminar o prazo dado às autarquias para apresentarem um plano de pagamento das dívidas à Águas de Portugal (AdP), o Ministério do Ambiente não divulgou quantas câmaras cumpriram as orientações da tutela» («Dívidas das câmaras à Águas de Portugal sem plano», Público, 23.02.2012, p. 7).
      Sim, subentende-se ali a palavra «empresa», mas não deixa de ser estranho. «Uma semana depois de terminar o prazo dado às autarquias para apresentarem um plano de pagamento das dívidas à empresa Águas de Portugal, etc.» «Bem vindo à Águas de Cascais», li hoje mal entrei no edifício da empresa na Avenida do Ultramar. (E na Antena 2 ouvi uma entrevista a Eduardo Lourenço em que o filósofo falava da nossa «ex-África».)
[Texto 1138]

Como se fala na rádio

Levado ao extremo

      Rui Pedro, disse Pedro Malaquias na revista de imprensa na Antena 2, hoje de manhã, «está desaparecido em parte incerta». Se estivesse desaparecido em parte certa, provavelmente já teria sido encontrado...

[Texto 1137]

«Prescindir de»

Pode acontecer

      «Bem sabemos que o país vive a hora de prescindir os anéis para salvar os dedos. Mas a pressão dos cortes não deve ser um rolo compressor que faça tábua rasa de um passado», lê-se no editorial de hoje do Público. Como pode não ser gralha, é conveniente dizer que está errado. Correcto é prescindir de.

[Texto 1136]

Como se escreve nos jornais

Chega: já sabemos

      «Paszkowski era um amigo chegado de DSK, como os franceses lhe chamam, aquele com quem ele trocava sms [sic], que no âmbito do processo são passados a pente fino, em busca de pistas. Os juízes tentam determinar se o ex-dirigente do FMI sabia ou não que as festas se faziam com prostitutas. Strauss-Kahn garante que não» («Strauss-Kahn será arguido por suspeita de cumplicidade em proxenetismo e receptação», Clara Barata, Público, 23.02.2012, p. 19).
      Depois de meses e meses a escreverem o mesmo, será necessário que à abreviatura DSK se siga sempre o apêndice «como os franceses lhe chamam»?

[Texto 1135]

Pontuação de frase

Recomendo

      Um historiador, Cristiano Pinheiro de Paula Couto, quis saber como pontuar uma frase. Vai daí, achou que o melhor era perguntar ao Ciberdúvidas: «“A história ou, mais precisamente, a historiografia tem participado desse diálogo por meio de contribuições com origem em alguns de seus ramos, como a história intelectual e a história política renovada.”
      “A história, ou mais precisamente a historiografia, tem participado desse diálogo por meio de contribuições com origem em alguns de seus ramos, como a história intelectual e a história política renovada.”
      Afinal, como devo pontuar essa frase?»
      Ao que respondeu o consultor: «Recomendo a segunda opção, visto a expressão “mais precisamente” introduzir, de forma semelhante a um aposto, a retificação ou a especificação de uma expressão imediatamente anterior no contexto frásico:
      1. “A história, ou mais precisamente a historiografia, tem participado...”
      Em expressão [sic] “ou mais precisamente” poderia também ocorrer sem a conjunção coordenativa disjuntiva ou: “A história, mais precisamente a historiografia, tem...”
      Não encontro informação em gramáticas ou prontuários que reforcem esta minha recomendação. Na falta de outras fontes normativas, a observação de corpora linguísticos pode ser útil para definir um padrão de uso. Por isso, compare-se 1 com a pontuação das frases 2 e 3, recolhidas no Corpus do Português, de Mark Davies e Michael Ferreira:
      2. “A França, mais precisamente Paris, passou a ser o centro das atividades artísticas.”
      3. “No século XV, mais precisamente em 1442, fundou-se a Gilda [sic] de São Lucas.”
      Os exemplos 2 e 3 permitem evidenciar que “mais precisamente X” se usa habitualmente entre vírgulas.»
      Sim, «mais precisamente X» usa-se habitualmente entre vírgulas, mas as expressões definidoras ou esclarecedoras, como alguns autores as designam, tais como isto é, a saber, quer dizer, ou seja, etc., não incluem a rectificação ou especificação, e, assim, a primeira opção também está correcta.

[Texto 1134]

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