Ortografia: «leão-marinho-da-califórnia»

Não recomendo

      «Penso que o correcto», escreve Maria Sousa, uma editora, no Ciberdúvidas, «é escrever leão-marinho-da-califórnia, ou seja, com as iniciais minúsculas. No entanto, se se pretender, para salientar o nome do animal, começar por maiúscula, devo utilizar a maiúscula para as restantes palavras que compõem o nome? Ou seja, devo escrever Leão-marinho-da-califórnia, ou Leão-Marinho-da-Califórnia?» Não percebo para quê tal realce, mas está bem. O consultor respondeu: «A palavra corresponde a substantivo comum, pelo que deve ser escrita com iniciais minúsculas: leão-marinho-da-califórnia. Sobre a possibilidade colocada, tendo em conta que preposições e contrações não têm maiúscula inicial em nome de países (p. ex., Estados Unidos da América, Costa do Marfim), recomendo a forma proposta pela consulente, só em situações excecionais: Leão-Marinho-da-Califórnia.» A possibilidade colocada... Bem, eu não recomendo.
[Texto 1133]

Como se traduz nos jornais

Ou uma prostituta vestida

      «“Nessas soirées as mulheres não tinham roupa, e desafio quem quer que seja a distinguir uma mulher nua de uma prostituta nua”, disse o seu advogado Henri Leclerc» («Strauss-Kahn permanece sob detenção numa esquadra de Lille até terminar interrogatório», Rita Siza, Público, 22.02.2012, p. 19).
      Soirée! Mas então que diremos? Serão? Sarau? Reunião nocturna? Na imprensa de língua inglesa, escreveram assim: «“At these parties, people were not necessarily dressed, and I defy you to tell the difference between a naked prostitute and any other naked woman,” he said.» Reparem também: «people were not necessarily dressed». O Libération diz o mesmo: «Selon le conseil de DSK, “dans ces soirées, on n’est pas forcément habillé. Et je vous défie de distinguer une prostituée nue d’une femme du monde nue”, avait déclaré Me Henri Leclerc.» Mal traduzido, pois.
[Texto 1132]

Como se escreve nos jornais

Da participação em rixa

      Pierre Casiraghi, o filho mais novo da princesa Carolina do Mónaco, envolveu-se numa briga num bar de Nova Iorque. É o que se lê no Público, e percebe-se («Nova Iorque. Pierre Casighari [sic] ferido em briga», «P2»/Público, 22.02.2012, p. 15). O último parágrafo, pelo estilo telegráfico, é que nos deixa um pouco atordoados: «No domingo, Pierre foi hospitalizado para tratar ferimentos e Adam Hock compareceu perante em [sic] tribunal, sendo acusado de agressões. Questionou por que não havia acusações contra Casighari [sic]. A Casa Real de Mónaco comentou.»
[Texto 1131]

O AOLP90 mal pensado

Uma espécie de argumento

      «Eu não vou aderir nunca ao acordo ortográfico», escreve o fundador do Clube dos Pensadores, Joaquim Jorge, na edição de hoje do Público. Há muitas pessoas a dizerem o mesmo, mas têm sempre* mais de 50 anos (e 60, e 70...) e não vivem, directa ou indirectamente, da escrita. A mensagem principal, demasiado repetida, é a de que o autor não vai escrever em conformidade com as novas regras ortográficas. «Vou escrever sempre como aprendi e me ensinaram.» «A língua é algo inegociável e patriótico, nada se consegue à força. Eu vou continuar a escrever como antigamente.» «Não contem comigo.» «Quando escrevo um artigo de opinião para um jornal vinco no fim do texto que escrevo ao abrigo do antigo acordo ortográfico, aliás não sei escrever ao abrigo do novo acordo e nem me interessa saber nem perceber.» Argumento (ou ameaça, ou ideia...) final: «Não se muda uma língua por decreto, contra a vontade de um povo e contra a maioria de pareceres técnico-científicos. O que é imposto dificilmente é aceite.» Ah não? Então e a ortografia do Acordo Ortográfico de 1945, aquela que o biólogo Joaquim Jorge usa, é inata, uma dádiva dos deuses?

[Texto 1130]

* Só com uma excepção, que eu conheça: João Pedro Graça, o primeiro subscritor da ILC, que, segundo notícia do Público aqui reproduzida, «abdicou da sua profissão, e está agora desempregado, por se recusar a trabalhar subjugado pelo AO». Só espero que não aufira subsídio de desemprego, pois era como o tipo que mata os pais e depois pede auxílio por ser órfão.

Sobre «modelo»

Ele é que sabia

      «Houve dançarinos que foram às mesas buscar modelos para os colocarem elegantemente em cima das mesas ao som de Led Zeppelin, um concerto da orquestra de jazz de Ronnie Scott e números de magia do holandês Hans Klok, que fez da manequim Alexa Chung sua assistente (Chung não foi só hipnotizada, como levitou sobre três espadas)» («Londres Jantar de Stella McCartney ficou na história da moda», «P2»/Público, 21.02.2012, p. 15).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «modelo», nesta acepção, é de ambos os géneros. O revisor antibrasileiro não deixava passar isto, que considerava um disparate. Modelo é do género masculino.
[Texto 1129]

Léxico: «semáfora»

Termo da Marinha

      «Na sua origem está o movimento britânico de luta contra o nuclear e a semáfora, o código de bandeiras usado para a comunicação entre embarcações, mas quase todos o conhecemos como o símbolo da paz, impresso em t-shirts e canecas, pintado em paredes, viadutos e nas velhas Volkswagen “pão de forma”» («Gerald Holtom cria o símbolo que viria a ser da paz», «P2»/Público, 21.02.2012, p. 2).
      É termo que não está em muitos dicionários. O Dicionário Houaiss acolhe-o: «bandeirola colorida para transmissão manual de sinais, usada aos pares». Acabei de redigir uma definição e ofereci-a ao Departamento de Dicionários da Porto Editora.
[Texto 1128]

«Sua eminência reverendíssima»

Bem e mal

      «A alfaiataria fica em Roma, a Cidade dos Cardeais. As vestes de suas eminências reverendíssimas são apenas feitas de vermelho carmesim. Numa Igreja marcada por símbolos, a cor contém uma importante mensagem», disse Márcia Rodrigues. E logo a seguir o padre John Wauck, um vaticanista bem-disposto, explicou o simbolismo das cores. Esta é, de facto, a forma de tratamento de um cardeal, quando referido de forma indirecta: sua eminência reverendíssima. Ora, ainda recentemente ouvi um oficial do Exército a referir-se ao bispo D. Januário Torgal Ferreira como «sua eminência». Márcia Rodrigues errou a seguir: «Os cardeais, também tidos como príncipes da Igreja, distinguem-se pelo barrete cardinalício.» Príncipe da Igreja é um título criado pelo Papa Bonifácio VIII. Ainda teve, contudo, oportunidade de ensinar que «o nome “cardeal” significa “eixo”, uma linha que gira em torno do papa».
[Texto 1127]

«Se não/senão»

Mas escrevam melhor

      «“Esta situação é um autêntico engano e o Governo sabe-o há meses. Todos os matadouros da região de Paris vendem carne halal, sem excepção. Não há se não carne halal”, argumentou Le Pen, no congresso em Lille neste fim-de-semana do seu partido, a Frente Nacional. É um regresso ao território anti-imigração habitual na líder da extrema-direita francesa, a qual ameaçou apresentar queixas legais contra os distribuidores por “enganarem os consumidores”» («Marine Le Pen volta à retórica anti-imigração e anti-islâmica», Público, 20.02.2011, p. 17).
      «Não há senão mato rasteiro, imbondeiros, nuvens, abutres, um horizonte por vezes cor de fogo, talvez revérberos de queimadas» (Jornada de África, Manuel Alegre. Revisão de Susana Baeta. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2007, p. 95).
[Texto 1126]

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